25/09/04

DITO e FEITO

por HomemQueColeccionaOsSeusPrópriosPassosEGuardaOsMelhoresNumArmário
Ontem a Sponto viveu mais uma jornada marcante, desta feita em Pombal, onde pelas mãos do Cão, se assistiu ao lançamento do Jornal Semanário “Dito e Feito”. E antes de mais aqui fica a publicidade: jornal de Pombal e das Terras de Sicó, que se propõe irreverente e interveniente, informativo e cultural. A coisa sairá à Sexta-Feira, em Pombal, podendo ser comprado em Coimbra, na Papelaria Santa Cruz, junto ao Café do mesmo nome.

O Núcleo Duro dos Iluminados do Ranhoso, Órgão Semi-Supremo da Sponto, começou as hostilidades no salão do povo do Manjar do Marquês, onde se acompanhou o tradicional arroz de tomate com pasteis de bacalhau e filetes de pescada, com um tintinho de bom preço na casa, que agradou e se recomenda, o australiano Seppelt Moyston, 2002, a 8€ a botelha. Feito com Syrah e Cabernet, mostrou-se muito bem feito, sem o apimentado do Cabernet verde e com alguma profundidade e riqueza de aromas a frutos pretos sobre-maduros. E é o mais barato da casa. Só é pena a rolha de plástico. Amorins watchout!

O nº Zero do DeF é uma coisa primorosa, com excelente arranjo gráfico, riqueza fotográfica e alguns textos de fino recorte e patada. O Tapor está presente e está ao dispor da redação.

Comido, bebido e letrado, o Núcleo rumou a Coimbra, onde se foi aventurar na zona de bares da Sé Velha, perante a qual desatou logo a marradeira geral sobre se a SéVelha é Românica ou Gótica. Fomos à procura do Aqui Há Rato e chapéu! O que lá havia no mesmo sitio, era o MariaJuana. M.Juana prós amigos. Entrou-se e pimba, eis-nos no reino do Gótico. Excelente música. Profusa Fauna Gótica. A tribo, maioritária e esmagadoramente fêmea, vestia de preto profundo, com variações de negro, correntes, cabedais, látex, botas da tropa, fendas rasgadas, e veludos acetinados e cetins de spanking.

Junto ao bar, uma vetusta cadeira de barbeiro, que o Vice logo abarbatou. A destoar da negritude esvoaçante e felina, apenas nós. Com o Vice de T-Shirt vermelha Aeroflot com Foice e Martelo, o Pilas de Lacoste verde, O Mangas de camisa Rockabilly turquesa, o Tinó de branco e jeans e o Grão de camisinha Victor Emmanuel amarela e azul, criou-se ali no meio uma ilha de diferença, só ultrapassada em grande por um gordo de flanela vestido que se entretinha a coçar-se.

Tirando o Flanelas e a Sponto, o ambiente era completamente gótico, numa obra ao negro carregada e excessiva, mas sem ser pesada ou deprimente. Pelo meio começou-se a discutir a estética gótica e o culto do negro e chegámos ao Umberto Eco, uma vez que este no seu livro “Cinco Escritos Morais”, afirma que o maior sucesso da moda italiana não se deu com Versace, Armani ou a Benetton, mas sim com o Fascismo Italiano, que implantou e exportou a moda das camisas negras e do negro total dos pés à cabeça. A negritude como moda, é uma criação dos Fascisti e do Duce, que com ela afirmaram a diferença e a identidade de tribo, de sentimento de pertença a algo demarcado e segregado. Ontem os Fascistas, hoje os Góticos. A tribo negra.
Tá-se bem no MariaJuana.

24/09/04

Silva Go West, um conto de cóbois e pioneiros por Jócta Apitou Três Vezes

John Sanabagana sempre fora uma besta estúpida. Estamos em meados do século XIX mas a infância do estupor decorreu por inícios do mesmo século, em Boston, Machachucha, mais precisamente no matadouro do tio, ao fundo à esquerda da sebosa Downbythewaterfront Street. John cresceu órfão de pai e mãe e delirava com o abate do gado. Ao fim do dia divertia-se a escorregar pelo chão do matadouro, como quem patina, nas grandes poças de sangue das vacas e dos bois massacrados. Na escola fugia ao recreio para ir ver esfaquear animais de grande porte. Quando cresceu, depois de uma irregular carreira no negócio dos abates (a força física e o entusiasmo pela morte violenta dos animais não chegavam para compensar a inaptidão completa para gerir negócios ou outra coisa qualquer) e depois de estripar pela enésima vez um marinheiro nas docas da cidade numa noite de borracheira, John Sanabagana fugiu. Nos matadouros de Boston corria o boato que fugira para o West, tese credível na medida em que toda a gente em Boston naquela altura fugia nessa direcção sem lei, onde John poderia expressar livremente as suas potencialidades destrutivas construindo algo.
O John cresceu mais um bom bocado, e encontramo-lo finalmente em meados do século XIX, onde estamos. É onde vemos, afinal, Big John Sanabagana, grande rancheiro do Arizona, dono e senhor de um quarto do Estado (uma carrada de estádios de futebol) e das respectivas cabeças, de gado ou outras. A ascensão de John a Big não foi fulgurante. Nada disso, foi árdua, violenta e lenta. Épica! O John precisou de suar suor e sangue, dos outros, às golfadas, até chegar ao poder em que o encontramos em meados do tal século. Índios, outros sanabaganas, pretos, amarelos, mineiros, engenheiros dos caminhos de ferro, pastores luteranos, senhoras da Avon, mais índios, juízes, cobras, carteiros, xérifes, prostitutas, tatus, mulheres em geral, homens em geral, etc., etc., etc. Quase todos ali naquela parte do velho west dos states sentiram o fio aguçado da famigerada e grande faca de matar porcos de John, homem de aço e não de chumbo, zás-tum-tunga, mestre da naifa, zum… Foi longa e árdua a gesta do carniceiro de Boston. Big John Sanabanaga. The man.
Já soberanamente instalado no Big Ranch, em meados, John contemplava o seu império agro-pecuário. De pé no alpendre da enorme vivenda, o fazendeiro impiedoso e ignorante coça os tomates. Dá dois passos para a frente, escarra no chão do alpendre e diz para o xerife, que parecia esperar alguma coisa, humilde, de chapéu torcido à frente dos genitais, na poeira do acesso ao alpendre, dois metros abaixo do John:
- Hoje não quero conversa, nem boa tarde nem o caralho, nem quero olhar para ti que metes nojo. Amanhã de manhã vais ao Hotel da outra puta, da tua amiga, e metes um tiro nos cornos ao palhaço. À hora de almoço vens aqui dizer assim: está feito, senhor Big John Sanabagana, obrigado. Baza
Big John escarrou outra vez, desta vez na direcção do xerife, e assobiou com dois grossos e sebentos dedos de cada mão entalados nos lábios, soando com a potência de um sirene. Como que nascendo da terra, dos mais variados pontos do rancho, cerca de duas dezenas de cães grandes e feios como os trovões começaram a correr e a ladrar como demónios na direcção do dono odioso. O xerife entrou no carro em pânico e só voltou no dia seguinte, pela hora de almoço. Onze da manhã pelo horário de Big John. O palhaço morreu às sete da manhã. Morreu muito cedo porque o xerife estava ansioso por agradar ao aborto do rancheiro. Foi fácil, o palhaço não ofereceu resistência porque estava a dormir. Depois foi só uma questão de esperar pela hora de almoço indicada. No velho West, no entanto, os verdadeiros pioneiros sabiam ser pacientes quando era preciso.
- Está feito, senhor Big John Sanabagana, obrigado.
- Agora vai-te foder.
- Obrigado, senhor.
- Não, estúpido do caralho, estava a gozar contigo. Anda cá p’ró pé de mim, aqui juntinho ao meu ombro, anda cá, dá cá o teu ouvidinho, dá cá. Agora, quero que deixes o cabrão do palhaço morto estendido ao sol, uns tempitos, tipo um dia, depois cortas-lhe a piça e vais levá-la à puta da Laurinda, que há-de estar em casa dela. Embrulhas num paninho, entregas em mão e dizes só que vai da minha parte. Xô, andor daqui para fora, senão chamo os cães.
- Obrigado.
- Vai-te foder meu… ai os tomates... Rosnou Big John Sanabagana entre dentes, como quem chama por cães.
A Laurinda era a corista principal do saloon e compreensivelmente não gostou da prenda de Big John. Mesmo no antigo West há limites. Nem um palhaço merece tal sorte. Principalmente um palhaço que é pai. Mas sobretudo um palhaço que é nosso pai. O palhaço era, pois, pai da Laurinda, que fervia de ódio, qual Mercedes McCambridge. Olhando para a bolsa aberta, a corista fez umas contas de cabeça e gritou:
- Óh Silva!
Solicito, o Silva correu para junto da senhora.
- Diga, minha senhora. Disse o Silva, que era o idiota da aldeia.
- Olha, dou-te o dinheiro todo que tenho na carteira e faço-te um bóbó se me fizeres um favor.
- É para já, minha senhora.
- Vais lá acima ao Big Ranch e dás um tiro nos cornos ao Big John.
- Precisa para agora?
- Se puder ser.
- Vou ver o que é que posso fazer. Acho que tinha um servicito para as três, deixe cá ver no filo-fax… não, foi desmarcado. Pronto. Sendo assim estamos combinados. Até já… E o bóbó, como é, venho cá logo à noite a sua casa, vai lá à barraca, como é que é?
- Vens aqui ter.
- Está bem. E uma garrafita de tinto?
Silva nem sempre foi o idiota da aldeia. Ou melhor, sempre fora idiota e sempre fora da aldeia, mas não fora, de longe, O idiota da aldeia, The Number One. O português chegou, começou um negócio de cortumes, espalhou-se, concorreu a xérife, ganhou, veio o John e meteu-o no olho da rua porque naquele dia esquecera-se da faca de matar porcos na vivenda. O Silva nunca mais pensou no assunto e meteu-se nos copos e a fazer biscates às putas e às coristas. Hoje, em meados do século XIX, o Silva de Fornos de Algodres vai roto, bêbado e aos esses por uma vereda do Arizona. Ao chegar aos degraus do alpendre da vivenda do infame Big John Sanabagana, o Silva pára e diz.
- Olhe faz favor, mandaram-me dar-lhe um tiro nos cornos.
Big John Sanabagana nem tugiu nem mugiu porque dormia sentado no banco do alpendre quando levou com os chumbos grossos no meio da testa e ficou sem metade da cabeça, e um buraco enorme na parede da vivenda. Só então os cães despertaram do estupor da torreira, para fugir com o susto do balázio da caçadeira de canos serrados do imbecil do Silva.
À noite, Mary-Lou Laurinda, cuja avó paterna era natural da Ilha Terceira, fez o bóbó ao estúpido do Silva, que deixou de beber e voltou a apostar no negócio dos cortumes. Idiota crónico, espalhou-se. É outra vez xérife e correu com a Laurinda, que dava mau nome à aldeia.

23/09/04

BAD BOY, de ERIC FISCHL, por BOM RAPAZ

O quadro anexo chama-se “Bad Boy” e é do pintor americano Eric Fischl, que o pintou em 1981. Fischl, já anteriormente havia chocado as boas consciências, transportando para a arte um sentido voyeur e ilícito, quando em 1979 pintou o “Sleepwalker”, quadro que mostra um rapaz adolescente de pé, numa piscina de jardim, em pleno acto de masturbação. Com este “Bad Boy”, Fischl pregou mais uma cavilha no puritanismo americano. Como sempre e antes da consagração, o pintor foi repudiado e declarado maldito. Hoje faz parte de qualquer colectânea de pintura moderna, embora não certamente da colectânea da Irmã Wendy Becket, que até o Balthus relega para segundo plano.

Neste “Bad Boy”, o voyeurismo e a transgressão sexual invadem a tela. O rapaz vê a mulher e nós vemos tudo. A mulher, madura e nua, plena de luxúria, permanece na cama, indiferente ao tempo e à pressa. Não parece haver culpa da parte dela. Ao invés, o rapaz vestiu-se à pressa. Está completamente vestido e pronto a sair. Pela pressa da vestimenta, transparece alguma culpa no rapaz, a qual, contudo, o não demove de meter a mão na massa.

As cores usadas por Fischl são escuras e frias, mas o quadro transborda de calor e desejo. As persianas reflectem-se no corpo da mulher, num gradeamento sugestivo de prisão. O puto é novinho, macaco, mas está-se nas tintas para as bananas e prefere o roubo da carteira. Joga jogo duplo, certamente descansado de que não vai haver acusação pública.

A cena é tabu, obscena e perversa. Fischl transpõe nas suas telas o eterno jogo da transgressão, na arte como na vida.

21/09/04

Salvem as Sardinhas, Ó Pá!, por Tinó

Eu detesto golfinhos e tartarugas. O golfinho, então, é particularmente irritante, com aquele seu sorrisinho cínico de Giocônda. Há um mito segundo o qual os golfinhos são nossos amigos. Pois sim, com papas e bolos se enganam os tolos, e mais não digo para não me acusarem de alarmismo… Ainda por cima esses animais têm um tratamento privilegiado em relação aos outros animais, em nome de um estatuto hierárquico que nunca percebi. No outro vi uma reportagem na televisão sobre uma “inocente” tartaruga (reparem como coloco inocente entre aspas..) que tinha sido recolhida no mar com um anzol no estômago. Pois foi uma correria de zoólogos e veterinários a acudir à “inocente” tartaruga! E que fizeram então, para a reabilitar? Deram-lhe a comer… sardinhas. O operador de câmara filmou, sem vacilar, a cena do tratador da “inocente” tartaruga a atirar sardinhas para o aquário. Não vêm nada de ontologicamente errado aqui? Não haverá qualquer coisa de estranho em condenar um animal para salvar outro? Ora, eu julgo que está na altura de equilibrar as coisas, antes que seja tarde. Eu tenho um sonho. Eu imagino o dia em que finalmente saia a seguinte notícia:

Foi encontrada no Mar do Norte, por um arrastão de pesca ao golfinho, uma sardinha com um anzol cravado nas guelras. De acordo com o pescador que a recolheu, e que por isso está a receber tratamento psicológico, o animal estava debilitado e parecia sofrer bastante. A sardinha, a quem puseram o nome de Flipper, foi de imediato levada para o Centro Internacional de Reabilitação de Sardinhas do Cartaxo, onde está a ser vigiada por um grupo de cientistas e alimentada a pedacinhos de tartaruga. Em todo o país têm surgido manifestações de júbilo pelo salvamento da sardinha e as crianças têm enviado para o Centro postais com bonitos desenhos e poemas para a animar. Prevê-se que no prazo máximo de um mês, a sardinha recupere a sua saúde e estabilidade emocional e possa assim ser devolvida ao seu habitat natural.

Ou esta:

Um grupo de activistas da ONG “Save the Sardines”, invadiu ontem o Sardinha Fun, parque de diversões aquático no Jardim Zoológico, para exigir a libertação do cativeiro das sardinhas que ali se exibem para as crianças. “É impressionante que em pleno século XXI ainda se use a sardinha como motivo de diversão, atentando contra a sua dignidade de sardinha”, afirmou um dos activistas. O responsável do parque de diversões, por sua vez, disse compreender as preocupações dos manifestantes, mas garante que os animais são bem tratados. Segundo ele, e citamos, “a saúde das sardinhas é vigiada por veterinários e gastamos com elas cerca de vinte quilos de carne de golfinho por dia. E acrescentou: “Queria chamar também a atenção para o facto de muitas das sardinhas terem já nascido em cativeiro, pelo que é quase certo que não se iriam habituar ao mundo selvagem lá fora, ficando sem defesa para se defender de predadores daninhos como o golfinho e a tartaruga”

Ou ainda esta:

Foi descoberta na Lagoa da Vela, em Quiaios, uma praga de golfinhos. Um trabalhador da Câmara Municipal disse à nossa reportagem: “Caramba, ainda há pouco tempo andámos a arrancar o limo da lagoa e agora aparece-nos isto! Não há descanso! Se cai ali uma criança é que eu quero ver como é!”

Rosário de tristes contas, por Perro Caliente

O ministro das Finanças, Bagão Félix, nunca deixa de me atrair a atenção. Não só pelo que diz como pela curiosa mistura que o rosto e a expressão argamassam: sob um olhar jesuíta, aquele nariz semita e aquela fina boca de canivete. Tudo na figura dele me acorda para o mau pesadelo de Salazar. Nas mãos, em vez da papeleta do discurso ou da caderneta de poupança, adivinha-se-lhe um rosário. Na lapela, quase lobrigo um alfinete de ouro com a águia da Luz. Nunca estive perto do senhor, mas não me é difícil adivinhar que dele emanará uma fragrância mista de bolacha e água benta. Em seu gabinete, é natural que pondere entre madeiras escuras, numa meia-luz de sacrário que imporá aos assessores um silêncio de martírio tranquilo. Mas, enfim, nada isto é importante. Importante é o que sofremos por causa de o Governo ser constituído por figuras destas.
Quando gizou o novo Código Laboral, deve ter-se benzido: afinal, quem o sofre é quase tudo cristãos. Apreciei o ar de pardal repugnado com que esvoaçou, apesar de tudo incólume, entre a revoada triste do processo da Casa P(edofil)ia. Mas não gostei que lhe tivesse faltado a dignidade mínima de fazer o que Manuela Ferreira Leite fez: virar as costas a Santana e ir trabalhar, que é o que ele gosta de nos mandar fazer depois de nos condenar ao desemprego.
Agora empossado nas Finanças, apareceu na televisão com aquele ar entre o seráfico e o mefistotélico, aspergindo-nos com os perdigotos de extrema-unção das contas públicas. Que o Estado não tem cheta, diz ele (como se o Estado não fôssemos nós). Que o défice público vai deixar de ser uma obsessão (afinal, era uma obsessão, Manuela). Que vai haver crescimento (de número de assessores, suponho, não exactamente do PIB). Que o tabaco vai aumentar (deve aumentar os mesmo cêntimos que as pensões e os salários).
Acontece que eu acredito que o ministro acredite naquilo que diz. Eu é que não acredito. Não acredito, pronto. Falta-me a fé(lix). E ando sem bago, quanto mais bagão.
Com os anos, uma espécie de ateísmo político emaranha-se-me no optimismo, tornando-me incréu. Incréu e azedo.
Depois, penso com amargura nas pessoas que deram o corpo e a alma ao manifesto para que um dia este País proporcionasse trabalho aos cidadãos livres de o procurar. Educação para todos, idem. Saúde, habitação, justiça, essas coisas, ibidem. Mas não. Portugal descola-se cada vez mais dos campos, onde uma população inculta amanha a couve à espera que o filho venha do Luxemburgo em Agosto. As fábricas declaram falências não raro fraudulentas. Os mais abastados fogem ao fisco como o Diabo da Cruz, mas ninguém os obriga a prestar contas. Impostos e duplas tributações, que as paguem os raros empregados do comércio, os vendedores, os professores, os electricistas, os sérios, enfim.
O senhor ministro não concordará nada comigo, naturalmente. Por isso será ministro. Mas não do meu país, saiba o senhor. O meu país é outro, embora os meus impostos sejam deste. O meu país é o de Ruy Belo, que o senhor desconhecerá. Ruy Belo disse: “Portugal não é pátria mas país”. Ponha lá mais esta no rosário, senhor ministro.

18/09/04

Publicidade, por joctapc

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DIA 2 DE OUTUBRO, EDIFÍCIO CHIADO, RUA FERREIRA BORGES, 3, AO FINAL DA TARDE

GRANDIOSA LIQUIDAÇÃO DE LIVROS NOVOS A ESTREAR E SEM MICRÓBIO! COM A PRESENÇA DE DISCURSOS (MAIS DO QUE UM) E DIREITO A UMA GENUINA RUBRICA DO AUTOR, A QUEM PODERÁ DIZER QUALQUER COISA E VICE-VERSA!
GRANDE STOCK DE LIVROS POR MANUSEAR E POR ABRIR A CHEIRAR A GRÁFICA! O LIVRO CHAMA-SE “DIÁLOGOS COM A CIDADE – COIMBRA, VERÃO” E FOI FEITO POR ESTE QUE ORA PUBLICITA E PELA FOTÓGRAFA SUSANA PAIVA QUE FEZ PARA ELE DEZ FOTO-FRAGMENTOS DA CIDADE! COMPRE COMPRE!
PODE COMPRAR SÓ UM QUE A GENTE NÃO SE IMPORTA! ACHAMOS TAMBÉM QUE A EDITORA, QUE É A MINERVA, PASSA FACTURAS.
LIVRO GARANTIDAMENTE RARO DAQUI A CEM ANOS! UM INVESTIMENTO DE FUTURO! FICA BEM EM QUALQUER ESTANTE!
AJUDAM NA VENDA PÚBLICA OS DOUTORES PIO DE ABREU E CARLOS DE ENCARNAÇÃO. NÃO PERCA E TRAGA DINHEIRO (ACHAMOS QUE NÃO HÁ MULTIBANCO).

Ps: Para provar que isto é verdade, enviei para o senhor que costuma pendurar aqui a bonecada um dos foto-fragmentos de Coimbra da Susana Paiva. Mais um exclusivo mundial do Taporco em primeira mão.
Pss: Dia 2 é um sábado e não servimos couratos.
Psss: Cuidado com as peças das exposições. Não é que sejam perigosas, mas podem estragar, se caírem, ou coisa parecida, e é chato, e fica mal.

17/09/04

Os Amantes de Maria, por Grunfo e Tinó

Regista-se no Tapor a seguinte correspondência trocada entre o Grunfo e o Tinó, via mails, no mês de Dezembro de 2003 a.t. Primeiro escreveu o Grunfo:

Tinó, passa cá pela Rosa Falcão, para levares os livros que me emprestaste.
Está aqui o Feitiço da Ilha do Pavão, do João Ubaldo Ribeiro, O Burro de Ouro, do Apuleio, A Grande Arte, do Ruben Fonseca e a História da Coluna Infame, do Alessandro Manzoni. Fico na dúvida se não me tinhas emprestado um segundo Ruben Fonseca, que não encontro lá em casa, mas que é inconfundível com os meus pois não tenho nenhum dele.
Agora, digo-te que não li nenhum, porque não consigo ler os teus livros. São puros, imaculados, branquinhos e, pior que tudo, têm a espinha intacta, intacta meu Deus! Comé que tu consegues ler um livro sem lhe partir a espinha? Partir-lhes a espinha e abrir-lhes a goela é a primeira coisa que faço.
Ora tu, que não usas nem queres orelhas de marcação nas páginas dos teus livros, como queres que os leia? A mim, que a primeira coisa que faço é marcá-los a ferros, partir-lhes a espinha por completo, abri-lhes a goela até infinito e criar-lhes memórias futuras com marcação fluorescente. A mim, que os leio na casa de banho, a comer bacalhau dos brutos e nas bichas de trânsito, como queres que conspurque os teus livros? Não posso e não consigo ler de outra maneira, logo...
A Coluna Infame do Manzoni é genial, mas impossível de ler. Como pudeste tu ler aquele livro sem o abrir? Eu arranjei um torcicolo no pescoço a tentar ler aquilo na cama sem lhe partir a espinha. Não parti, está intacta. Mas desisti de o ler e fui comprá-lo. Agora tenho-o lá para ler e marcar a ferros a meu gosto.
O Burro de Ouro é caso igual. Não posso afiambrar naquela espinha. O Ruben Fonseca é autor de referência para comprar de futuro e ler de rajada, assim comó Ubaldo que já ando a comprar.
Passa cá e leva.

ass: grunfo

E o tinó respondeu:

Ora essa! Então tens o desplante de me devolveres os livros sem os teres lido? Salta-lhes pra cima, enraba-os à tua vontade, quebra-lhes a espinha, mas lê-os, ó grunfo dos infernos! Eu cá tenho os meus métodos para os desvirginar com jeitinho, em foda lenta, carinhosa. Mas eu sei lá se eles depois não preferem um pouco dessa tua brutidade? E se quiseres pôr-lhes pinturas, se isso te dá gozo, pois pinta-os! pinta esses ingratos! traça-os a fluorescente, põe-lhes rímel, sombras, tatuagens, o que quiseres! Um gajo deixa-os sair de casa, deixa-os estar a desoras fora do lar, e é claro que depois se tem de sujeitar a estas coisas! Eu cá os receberei como filhos pródigos, não te preocupes. E digo-te mais: na próxima vez que nos encontrarmos, faço-te um interrogatório cerrado sobre cada um dos meus livros! Se não responderes, não os aceito em casa. Inúteis, e ainda por cima choninhas, não os quero em casa! Antes pintados e enrabados! Fónix! Tenho dito! Isto é a sério!

13/09/04

El Motel, por Mangas

O conceito foi inventado pelos americanos, motel = motor + motel. Nos primeiros anos, alguns motéis ostentavam um letreiro a néon que alternadamente piscava as palavras "Hotel" e "Mo-tel", de forma que os motoristas soubessem que ali havia um lugar onde poderiam estacionar os carros e os corpos. Em 1925, o arquitecto Arthur Heineman construiu o primeiro motel em San Luis Obispo, o Motel Inn, a meio caminho entre San Francisco e Los Angeles. Por $1.25/noite, os hóspedes tinham direito a um bangalow de 2 quartos, com cozinha, casa de banho, telefone e garagem privativa. Todas as unidades se situavam de frente para um pátio central que incluía piscina e mesas de pic-nic para reuniões familiares.

Embora não tenhamos essa percepção na Europa, os primórdios da história dos motéis remete-nos para o tempo em que apenas aqueles com um alto rendimento poderiam pernoitar a troco de uma taxa fixa. A maioria dos viajantes americanos, a classe-média baixa, acampava em caravanas ou ficava em casa a ouvir o Orson Welles na telefonia, borradinhos de cagaço com a Guerra dos Mundos. Naqueles anos, o automóvel era um símbolo de status social, de poder económico. Viajar até à Califórnia, seria como partir ao encontro da terra prometida de céus azuis, oceanos pacíficos, uvas e laranjas a cair das árvores, tal como apareciam nas revistas com anúncios-Norman-Rockwell, com fotografias e tudo! O carro era a estrela nesta jornada de liberdade. Como tal, não é de espantar que uma das mais drásticas transformações no modo de vida dos americanos, surge precisamente com a mudança de combóio/hotel para carro/motel. A nação que começou por evoluir de forma pré-ordenada na rota do progresso, era agora uma colecção vasta e ansiosa de tipos isolados, freneticamente livres para encetarem jornadas em quaisquer direcções. O conceito de hospedagem, mais familiar do que individual, depressa se diluiu e os motéis transformaram-se em verdadeiros cais do deserto, lugares para encontros e compromissos, para sexo ilícito, planear crimes e dividir os lucros, para tipos com pressa e fugitivos da justiça. (O Tom Cruze passou por eles todos e ainda não foi apanhado!) Há sempre a chance de se acordar sozinho, ou com uma bimba ao lado depois de uma noite a malhar nela. Há sempre a possibilidade que o motel seja cercado pelos chúis como em Bonnie and Clyde (1967). Há sempre a hipótese de ripostar à bala ou sair dali com um par de algemas nos punhos ou, no pior dos cenários, dentro de um caixão, como Martin Luther King, Jr., assassinado por James Earl Ray na varanda do Lorraine Motel em Memphis, Tennessee. Hoje, o Lorraine Motel está transformado num Museu de Direitos Civis, para comemorar a influência do Reverendo neste movimento de luta na década de 50 e 60.

Um hotel é uma sociedade em miniatura; uma casa, um símbolo de família e continuidade; o motel tornou-se uma metáfora para a angústia e a alienação. Não é por acaso que fugitivos como Thelma e Louise, ou o duo sanguinário de Oliver Stone em Natural Born Killers (1994), passem metade do tempo em motéis. Para além de lhes ocultar o rasto, a oferta de cable-tv (canais de sexo também os há, mas só a pagar), permite-lhes no silêncio resguardado da noite apreciar em directo as suas façanhas transformadas em lenda, à medida que vão desenhando o rasto inconfundível da sua deslocação coast-to-coast.

Os motéis são geralmente localizados nos extremos geográficos das cidades, identificando padrões geográficos e sociais de marginalidade. Ou situam-se no cenário a perder de vista do Midwest selvagem. Reduzidos a pontos miniaturas à beira do asfalto pelo céu imenso e pela paisagem majestosa e esmagadora das grandes planícies do Missouri, Kansas, Nebraska, mais para oeste, do Arizona, Utah, Colorado, New Mexico. Promessas de uma cama com lençóis lavados, de uma abrigo razoavelmente seguro antes de prosseguir a fuga. De um tecto com visibilidade restrita e onde não façam perguntas. De uma noite de sexo e farra - John Belushi morreu no Chateau Marmont Motel com uma mistura marada de coca e heroína. Promessas-miragens de tudo e de nada.

«Peolpe never run away from anything», diria Anthony Perkins (Psycho, 1960), o proprietário do Bates Motel, cuja construção horizontal e linear contrastava com a fachada gótica da casa dimensionada ao alto, no topo da pequena colina, uma verticalidade sinistra onde habitava a morte e a mente retorcida de um psicopata. O mal e o bem. O visível e o submerso. Norman Bates, a casa onde apodrecia a mãe e o motel, são três personagens indissociáveis. Em 1971, Frank Zappa realizou em parceria com Tony Palmer 200 Motels, um esboço de filme com músicas complexas e letras sacanas, baseado nas suas vivências em digressão com os Mothers of Invention. Era em motéis de conveniência (342 num ano!), que Humbert Humbert o pedófilo de Nabakov se embrulhava com a ninfeta Lolita. Ainda que, como o próprio Humbert admite, Lolita preferisse «hotéis verdadeiros». Sam Shepard, um dos maiores dramaturgos americanos e produto da contra cultura dos 60`s, escreve sobre a obscura profundeza das sensibilidades da América rural, e dos velhos mitos do Oeste. Motel Chronicles, de cujos textos foi retirada inspiração para Paris, Texas (1984), de Wim Wenders, fala sobre as vastas planícies desertas, as bombas de gasolina, as pastagens, os camiões, os carros, mas também a solidão, a distância e o medo.

A estética dos motéis e o seu mau gosto, em geral, é uma anedota de arquitectura. Pessoalmente, é esse mau gosto, essa simplicidade anónima e rectilínea das formas, que me encanta nos motéis americanos. Quartos esquálidos, com cheiro a fumo de cigarro entranhado na atmosfera do ar-condicionado que pinga gotas de água no lado de fora e faz um barulho estilo som-abafado-hélice-de-avião-de-grande-porte, decoração kitch, paredes em madeira fina e papel gasto, piscinas de água esverdeada em forma de rim. À noite, num quarto frontal, os flashes vermelhos-azuis-amarelos do letreiro a néon iluminam a penumbra do quarto. Por vezes, não se sabe bem se estamos num sonho vigilante ou se tudo aquilo funciona como um farol de aviso na imensidão do deserto, não vá o resto da humanidade esquecer-se daquele lugar e de nós.

12/09/04

As minhas férias, por Tom Cruze

Este ano passei as minhas férias de barco. Bom, parte delas, pelo menos. Para ser ainda mais preciso, vi um. Se bem que em rigor não possa assegurar que fosse um verdadeiro barco, isto porque nessa altura me encontrava na imensa pradaria do Arkansas. Pensando bem, aquilo que vi ao longe parecia-se mais com um camião com um longo atrelado. Bom, mas o que interessa mesmo é que cumpri um sonho de infância: atravessar a grande nação americana pela mítica Route 66, desde Chicago a Los Angeles. Tudo começou quando cheguei a esse notável país e, sem saber o que fazer, me dirigi ao guichet do American Dream, Inc.: Perdão, acabei de chegar e gostaria de saber o que um homem pode fazer de interessante por aqui. Well, pode comer um Big Mac com cebola e extra queijo, respondeu-me a recepcionista. Não me parece mal, disse eu, mas queria algo ainda mais emocionante, qualquer coisa que me faça sentir mais em casa nesta grande nação. Bom, se preferir, pode optar pelo menu completo, com batata frita, alface, e ainda um boneco do schrek à escolha. Tem também direito a chamar-se Steve durante um período de doze horas, automaticamente prorrogável. Aproveitei, claro. Depois dessa experiência, e como só tinha bilhete de regresso para daí a dez dias, voltei ao guichet e perguntei como deveria ocupar o resto do tempo. Bem Steve, respondeu a moça, agora temos para si este cadillac com mudanças automáticas e chifres no radiador para percorrer a Route 66 que sai de Chicago todos os dias às 15 horas e quarenta minutos. Que mais podia eu querer?. Dirigi-me então a Chicago e anunciei-me. Estávamos à sua espera, Steve, respondeu-me um rapaz de dentes perfeitamente alinhados. Aqui tem o roteiro, um pacote de pronúncias do midwest e uma harmónica programada com cinco melodias tocadas pelo Clint Eastwood, intercaladas com disparos de Smith&Wesson. E lá me meti ao cam inho. Não tinha rodado mais do que setenta milhas, quando me deparo com um marco de estrada que dizia: “Milha 70 da Route 66”. Hhhmmm, que mais me irá acontecer, pensei eu, emocionado. Estive por ali mais um bocado, e segui viagem. Mais setenta milhas decorridas, vejo uma paragem de autocarro, uma mítica paragem de autocarros americanos, que todos conhecem de filmes como Paragem de Autocarro ou Intriga Internacional. Estacionei e vi passar três autocarros. Um quarto autocarro parou e largou um homem magro e alto de suspensórios. Fiquei por ali a vê-lo afastar-se, heróico, até desaparecer no horizonte, como o Tom Joad no Vinhas da Ira. Continuei então a minha peregrinação e trezentas milhas decorridas deparo-me com algumas daquelas peculiares e extremamente cénicas formações de pó e lixo, que podem ser vistas em filmes como Duel o em OK Corral. Passei ali umas boas três horas a vê-las rodopiar com o vento, ao som da minha harmónica. Um pouco mais à frente, encontrei um posto de bombas de gasolina, do género dos que podem ser apreciados em filmes de perseguição automóvel. Encostei por ali e travei com um genuíno velhote, sentado numa genuína caixa de garrafas de coca-cola, o diálogo mais emocionante da minha vida: So… how are you? I,m fine, Steve. You are from out of town, aren’t you? Yes I am, I’m from Portugal! Where the hell is that? Is in Europe! So, where the hell is that? Is in the other side of the ocean! Damn japanese! Emocionado, verti uma lágrima e despedi-me. Ao fim do dia, parei, montei a tenda e fiquei durante toda a noite a ouvir coiotes e cavalos a trotar e cowboys a praguejar e manadas de vacas em direcção a Kansas City. Mas não estou bem certo. Talvez fosse antes o som de buzinas de camião, como as que se ouvem em filmes como O Comboio dos Duros, ou Perseguição na Auto-Estrada. Já de madrugada levantei-me, olhei em volta, e constatei emocionado que o meu carro tinha desaparecido, tal e qual como no…bem, vocês sabem. Definitivamente, estes eram os dias mais felizes da minha vida. Tive de percorrer então a pé as quinhentas e setenta milhas seguintes, seguido por aqueles maravilhosos pássaros, conhecidos por abutres, que povoam a minha imaginação desde que via aos domingos à tarde os filmes do John Wayne. E atingi então o destino, chegando a Los Angeles. Só então me dei conta de que não me tinha aparecido ao caminho um louco homicida a pedir boleia com um machado, um balde de ácido, ou com longas unhas de aço afiado. Oh well, pensei eu conformado, não se pode ter tudo. Agora que estou de volta vou fazer em casa um pequeno museu, com trezentas e cinquenta pontas de flecha usados pelos índios na batalha de Little Big Horn, que me foram vendidos pelo simpático velhinho das b ombas de gasolina, e quinhentas peças de esqueleto de bisonte que fui apanhando pelo caminho. Mas acho que preciso de descansar bastante primeiro. E como foram as vossas férias?

11/09/04

A Igreja da Geografia, por Tinó *

No outro dia o Grunfo contou-nos o caso que se passou, à porta do seu escritório, entre ele e uma senhora Jeová. A pobre ter-se-á enganado na geografia (terá dito que a capital do Sri Lanka é Cartum, ou coisa que a valha). O Grunfo – para quem o conhece, o maior erudito vivo em geografia - pregou-lhe de volta uma seca bestial.

Eu tenho outra táctica, quando em casa me aparecem as senhoras Jeovás. No outro dia estabeleci mais ou menos a seguinte conversa pelo intercomunicador do prédio:
- Boa tarde. Eu e a minha companheira gostaríamos de lhe falar do reino de deus. Não demora muito, tem um tempito?
- Tenho sim, diga lá, se faz favor.
- O senhor conhece o Reino de Deus?
- Não, não. Por acaso não.
- Tem uma Bíblia?
- Tenho sim.
- Então leia Mateus, 25
- Com licença, deixe-me apontar. Vou agora buscar um lápis e um papelito... Pronto, pode repetir, por favor?
- Mateus, 25
- Mateus...25... Certo. Apontei e vou mesmo agora ler. Muito obrigado. Mais alguma coisa?
- Não, muito obrigado pela atenção.
- Ora essa, obrigado eu. Muito boa tarde.


E assim se foram as minhas evangelizadoras convencidas que me deixaram na boa companhia do Mateus 25 e com a alma conquistada para a causa. Estou livre por uns tempos. Está claro que esta táctica só dá resultado se a conversa se estabelecer através de intercomunicador. Não dá com confrades rurais, sem aparelhos de intercomunicação, que mal abrem a porta de casa, estão logo na rua à mercê dos apóstolos e não podem fingir que vão buscar papelitos. Já agora, não vale a pena irem a correr ler o Mateus 25, porque tanto pode ser este como outro qualquer.

Agora, o Grunfo que esteja caladinho, que eu bem sei o que ele faz aos fins de semana…

- Bom dia, senhora. Eu e o meu companheiro andamos a espalhar a Geografia e gostaríamos de conversar consigo.
- Ai, ai... Tem de ser rápido que tenho a cafeteira ao lume!
- A senhora conhece a Geografia?
- Ó senhor, eu e o meu marido não ligamos muito a essas coisas; não leve a mal.
- Pois olhe, minha senhora, eu sou muito mais feliz desde que aderi à Geografia. Dantes bebia muito e fazia má vida em casa e depois um amigo puxou-me para a Geografia e agora sou outro homem.
- Mas ó senhor, a gente é gente simples, a gente já está habituada à missinha do senhor padre Carlos. Mas pronto, diga lá, antes que chegue o meu marido.
- Então hoje andamos a divulgar o reino do Tuvalu. Conhece?
- Não estou bem certa de conhecer, não.
- Não tem mal. Depois deixo o nosso Almanaque para a senhora ler. Ora, o reino do Tuvalu tem 20 mil metros quadrados, um pib per capita de vinte dólares e produz, sobretudo, soja e água de coco. Não é assim Irmão?
- Palavra do Senhor!
- Ora, a capital do reino do Tuvalu é Porto dos Macacos e o seu ponto mais alto é o Pico dos Macacos com cinco mil metros de altura. Produz três barris de petróleo por ano. Há Almanaques que dizem que são quatro barris, mas esta é que é a Verdade. Não é assim, Irmão?
- Palavra do Senhor!
- E Tuvalu é atravessado por três rios onde se pesca o barbo e a boga e tornou-se independente em 1920, após um golpe de estado e é uma monarquia absolutista...
- Olhe, muito obrigado, mas já tenho o café a levantar fervura e daqui a nada está a deitar por fora. Olhe, deixe cá o livrinho, que depois leio.
- Aqui tem. Muito obrigado e desculpe a maçada; passamos cá para a semana para falarmos mais um pouco.
- Mas olhe que eu para a semana não estou! Ai a minha vida...
- Então fica a senhora convidada, mais o seu marido e filhinhos, para ir assistir às nossas Sessões de Geografia na Capela da Igreja da Geografia, aos domingos de manhã. Começamos por cantar os Hinos dos Países, e depois recitamos textos escolhidos do Almanaque. Esta semana o tema é “Topografia e Curvas de Nível”. E uma contribuiçãozinha, por pouco que seja, também é bem vinda. Então, muito boa tarde.
- Palavra do Senhor!
* Texto retirado dos velhinhos mails do período a.t., que é como quem diz «antes do tapor».

07/09/04

Campainha, por Cão

A trapalhada monumental que este (des)governo armou contra os professores e os alunos (e, portanto, contra o futuro) consubstancia a degradação da democracia à portuguesa. Apenas três décadas depois do 25 de Abril, o País vê-se devolvido, e aparentemente sem remédio, aos cabeças-de-abóbora, aos botas-de-elástico, e aos lambe-botas-de-elástico. Campeiam a ignorância voluntária, a cegueira ilustre, a desonestidade alegre e a peluda corrupção. As pessoas sérias, por nojo, afastam-se (ou são afastadas) dos lugares de decisão, deixando-(n)os entregues à viscosa lesma da irresponsabilidade.
O senhor Presidente da República não existe.
O senhor ex-Primeiro Ministro foi jogar para o Chelsea.
Quem agora manda é, de Caras, um artigo de Lux que trabalha quanto pode no sentido de fazer desta choldra uma espécie de Disneylândia com campinos e peixeiras. Tenho pena, mas isto é verdade.
Lembro-me vagamente de ter sido professor do ensino secundário. Na altura, havia aulas. Já então, os sucessivos ministros da Educação eram fraquinhos, mas nada permitia supor o pior. E o pior é isto: hoje.
Milhares de professores por colocar, gente casada e com filhos que desconhece a próxima porta, o próximo pão, o próximo dia. Em Lisboa, porém, tudo corre alegremente. Milhares de funcionários jogam às copas no computador. Um senhor a quem, decerto por piada, chamam secretário de Estado vem ao Louriçal desconhecer publicamente a Carta Educativa do concelho. Uma alegria. Entretanto, nada.
Tudo isto tornou o pessimismo coisa sinónima de realismo. Desprezar a Saúde é mau, porque intoxica o País. Desprezar a Justiça é mau, porque injustifica o País. Desprezar a Educação é mau, porque invalida o País. Mas quê, não tivemos a Euroforia? Não arrancámos três medalhas nos Jogos Olímpicos? Não vamos arrancar muitas mais nos Paralímpicos? Não começou já a Superliga para ver quem fica em primeiro a seguir ao Porto? Tivemos. Arrancámos. Começou.
O que não temos, nem arrancamos, nem começamos, é o ano lectivo, esse luxo a que habituámos (mal) crianças, jovens e docentes. Estudar para quê, realmente? Para ser caixa de hipermercado? Para adjunto de ucraniano? Para angariador de rifas de sorteio de cegos? Para arrumador? Para Tó Chico Dependente?
Se o tema me corrói de má bílis, é porque sim. Acredito que o povo mais bem educado e mais bem formado é o povo mais apto a viver em democracia. Por contraste, sei que o povo mais analfabeto é o mais fácil de governar pelos patos-bravos que só acreditam no dinheiro, no roubo, no estupro, na clientela, na prima e no espelho. Se vos pareço danado com o assunto (e com o Governo), é porque estou danado mesmo. Sinto-me mal governado, mal entregue, mal responsabilizado.
Mas se calhar nem é nada por causa da tragicomédia do arranque do ano lectivo. Se calhar, é porque ainda me não devolveram o IRS e eu tinha de dizer mal de alguém ou de alguma coisa. Pronto, já disse. Aula acabada.

Esta Fé Que Nos Move, por Irmão Alípio


Esta Confraria sempre foi um reduto de fé. De Místicos, mesmo. Daí que neste Ano Santo Compostelano, de Xacobeo 2004, a RS.T se proponha abalançar-se ao Camiño de Santiago, em Peregrinação plena de meditação e fé.
Como o Camiño é duro e a Peregrinação durará apenas um dia, a EssePonto vaice dividir em duas Irmandades de Fé. A Irmandade dos Místicos e a Irmandade dos Ascetas. Nos Irmãos Místicos pontuam desde já o Xiita, o Mau, o Nemo, o Nini e o Mangas. Para já, os Irmãos Ascetas contam apenas com o Grão e o Vice.

Os Místicos farão o Camiño de Santiago a pé, de bordão e capa de chuva, com início em Vilagarcia de Arousa, a cerca de 35 km de Santiago de Compostela, após o que por montes e vales, veredas e ladeiras, alcançarão sucessivamente Enfesta, Padrón e Ramalhosa. Os Místicos tomarão como lema: “A Serenidade do Espírito alcança-se com a Penitência do Corpo”

Os Ascetas, por sua vez, tomarão a A-9 depois da A-3, com breves desvios pela N 550, começando o seu sacrifício em Vigo, na Calle República Argentina, nº 21, onde vão de bucha penitente ao “Rias Baixas”, para uma andarilhança frugal de “parrillada de vieiras al limón”, acompanhadas de uns “choquitos y chipirones de la ria”, que aqueles animaizinhos do Senhor nunca gostam de andar sozinhos.

Com o seu pensamento nos Irmãos Místicos, os Ascetas farão a guarda das conchas das vieiras, que depois de devidamente lambidas e por essa forma limpas, serão ofertadas aos Místicos já com um buraquinho e um cordelinho para as pendurarem ao pescoço e o nome de cada asceta escrito em cada conchinha. Os Irmãos Místicos certamente agradecerão esta prova de profunda estima e consideração.

Para almoço, os Ascetas rumarão depois para Sanxenxo, para a Avenida del Puerto, s/n, onde en “La Taberna de Rotilio”, prestarão a sua justa homenagem à Criação, começando com uns “frutos del mar en escabeche blanco”, acompanhados com uma “ensalada templada de pulpo y mollejas”, terminando o auto de fé com um “revuelto de cigalas al hojaldre”. Aleluia, Eis o Senhor!

Para digestão, os ascetas irão ao encontro dos Peregrinos penantes, colando-se no carro o autocolante “Apoio aos Peregrinos”, a fim de poderem dormir uma boa siesta na borda da auto-estrada, sem serem incomodados pela Guardia Civil. Oremos, Senhor!

Para o tapeo, a ascese fará paragem obrigatória na Catedral do “Chef Rivera”, em Padrón, (Enlace Parque, nº7), onde, após a genuflexão da praxe por pisarem solo sagrado, se passará a fustigar o pecaminoso “cabrito asado a las finas hierbas”. Para penitência, os Irmãos enfrentarão de seguida e corajosamente os “pimientos de Padrón fritos”, em que em cada cinco, um é picante comó caraças. Quando tropeçarem num pimiento de padrón de fogo na boca, os Ascetas saudarão os seus irmãos Místicos com o grito: “Por Santiago!”.

Na Janta e já abancados no “Las Huertas”, Calle Hortas, nº 16, de Santiago de Compostela, os Ascetas deleitarão os seus olhos nas torres da catedral que se vêm de los jardines do “Las Huertas” e castigar-se-ão novamente com uns “pimientos del piquillo rellenos de frutos del mar”, acalmando depois o estômago com um “solomillo de ternera relleno de langostinos sobre miel de gengibre” e rematando a noite com umas “bolsitas de txangurro gratinadas”. Por respeito aos Irmãos Místicos não se tocará no pão, que fica de reserva pró Santo.

Como a Peregrinação é aberta a todos os espíritos e estômagos, a Confraria faz aqui um apelo aos restantes confrades e demais interessados para que se juntem a nós nestas rotas de fé e sacrifício, mas plenas de cultura, natureza e espiritualidade. Os caminhos do Senhor são difíceis, mas alguém tem que os trinchar, digo, trilhar.

Junte-se aos Peregrinos, escolha uma Irmandade e faça parte do milagre.


PS: se optar pelos Místicos, traga sandes.

03/09/04

A Dor, por Jóta

Ossétia do Norte, Beslan: 150 mortos e cerca de 500 feridos, entre 1500 reféns. Dezenas de crianças mortas. Vi há pouco pela Sic Notícias. Cheguei a casa e procurei na net por mais novidades deste horror. CNN, Reuters, TSF, todos a debitar horror em directo. Mais morto, menos morto, que mundo de merda é este? Porquê? Para quê isto? Para que é que serve o sofrimento humano afinal? Acho que cabe aqui uma justa homenagem a esta tragédia que nos devia angustiar a todos. Afinal, também são traumas e pesadelos. Proponho um pouco de dor por aquela gente, faço a mesma proposta de Munch naquele quadro desesperado e violento que ilustra este texto. Como que horrorizado com o seu próprio lado negro, o seu coração das trevas, a parte mais medonha de uma sua natureza íntima e irresistível, monstruosa. Porquê?

01/09/04

Traumas e Pesadelos, por Boney M.


No meu 5º ano do Liceu, agora 9º ano ou coisa que o valha, partilhava diariamente o autocarro com a Alice. A Alice era um estrondo. E eu fazia-a rir. Era a minha técnica de sedução. E mais piada menos piadinha lá ia levando a água ao meu moinho e as mãos às coxas generosas da boa da Alice. A Alice era mais velha, bem nutrida e má de letras, mas tinha uns olhos azul turquesa de ir ao mar e ficar. Ela ria-se e prometia, o que era meio caminho andado para a boa-aventurança.

Até que um dia..., no velhinho ginásio do Liceu Dª Maria, a Prof. de ginástica nos mandou aos dois buscar colchões de ginástica à arrecadação. Boa. Supimpa. Agora a coisa vai dar. Colchões, Rebolanço, Rebolanço, Apalpanço, Apapalpanço, Coisa e Tal...

A Alice não se fez rogada e também percebeu a oportunidade e o meu sorriso malandro. Mal entrámos na arrecadação, comecei em agarranço de brincadeira e ela a rir-se jogou-se em peso para cima dos colchões, num estardalhaço jingão de carne apetitosa. Preparava-me eu para me lançar, quando me deu a veia humorística :
“ – Ca Ganda`Baleia! “

Traz, Zás, Pás, Cachapum. Crash and Burn! A Alice levantou-se de imediato tipo mola de aço, lançou-me um olhar fulminante de morte súbita e enterrou o estilete até ao fundo da aorta:
“ - Ca Ganda`Estúpido !”
Deixou-me sozinho com os colchões, saiu e nunca mais me falou. Nem na ginástica, nem no autocarro, nem no resto do ano todo.

Aquele maldito “Baleia” estragou tudo. Na altura, fiquei a balbuciar sem perceber e só muitos anos mais tarde lá cheguei. Mas que diabo, aquilo era pra rir. Ela até nem era gorda, a piada estava nisso mesmo! Também não era Palito que eu não sou o Poppeye! Mas, não era gorda, apenas algo alimentada. Daí, o Baleia, percebem? Ela não percebeu, não quis perceber e muito tempo depois lá deu um frio “tás desculpado”, mas a coisa tinha morrido de vez e Kapput! Crash and Burn!

Ainda hoje lamento aquele “Baleia”. Foi um trauma severo e deu origem a uma série de pesadelos. Aprendi que se deve ter o maior cuidado com qualquer leve ou ínfima alusão ao “peso” do Género Segundo. É coisa que Julieta nenhuma computa, por mais cuidadoso que seja o Romeu. Nem como piada. Aliás em piada, ainda é pior.

Mas que diabo se passa com tal género, que não se pode fazer a mais breve alusão à generosidade de carnes? O Rubens hoje em dia dava de certeza em paneleiro. Não se safava. As venusianas nunca lhe perdoariam aquele excesso de rotundidades e carnadura. Antes serem pintadas por Picasso.