28/10/04

Ku Não Tem Sexo, por Porco&Mundo

- Onde é que tu estavas no 25 d`Abril?”
Assim começou, como sempre começava, o ataque cerrado do Baptista Bastos ao seu entrevistado dos sábados à noite na RTP 2. Interrompido o zapping, fui-me deixando ficar. O Duda Guennes, brasileiro aportuguesado, emérito jornaleiro e radialista desportivo e ao que me apercebi, amigo íntimo do Bastos, sujeitava-se ao interrogatório. Do 25 d`Abril não se lembrava. Azar. Um Bastos nunca perdoa um esquecimento desses:
- Pois, pois, pá, já na altura andavas bem acompanhado!
- Não pá, estava só coa minha filha!
- Sim, sim eu sei que ela te apoiou, mas tu davas-lhe a valer ó Duda!
- Tás a falar de quê, pá?
- Ó pá tás muito esquecido, pois é um dos efeitos, atão tu não lhe davas forte? No tintol, no trotil, no escocês, no que aparecesse e tivesse álcool!
- Pois, ó Bastos mas eu agora já há muito tempo que me curei, pá coa ajuda da minha filha e de Deus, já anos que não toco no álcool!
Retorquia o Duda Guennes embaraçado e a procurar fugir ao tema, que nitidamente o incomodava. Vendo que a coisa doía, o Bastos firmava o dedo em riste, apontava e mergulhava-o na ferida aberta:
- Tá bem ó Duda, mas ainda não há muito tempo que tu mamavas de caixão à cova, pá?
E ao pachola do Duda tanto fez falar da ajuda da filha, como do retirado que estava e das curas de águas, o Bastos afiambrava e dali não saia, numa insistência diabólica que já deixava o espectador agoniado. O Duda, que não queria ser mal educado com o amigo e em directo na TV, lá fez das tripas coração e meteu uma bucha a ver se levava a conversa pra outro lado:
- Ó Bastos e quando eu te levei aquele bar de programa no Rio de Janeiro?
- Qual pá, aquele que tinha uma escada de caracol ao lado do bar corrido?
- Esse mesmo pá, que tu até ficaste maluco com o cu que vinha a descer as escadas!
- Tens razão, pá, aquilo é que era um cu, pá, um Senhor Cu, nunca mais vi uma coisa daquelas, e ali a descer as escadas ao ritmo de samba bem batido!
- Pois pá, mas aquilo era um gajo macho de vestido e collants! Aquilo é queu te gozei, ó pá! Lembras-te?
- Atão não lembro ó Duda, mas digo-te o mesmo que te disse na altura, pá: “Cu não tem Sexo!”
O Duda lá conseguiu desviar as atenções do Baptista Bastos, que ali ficou por uns intermináveis segundos, a recordar e a saborear a sua velha máxima, que, ao que parecia naquela eternidade televisiva, tão boas recordações lhe trazia.

27/10/04

LANÇAMENTOS

Lança-se livro, "Diálogos com a Cidade", texto e fotofragmentos de João Paulo Cruz e Susana Paiva, sábado (30/10) pelas 17h00, Ed. Chiado, traje informal. Demora pouco.
classificados do porco o segredo do sucesso

25/10/04

A Culinária do Porco - II, Bouillabaisse de Marselha, por Mangas

Seria pecado mencionar a bouillabaisse sem falar de Marselha. É que a alma cosmopolita e tradicional desta cidade reflecte-se tanto na sua culinária como na sua arquitectura. Nos seus restaurantes em redor do porto, nos seus bares, cafés, nas ruas estreitas, praças tranquilas, prédios pós-modernos, casas onde vivem os pescadores, limitadas por ruelas estreitas, escadarias, alamedas, e fachadas clássicas do século XVIII, formando contrastes a cada esquina. Dizem por lá que a felicidade vem lamber à mesa quando a brisa do Mistral traz de volta o aroma de lavanda e das oliveiras da Provença e o mistura com os odores da cozinha regada com azeite numa combinação de tomilho, alecrim, açafrão, louro e manjericão encontrados na cozinha típica provençal, numa sopa de escalope, num prato de peixe cozido ao vapor com molho de manteiga e limão, ou numa bouillabaisse. Acrescentam que a felicidade jamais será completa se o manjar não for precedido por um copo ou dois de pastis, um aperitivo feito com infusão de anis perfumada com ervas e alcaçuz e que deve ser consumido misturando-se a uma parte da bebida, cinco partes de água.

Mas a tradição culinária de Marselha feita de peixes e frutos do mar não se fica por aqui. Ostras, lagostas, amêijoas, calamares, ouriços-do-mar, e sardinhas são das ondas as matérias primas que sacramentam os paladares e aplacam os apetites mais insistentes. As ostras podem ser saboreadas frias ou quentes, servidas com limão, perfumadas com azedas e às vezes mel, foie gras e champanhe; vieiras, as famosas
" coquilles Saint-Jacques ", descem melhor com uma taça de cidra; os mexilhões, simples ou com carne e ovos, quando servidos " à moda settoise "; lagostins frescos, sobre uma fina camada de gelo; ou caranguejos quentes acompanhados de arroz. Um passeio pelo porto de Marselha, oferece ao viajante o espectáculo da chegada dos barcos de pesca. Os pescadores colocam as redes à largura do cais e propõem-se vender uma variedade espantosa de peixes: sardinhas de Saint-Gilles-Croix-de-Vie, atum, anchovas de Colloure, linguado de Sables d’Olone, pescada e bacalhau fresco de Sain-Jean-de-Luz, no país basco, e até "canucchiale", um peixe particularmente apreciado pelos pescadores de Bastia, na Córsega ou dos arraiais de Saint-Malo.

A bouillabaisse teve o seu nascimento entre os pescadores que, após a separação dos peixes para venda, aproveitavam os que sobravam e com eles faziam uma sopa frugal para alimentar a família. O nome provém da maneira como o prato é preparado, aumentando e baixando a temperatura do fogo, até que esteja pronto - bouillon/fervura e baisser/baixar. Historicamente, há referências da bouillabaisse no cardápio do restaurante Les Trois Freres Provençaux, antes ainda da revolução francesa, e a sua evolução através dos tempos, os processos de elaboração e escolha dos ingredientes fez com que a bouillabaisse deixasse de ser vista como uma simples sopa: na realidade, é uma refeição completa, um prato simultaneamente pujante e requintado. Começa-se com o "fumet" que é a base para o caldo e inclui espinhas de peixe (linguado, garoupa e robalo) , cascas e cabeças de camarão ou lagosta, cebolas picadas, cenouras em rodelas, salsa abundante. Vai tudo a ferver em lume brando até se reduzir à metade, antes de se coar e fazer a separação do caldo – uma parte deve ser servido com torradas de alho ao azeite, a outra será posteriormente utilizada. A sopa começa com azeite aquecido e cebola, numa panela de dimensões generosas, tomates sem pele e amassados, alho, alho-porro, erva-doce, um copo de vinho branco, "fumet", pastis e o açafrão. Leva-se à fervura e acrescentam-se pelo menos seis espécies diferentes de peixe mediterrânico: diabo-marinho, salmonete, peixe-escorpião, enguia marinha, robalo, bagre; camarão, ostras e lagosta são opcionais para uns, obrigatórios para outros. 10 a 15 minutos de fervura e no toque final mais um pouco de pastis ou umas gotas de anis. Finalmente o rouilli, o molho que acompanha o fumet e precede a abertura das hostilidades da bouillabaisse propriamente dita: pica-se pimenta vermelha e alho e acrescenta-se farinha de pão com azeite mexendo sempre até obter uma consistência de maionese. Et voilá!

Fernandel dedicou-lhe uma canção.

Pour faire une bonne bouillabaisse,
Il faut se lever de bon matin,
Préparer le pastis et sans cesse
Raconter des blagues avec les mains.
Une langouste est nécessaire
De la baudroie et des favouilles
Douze rascasses, un petit Saint PierreHuile, safran ail et fenouil
On invite une belle petite Marie-Louis,
ou bien Ninon Ensemble on remue la marmite
C'est ainsi que les marseillaises
Eprouvent leur tempérament!
Ah! que c'est bon la bouillabaisse
Ah! mon dieu que c'est bon bon bon
Ah! que c'est bon la bouillabaisse.

Fernandel sabia do que cantava.

23/10/04

Before The Sunrise(1995)/ Before the Sunset (2004), por Fanático de Inter-Rail

Há uns anos atrás, vi por acaso, porque estava sentado no meu sofá, camarada de insónias esparsas, um filme na televisão que me deixou maravilhado. Não sabia nada daquele filme, mas ele atingiu-me em cheio. O facto de dele nada saber foi, para mim, uma demonstração da sua qualidade. Dele nunca tinha visto publicidade nem ouvido amigos cinéfilos a dar conselho informado (ainda não conhecia o Mangas, claro). Nada! Before The Sunrise, era o título do filme.

Prendeu-me desde o início o encontro num comboio de inter-rail entre um jovem americano (Ethan Hawke) e uma francesa de regresso a Paris (Julie Delpy). Nem aqueles actores eu conhecia, embora o rosto de Hawke me fosse familiar e Delpy não precisasse de o ser («um anjo de Botticelli», dirá no filme Jesse/Ethan)… Praticamente não há mais personagens no filme, excepção feita a três ou quatro quase-figurantes - um pedinte austríaco que diz poemas em troca de xelins, uma cigana que lê as sinas, um barman simpático. Só os diálogos entre o cínico americano e a francesa romântica (metáfora da velha e actual clivagem entre os másculos States e a feminina França? Por mim continuo francófilo e não é para menos quando a pátria da revolução é representada por Delpy!).

O filme vive destes diálogos inteligentes e sensíveis entre Jesse e Céline. Vale pela palavra, vê-se como se lê um livro. Tem uma estrutura teatral porque podia ser todo feito num palco – passa-se num comboio e em Viena – num cemitério, na roda do Prater, em bares, nas ruas da cidade – cidade cenário dos espantosos diálogos. Numa época em que já ninguém vê filmes que não tenham, pelo menos, uma perseguição de carro, duas ou três ninfomaníacas a mocar, cenas de porrada, miolos a esvoaçarem e tiros na tola à queima-roupa, numa época assim, um filme que é só diálogo só podia provocar indiferença ou tornar-se um «cult movie».

Foi o que sucedeu – Before the Sunrise, apesar do seu orçamento irrisório, sobreviveu estes anos todos, tornou-se uma peça de culto e conhece agora a continuação no cinema. Jesse e Céline reencontram-se em Paris, 9 anos depois, 9 mais velhos, durante uma hora e picos num filme em tempo real. Before the Sunset, assim se chama o reencontro de Ethan Hawke e Julie Delpy, realizado, mais uma vez, por Richard Linklater. Eu ainda não vi esta continuação de uma das mais belas histórias de amor contadas no écran. Mas esta semana, vou lá estar, na plateia do Cinema Avenida…

20/10/04

Bestiário, por Cão

-Vi um desenho do Egipto ressuscitar num perfil de café. Corpo de mulher com cabeça de pássaro, tudo num perfeito perfil de manual de história.
Vi um homem igual a um Cão, coçando-se, comendo e dormindo como um cão num passeio de Lisboa.
Vi um rapaz-porco a refocilar pastéis de nata numa pastelaria de província. Grunhia de beiço húmido e olhinhos cor de canela fria.
Tive por amante uma cobra verde, com quem cortei relações (às postas) depois de quase me ter sufocado com o hábito de dormir enrolada no meu pescoço.
Conheci um homem-homem que, por sê-lo, era tão pobre como uma pedra do monte.
Assisti no mesmo café ao voo de uma criança-libelinha, que em todas as mesas deixou um lastro de doçura irisada.
Fui à praia assistir às nadadoras. Escaladas ao sol como carapaus da Nazaré, eram ebúrneas e lentas à maneira de visões no deserto. Gostei muito.
Gostei sempre muito, aliás, de animais. Em toda a parte os reconheço, a começar pelo espelho da manhã, quando raspo a barba que no segredo da noite me foi tornando sósia de um chimpanzé estremunhado.

16/10/04

Heresias Blasfemas, Parte I (Abraão), por Heresiarca

-
Abrão, ou depois de rebaptizado por Deus, Abraão (Pai de Muitas Gentes), viu-se obrigado a certa altura a ir para o Egipto, devido à fome que grassava em Canaã.

A Prémio Nobel da Literatura Pearl S. Buck, no seu livro “O Grande Romance da Bíblia”, que é uma versão encadeada e resumida do sagrado livro, despacha o evento com um seco: “…assim ele e quantos o acompanhavam resolveram descer até às terras bem irrigadas do Egipto para nelas permanecerem até que a fome cessasse. Quando assim aconteceu, regressou Abrão a Canaã…”

Neste, como em muitos outros exemplos, Pearl S. Buck atestou mais uma vez o seu puritanismo moralista, que se deu mal com alguns episódios biblícos.

É que o Génesis do Pentateuco, é ligeiramente mais pormenorizado e esclarecedor ao rezar assim: “...Quando já estavam quase a entrar no Egipto, Abrão disse a Sarai, sua mulher: “Ouve, sei que és uma mulher de belo aspecto. Quando os egípcios te virem, dirão: “É a mulher dele.” E matar-me-ão, e a ti conservarão a vida. “Diz, pois, que és a minha irmã, peço-te, a fim de que seu seja bem tratado por causa de ti, e salve a minha vida, graças a ti.” Quando Abrão chegou ao Egipto, os egípcios notaram que a sua mulher era muito bonita. Os grandes da corte, que a viram, referiram-se elogiosamente a ela, na presença do Faraó, e a mulher foi conduzida ao palácio. Por causa dela, Abrão foi muito bem tratado, e recebeu ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos. Mas o Senhor infligiu tremendos castigos ao Faraó e à sua casa, devido a Sarai, mulher de Abrão. O Faraó mandou chamar Abrão para lhe dizer: “ Que é que te levou a fazer-me semelhante coisa? Porque não me disseste que ela era tua mulher? Porque me disseste que ela era tua irmã, dando lugar a que eu a tomasse por mulher? Agora, aqui tens a tua mulher, toma-a e vai-te embora.”

Lê-se e fica-se estarrecido. A Bíblia, na versão agigantada da Difusora Bíblica, multiplica-se em anotações explicativas e interpretativas, mas o indubitável permanece e acaba-se por aceitar a censura puritana da Nobel Pearl. È que não é qualquer um que engole de ânimo leve que Abraão, O Pai De Todos, foi sem dúvida o Primeiro Chulo da Criação. E Sarai, que depois foi rebaptizada para Sara, devia ser era Geraldina.

O Tapor nas Ilhas Maurícias, por Ribeirinho

Eu nunca lá fui.

14/10/04

O Tapor em N.Y., por Mangas

O que ia a conduzir falava pouco, ao contrário dos outros quatro que usavam todos bigode para parecerem mais velhos, e emborcavam champanhe com sabor a pina-colada por uma garrafa camuflada num saco de papel pardo a passar de mão em mão. Eu mantinha-me como o que ia a conduzir e ia topando o sotaque gang-mafioso-italo-americano deles todos. Vestiram-se para entrar no LimeLight, camisas escuras, golas abertas debaixo dos casacos lustrosos, fios de ouro ao peito, cabelos empastados com Brylecream, fechavam os dois dedos médios e o polegar e apontam o mindinho e o indicador quando falavam com alguém, para intimidar. Eram capazes de impressionar naquele revivalismo póstumo dos setenta com estilo. Tinham todos alcunhas de gangsters a seguir ao primeiro nome: Paulie "The Fat", Vinnie Clemenza, Joe Cicero e Gino T. (que eu nunca cheguei a descobrir se era de Tattaglia). O que ia a conduzir era apenas "C". Um dia, enquanto cozinhava, explicou-me que começou por ser Cool Hand porque era um príncipe do volante, depois Cool Hand Look e daí a "C", foi um instantinho! Se eu tinha visto o filme, respondi-lhe que sim, cortava ele o alho, os tomates e a cebola para o molho e explicava-me que o segredo estava na mistura das carnes de vitela e porco alouradas em azeite bem quente com alho cortado em rodelas finas. Muito finas. Naquela noite, em cima da Brooklyn Bridge, pensei que afinal podíamos todos ser os personagens do Goodfellas do Scorcese, depois de um deles me ter contado como correram atrás de um negro que vendia crack a quem chamaram our bitch!, só pelo gozo da situação. Por vezes falavam como se eu não estivesse ali e só passado algum tempo, quando a terceira garrafa meia vazia chegava às minhas mãos, é que me explicavam quem era a tal tipa que se tivesse os miolos do pai e o corpo da mãe dava uma puta genial. No início, talvez o fizessem para contrariar a minha condição de outsider. Para me indicarem que podia entrar nas conversas mesmo sem ser convidado. Lá para o meio da noite, já me viam como um deles e apresentavam-me aos amigos como ma man D.!, mas ainda sem direito a sobrenome siciliano.

Jantámos em Litlle Italy para completar o cenário, discutiu-se quem era o maior, se Frank Sinatra ou Tony Bennet, ficou-se por um empate técnico para que não corresse sangue, porque o senhor Antonio di Bennedetto ganhou por um voto mas o coro em algazarra cantava I`ve got you under my skin. Vinie saiu para vender tabaco de enrolar açoriano, comprado no quiosque de um português em Jersey, como sendo erva pura da Jamaica e logo a seguir passámos pelo detector de metais à porta do LimeLight onde a Madonna costumava chegar de limousine para beber um copo e que, noutros tempos de igual veneração, fora uma igreja católica.

Lá dentro, numa gaiola suspensa num tecto gótico, contorcia-se uma strip chinesa. Despia um fato imaculado de bailarina clássica que contrastava com os púrpuras e os sanguíneos dos vitrais preservados de S. Pedro. A toda a largura de um púlpito em granito, três imaculadas Virgens Playboy com as mamas a servirem de pontos cardeais, apontavam a shampoo room à esquerda, e a gay room à direita. Primeiro impacto. O som da batida funky entranhava-se na atmosfera esmagada pelo fumo, cheirava a hormonas por todo o lado, nas casas de banho cheirava a tudo que era perfumes da moda a troco de um dólar por esguichadela, um festim intenso e orgiástico de aromas e espelhos, havia gays com calções de ganga colados pela boca, aos pares, como peixes a presos pelo anzol, segundo piso, negras entesoadas, verdadeiros coirões MTV, com longas unhas postiças em forma de meia lua e o cú em forma de coração, gajas hip-hop, mini-saias convite, bocas-broche, lábios-batôn, rostos à espera de Deus, som, muito som!, terceiro piso, mais som, batida infernal!, impossível ficar quieto, olhos bem abertos, sorrisos fechados, uma grande sala chill out com poltronas velhas em veludo vermelho e um DJ novo de óculos Ray-Ban aviador que flutuavam numa densa combinação de marijuana e reggae. Os óculos e o DJ. Saímos dali quando a madrugada se esgotara de nós e corremos à chuva até à esquina da Broadway Street com a 8ª Avenida onde costumava estar um emigrante polaco a vender cachorros quentes, mesmo ao lado de uma abertura no asfalto por onde saía o vapor do metro.

Lembro-me que um deles cantava desafinado Papa Was a Rolling Stone, dos Temptations, e aquilo soou-me como um peça de violinos e harpas que se escuta ao pôr-do-sol, depois de uma descida ao techno-Dante.

12/10/04

O Tapor em Berlim, por Peter Panzer

Cheguei de Berlim. Lá fui em peregrinação ao Kat Kat com o meu amigo Walter. «Um antro gay», dizia ele, mas a mim pareceu-me apenas um clube de paneleiragem. Lá dentro estava toda a gente nua ou, na melhor das hipóteses, vestida com fatos de batman sem capa, ajustadinhos ao corpo.
No hall do Kat, atende-me um porteiro metido num fato cor de rosa de Daredevil que me pede para ver os boxers. Uma vez que não falo alemão, expliquei-lhe no meu melhor inglês que só tinha "truces" daqueles meio fanados, castanhos atrás e amarelos à frente. O gajo deixou-me entrar. O Walter não teve problemas porque tem um fato especial que comprou, em segunda mão, numa loja S/M e já tinha aquilo por debaixo da roupa. Um senhor, este Walter! É o primeiro conselho que dou a quem for um dia a Berlim e procurar o inevitável Kat Kat: aluguem uma fatiota destas para ver a noite em Berlim. É outra classe, acreditem...

O antro não tem grande história. É um sítio infernal, completamente negro, com House e Techno, a noite toda, em altos berros. A frequência é a malta da love parade. Práli estão a comer-se uns aos outros. A melhor cena foi a de duas bichas que passaram a noite toda enfiados um no outro em cima de um baloiço que um terceiro empurrava, enquanto se masturbava. Dejá Vú!
O que gostei mais foi de um sítio chamado O Trono no interior da discoteca do segundo piso. O Trono é um estrado mais elevado da discoteca, no meio da pista de dança, onde está de gatas um caramelo com uma máscara S/M enfiada na cabeçorra. O gajo está de rabo alçado e há uma dominadora drag queen que lhe vai arrancando, metodicamente, resmas de pelos do cu. Quando ela os tira, o tarado diz-lhe num tom very british: "Thank You, my lady" ao microfone e a malta curte e dança mais desenfreadamente ainda.
Enfim, é outro mundo - saímos de lá às 5 da matina, não sem que antes o Walter tivesse tido uns problemas devido às qualidades eróticas evocativas do seu fato especial de super herói. Os meus truces é que não pareceram ter grande sucesso, vá lá um gajo saber porquê...

11/10/04

A Vila, de M. Night Shyamalan, por HomemDeVitrúvio

Por influência do Goldmundo, fui ver o filme “A Vila” do M. Night Shyamalan. Fui vê-lo com o propósito declarado de fundamentar mais um duelo ao sol com o Gold. Com a visão do Trailer e do que se entendia da publicidade televisiva, adivinhava mais um filme de terror de pacotilha, com tripas a sair de todo o lado e bestas imundas aos saltos no escuro. O último filme do Shyamalan, o “Sinais” com o Mel Gibson e Et`s verdes aos saltos em campos de milho decorados para o efeito, não augurava nada de bom. Enganei-me. “A Vila” é um grande filme. O terror e o medo andam por ali, mas é mais a construção psicológica e técnica, do que as tripas ou as bestas desembestadas. O filme é profundo, complexo, terrífico, abominável e verosímel. O medo ali, é palpável, terrível, mas humano e cerebral. O decorrer do filme leva-nos constantemente ao engano e troca-nos sempre as curvas da estrada. O filme remete-nos quase directamente para o Génesis da Bíblia, nomeadamente para a Perda e a subsequente busca do Paraíso Perdido. Tal como no Génesis, também aqui o Paraíso assenta na Ignorância. Adão e Eva estão proibidos de comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal. No “A Vila” também são as árvores que demarcam a fronteira e impedem o conhecimento. Isto daria pano pra Mangas, como já deu entre mim e Goldmundo, na sua Ribeira Negra. Ficando por aqui, resta-me responder à pergunta que se impõe: Será que se queria viver no Paraíso de “A Vila”, ou no Paraíso Perdido do Génesis. Eu respondo não. Subscrevo o acto da Eva e louvo a Serpente que lhe abriu os olhos (só a partir do “Paraíso Perdido” do John Milton, ou sobretudo por ele, é que a serpente passa a Lúcifer disfarçado, antes era o mais bonito dos animais e andava erecta). Só é pena que a Eva não tenha também comido o fruto da Árvore da Vida, antes da expulsão do paraíso.

07/10/04

Marteladas

Quem tem um mínimo contacto com a nobre profissão de jornalista, sabe como são corriqueiras, mesmo banais, as pressões a que a classe está sujeita. Autarcas boçais, ministros pseudo-espertos, caudillos de aparelho, arrivistas de apanha recente, estes e outros espécimes da fauna política local e nacional, são useiros e vezeiros no «toque», no «alerta» ou na ameaça velada.

Geralmente a pressão não se exerce directamente sobre o jornalista, principalmente, se este se mostra indomável. Nem sequer sobre os seus superiores hierárquicos, também eles jornalistas. A coisa faz-se noutra divisão, no tabuleiro da economia - vai-se directamente ao conselho de administração, ao administrador amigalhaço das lutas políticas ou compincha noutros negócios. Esta gente continua a encarar a liberdade de expressão como um luxo cosmético que urge estancar, assim que ameaça levemente os interesses estabelecidos. E ainda continua a pensar que o país se governa com uma espécie de política subterrânea que é feita de influências recônditas, cunhas à sucapa, pressões mais ou menos secretas e maçonarias «discretas».

Para quem tem um mínimo de conhecimento sobre o dia a dia dos jornalista - e vê como banais as pressões que a «classe» (ou sem ela) política» exerce sobre eles - poderá ainda haver alguma dúvida sobre as pressões que terão tido como alvo o Professor ?

Informação útil, por Carmelinda Pereira

A quem possa interessar, abaixo se transcreve o ponto 2 do apêndice III que esclarece a regra 5 das regras oficiais de golf elaboradas pela Royal and Ancient Golf Club of St. Andrews que, desde 1897, é unanimemente reconhecida como a autoridade reguladora das regras do jogo, contando actualmente com mais de cem países filiados. Este apêndice refere-se exclusivamente à bola e o ponto 2 que ora se transcreve define o seu tamanho:
«O diâmetro da bola não pode ser inferior a 1680 polegadas (42,67 mm). Esta especificação considera-se satisfeita se, sob o seu próprio peso, uma bola passar por um anel de ensaio com 1680 polegadas de diâmetro menos de 25 vezes, num total de 100 posições escolhidas ao acaso, sendo este ensaio feito a uma temperatura de 23º +/- 1ºC»
O Tapor presta aos seus leitores um verdadeiro serviço público, satisfazendo assim os diversos pedidos de esclarecimento que têm chegado à nossa redacção. Para a semana, ensinaremos a tirar nódoas de aguardente de cana dos tapetes de sisal e prometemos que brevemente desvendaremos todos os mistérios do universo a começar pelos anéis de Saturno. Adeus amiguinhas, beijos da vossa
Carmelinda

05/10/04

Mariposa, por Cão

E então uma mariposa, grande e inóspita como um helicóptero de combate, apareceu no ar gorduroso do restaurante à cheia hora do cozido. Gerou-se de imediato um vietnam de porras, braçadas e xôs. Guardanapos anti-aéreos desfraldaram patriotismos de caça higiénica. Intrusa involuntária, e aturdida de tanto pano predador, a mariposa tentou colar o ventre à pá do heliventilador, de onde foi sacudida sem mercê por um comedor de farinheira que se tinha empoleirado com garbo e sem cautela num banco precário. Tão precário efectivamente, que deu de si, o banco, dando com ele, o da farinheira, no chão, nadir frio do zénite ventilador. Houve risadas. O tombado, caído sem querer nem remédio no ridículo, amuou e foi continuar o cozido numa mesa que não era a dele, facto que aproveitou para reenfarinhar-se a gosto e à borla.
Entretanto, a voz da razão tentava serenar os desânimos, que pela sala guardanapavam ainda com luxúria, mas tanto menos acuidade quanto mais nervo. A mariposa resistia num voo copérnico, imprevisível, desesperado e desesperador. Pertenciam, a tal voz e a tal razão, a uma senhora afinal mais esbracejadora que uma deusa hindu ou um sinaleiro lusitano, desses de antigamente que, de capacete cor de cueca e do alto de uma peanha de lata, desorientavam vauxhalls e NSUs a caminho do ferro-velho do destino.
De repente, já não havia mariposa. Havia, em vez dela e tão-só, um restaurante de preço popular virado de pantanas. O vinho derramado pelo chão consubstanciava um lúgubre onanismo cor de sangue, um guardanapo pendia como uma mão de velho do poster do Sporting local, duas cadeiras tombadas juntas armavam uma aranha octoplégica, tudo somado a um dono da casa perfeitamente estarrecido de desconcerto perante a evidência do prejuízo.
Mas, enfim, lá se recompuseram mesas e cadeiras, fraldas de camisa e respirações. Famílias desunidas redesuniram-se e voltaram aos enchidos, crianças de colo foram reencontradas já púberes, uma senhora amelanciou o decote farto, o telejornal foi posto em som mais alto que de costume e a ordem do mundo voltou ao mundo, o nosso mesmo mundo que só precisa de uma mariposa para soprar na gentinha o escabroso tufão da loucura.

01/10/04

Salvador Dali, Crucifixion(Corpus Hypercubus), 1954. Por Margarita

Alguém disse que Picasso é o artista do feio e Dali da beleza. No que toca ao pintor surrealista, este quadro bem pode atestar esta afirmação. Cristo é o elemento central de Corpus Hipercubus. É um Cristo escultural, belo, perfeito, quase pagão … Ao contrário do que é hábito numa certa tradição pictórica, Dali não quis pintar o sofrimento do Messias, os pregos, o sangue, a coroa de espinhos… Mas, segundo diz, por influência de um provérbio espanhol, («A mau Cristo, sangue em demasia»), opta pela pintura da «beleza metafísica de Cristo-Deus». É essa beleza depurada de sofrimento que observamos aqui. O Cristo de Dali é o contrário do Cristo sofredor da tradição (do de Mel Gibson, por exemplo, completamente reaccionário na sua concepção), é um super-herói, um Apolo grego que paira por cima dos homens e das leis da natureza.

O Cristo flutua numa pose magnífica, desafiando as leis da gravidade, apesar do carácter denso e compacto dos cubos que constituem a sua cruz. Ele não está preso com pregos à madeira, o seu corpo está ileso. A sua face está escondida e a pose é ambígua. Será sofrimento? Pelo contrário, pode perfeitamente ser uma pose de prazer, de êxtase místico, tema tão querido ao Dali desta fase… Não está pregado, não está forçado a fazer parte da cruz mas, pelo contrário, parece fazer corpo com ela, como se fossem o mesmo corpo, uma espécie de ser cibernético. É um Cristo da era do átomo, um super-humanóide futurista e não uma visão reprodutiva da narrativa religiosa tradicionalista. Dali não procura reconstituir uma saga passada, mas cria um Cristo moderno, do século do átomo.

Na metade esquerda do quadro está Gala, a musa permanente de Dali. A dedicação do pintor durante toda a vida a esta mulher é de tal ordem que chegará a assinar quadros com o nome de Gala-Dali pois, como explica, sem Gala, Dali não seria o que é. Em Corpus Hypercubus aparece representada como rainha ou santa, olhando devotamente o fantástico Cristo que flutua na noite.
Podemos também recordar o primeiro nome de Dali – Salvador – e identificá-lo com o misterioso Cristo na cruz. Será Cristo, o Salvador (Dali)? Nesse caso, a história pessoal – a adoração de Gala por Dali e vice versa – funde-se com a história cósmica do Cristo religioso. O cenário de de Crucifixion é a paisagem de Port Lligat na Catalunha- outra referência constante da obra do pintor-, lugar inspirador de Dali. Como Gala, contribui para a criação de um clima de fusão entre cósmico e local.

A estranha cruz, por sua vez, parece feita de um material extra-terrestre, asséptico, carbónico… É feita da junção de vários cubos, cada um um micro-universo em si próprio - o cubo, como a esfera, é um símbolo geométrico da perfeição, da regularidade, em que cada face é rigorosamente igual às outras. Isto sublinha a perfeição do Cristo e a identidade entre este e a cruz. A cruz feita de cubos remete para o habitual jogo de referências obsessivas de Dali. Vejam-se os exemplos de Cruz Nuclear (1952) e de A Cruz do Anjo (1960) que misturam a alusão religiosa e científica. A cruz de Corpus Hypercubus remete para este mesmo cruzamento religião/ciência. O pintor surrealista confessa que, depois da influência decisiva de Freud na fase inicial da sua obra, esta nova fase será marcada pela marca do génio da energia atómica, Werner Heisenberg:

«Hoje o meu pai é o dr. Heisenberg. (…) A física apaixona-me. (…) Após ter meditado sobre o que acabava de estudar (a teoria da relatividade e a física atómica) (…) dei conta de que sou tão inteligente como pretendo sê-lo, pois cheguei às mesmas conclusões do sábio. Foi por causa disto que eu, que só admirava Dali, passei a admirar esse Heisenberg, que tanto se me assemelha.»

A modéstia nunca foi a maior qualidade de Salvador Dali…