28/11/04

Pergunta de burro, por Porco Revoltado

O Henrique Chaves demitiu-se. É o grau zero. O Portugal do Santana não existe. Isto é uma palhaçada. Devemos apelar ao Sampaio para convocar eleições. Até o Cavaco bateu com a porta. Disse, e bem, que vai sendo tempo de os sérios e competentes correrem com esta escumalha. É triste, mas é verdade. A linha separadora do confronto político já não está no campo ideológico mas no domínio da ética política e da seriedade pessoal. Quer isto dizer que a esquerda e direita estão do mesmo lado da barricada contra os corruptos, oportunistas e incompetentes. É grave porque mostra ao que chegou esta merda. E é real porque temos o Soares e o Cavaco, adversários há muito pouco tempo, identificados no discurso crítico e devastador a Santana. Quer dizer que a situação política está abaixo de cão.
Ontem foi a enterrar uma referência da vida política portuguesa do século XX. O Dr. Fernando Vale, aos 104 anos, morreu descansado. Médico verdadeiro ao serviço dos doentes e não servindo-se dos doentes, republicano, democrata, maçon. Pessoa tolerante de grande empenhamento cívico. Nunca retirou vantagem da sua intervenção pública. Pelo contrário. Sofreu a prisão, a perseguição, a intolerância e o insulto. Nunca teve tachos. Foi apenas governador civil de Coimbra, porque lho pediram insistentemente e numa altura de grande agitação em que a res publica reclamava o seu contributo. Tão diferente desta canalha que exige tachos no conselho de administração das empresas públicas e municipais, exerce vereações a tempo inteiro com ajudas de custo e de representação, cartão de crédito e automóvel e telemóvel e etc e o caralho que os foda! E são vogais do conselho fiscal disto e daquilo, accionistas da puta que os pariu, metem cunhas para construir em terrenos protegidos, são veteranos das jótasèsseistoeaquilo aos 16 anos, movem influências para arranjar postos para os filhos e afilhados, cunhas para entrar em Medicina, despedem jornalistas como quem sacode pulgas, sonham com golfe em Bruxelas, embaixadas em NY, comissões de serviço em Madrid ou assessorias de imprensa em Londres, têm putas platinadas e amigos com ilhas privadas, fumam Cohibas que davam para matar a fome a muito desempregado. PUTA QUE VOS PARIU, ó Sanguessugas da Pátria!
O Gomes da Silva, no funeral de Fernando Vale apresentou o falecido como bom exemplo a seguir. E eu pergunto:
MAS POR QUE CARALHO É QUE NÃO SEGUEM O EXEMPLO DO DR. FERNANDO VALE? FODA-SE!

Nota: foto de http://www.asbeiras.pt/ edição on-line de 27 Nov 2004

♫Jing Dong Bel, Jing Dong Bel♫, por Citizen Tuga & Mangas Kane

O que aconteceu foi que eu estava em Belém na inauguração da maior árvore de Natal da Europa, sim repito da Europa!, porque nós quando fazemos as coisas é em grande, e virei-me para um turista que lá estava e disse-lhe:
- Lá na tua terra não tens disto pois não? A maior da Europa, a MAIOR!
E o gajo vem com uma conversa do género: «...não sei quê, no meu país preferimos gastar dinheiro em outras coisas, por exemplo a evitar que rebentem condutas de água que levam ao abatimento do solo, e dessa forma prejudiquem milhares de pessoas...», mais não sei que mais e o camandro!
E eu, que até sou um gajo que hé pá, tenho uma facilidade na exposição de argumentos, não me fiquei e disse-lhe logo:
- A maior da Europa! Toma! Embrulha!
E o gajo começa a falar que não sei quê, lá no país dele quando começa a chover as zonas ribeirinhas não ficam inundadas, e que talvez fosse melhor que, em vez da árvore, o dinheiro fosse canalizado para evitar essas situações. Eu comecei a enervar-me e disse-lhe logo:
- MAU, MAU MAU...! Tu queres ver que nos temos que chatear! Eu estou aqui a expor argumentos que hé pá, sim senhor, e tu vens com essa conversa de não sei quê...? Eu nem quero começar a falar na feijoada em cima da ponte, nem no desfile de pais natais, nem da broa de Viseu que foi para o Guinness e tudo, porque senão nem sabias onde te meter, pá.
Então, o gajo começa a falar de uma coisa qualquer, tipo túneis que são construídos e ficam a meio, e não sei que mais, e eu virei logo costas! Acabou! Porque quando eu vejo estes gajos que não conseguem aceitar a superioridade de um país sobre o outro, e ainda falam, falam, falam, e não dizem nada de jeito, eu fico chateado, claro que fico chateado!

26/11/04

Coimbra, Che Guevara e o Golfinho, por MenteContusa

Já todos nós ouvimos mil e uma histórias do casal “enganchado” pelo sexo, que dá entrada nas urgências do hospital. Coimbra - recheada de hospitais - tem destas histórias a circular às carradas, com variantes tão variadas como horripilantes. Desde o casalinho gay surpreendido pelo rebentamento da veia no pénis, à solitária viúva demasiado intima de garrafas de Coca-Cola, até aos graúdos da sociedade que por vezes também se engancham e lá caem de urgência, de tudo se faz boato, fundado ou não. Histórias com bicharada “enganchada”, então é mato. Mas Coimbra, provinciana como é, lá faz uns boatos simplórios com canídeos ou ovídeos. Mas o mundo é rico, fértil e variado e lançando aqui o fundamento para um novo boato, imaginem-se num hospital selvático da amazónia peruana, onde lhes entra pela urgência adentro alguém enganchado num golfinho. Estranho. Pois, mas pode acontecer.

Che Guevara no seu livro “Viagem pela América” que relata o seu percurso pela América Latina em 1952, relata que quando chegou ao Rio Ucayali, (continuação do Amazonas) no Peru, se deu com o seguinte:

“No lugar onde nos banhávamos havia um peixe de forma bastante estranha, chamado pelos naturais Bufeo, o qual, segundo a lenda, come homens, viola as mulheres e faz mil outras tropelias do estilo. Parece que é um golfinho de rio que tem, entre outras estranhas características, um aparelho genital feminino parecido com o da mulher, de que os índios se servem como substituto. Mas têm de matar o animal quando acabam o coito, porque se dá uma contracção da zona genital que impede o pénis de se retirar.”

Já tou a ver. De aumento em aumento e de acrescento em acrescento, e a partir aqui do Porco, prá semana já é dado como certo nos mentideros da praça coimbrã, que o Nosso Hitler REIS Derek mascarado de Che Guevara deu entrada nos Hospitais da Universidade de Coimbra enganchado num golfinho menor de idade que importou do Peru. Sacana!

24/11/04

Ligação à medusa, por Cão

Devia ter chorado durante o sono, pensou, porque ao acordar os olhos lhe estavam inchados como incham os lábios durante o amor. E também porque, no exacto lugar onde outrora o coração, sentiu que lhe pulsava uma medusa de ácido. Pessoa prática, fingiu não sofrer os destroços de alguém que desperta para a certeza de o mundo ter recomeçado sem ela.
Levantou-se, ferveu água para o café, gargarejou elixir no lavatório, bebeu o café, vestiu a melhor roupa, calçou os sapatos melhores, semeou flocos de comida na água do peixe vermelho e saiu para o patamar, onde o poço do elevador de grades escancarava a dupla possibilidade do inferno ou do rés-do-chão. Foi pelas escadas.
O fecho eléctrico da portaria emitiu um protesto indignado, a que não ligou porque se não deve ligar a tudo. Havia sol.
Caminhou pelo lado do sol, rasando as sucessivas pastelarias de almoços rápidos, as rápidas lojas chinesas onde budas miniaturais incham de plástico ao pé de telemóveis de brincar, as infinitas sucursais bancárias das capitais pobres, os carros abandonados à mercê dos cães urinários. Foi marchando com a pressa de quem não tem aonde ir. Que fazer de tanto domingo?
Num relance de avenida alta, viu, longe, um trecho de rio: pele de luz, mais que de água, tatuada de velas e cargueiros. Dirigiu-se a essa visão hóspita, bastando-lhe descer no sentido das calhas do eléctrico. Até que chegou. Livre de prédios, o rio unia sem tracejado o céu montante ao mar jusante, como certas palavras são capazes de fazer. Gostou de ver o sol dissolver-se na água, açucarando-a da mais benigna das ilusões – a eternidade.
Um cargueiro bramiu como um elefante acorrentado, e a voz do navio rasgou o domingo em dois, como se o domingo fosse um melão. Pescadores à linha erguiam as canas à maneira de exclamações mudas, atentos ao parkinson das bóias. Também gostou dos pescadores, que procuram mais a solidão do que o peixe.
Lembrou-se, então, do seu peixe, o vermelhusco de olhos esbugalhados que por ora mordiscava a tona do aquário com a felicidade indiferente dos que se resignaram. Lamentou não tê-lo trazido consigo, dentro de um saco de plástico tão inchado de água como olhos ou budas, não tê-lo trazido para o dar ao rio, onde teria de aprender a evitar a solidão assassina dos pescadores mas onde se não veria sujeito a rasar pastelarias, chineses, bancos ou carros, nadando, em vez disso, no açúcar solar como se para sempre.
Lamentou mas não ligou, porque não ter nada é a melhor razão para não ligar a tudo, muito menos à medusa.

23/11/04

Hare Krishna, por Mahatma Singh.

Local: mosteiro budista habitado por monges carecas vestidos com túnicas de cores laranja e amarelo que meditam silenciosamente. O Grande Dalai Rama levita na posição de lótus quando é, subitamente, interrompido pelo jovem e tímido discípulo.
- Mestre, perdoa-me esta interrupção...
- Sim, meu filho. Que inquietação é essa que te leio no rosto e te leva a interromperes o momento divino da meditação em que a alma e o corpo por momentos se fundem e são um só?
- Perdoai-me mais uma vez, Venerável Mestre, por perturbar a Divina Reflexão, mas uma dúvida inquieta-me o espírito e impede-se de atingir a placidez do Nirvana.
- Diz então, meu filho, o que tanto te inquieta, para teres decidido perturbar o estado de plenitude que partilhavávamos com Vishnu.
- Mestre, tenho uma dúvida que me atormenta: é verdade que uma pérola se pode furar pelos seus dois orifícios, enquanto uma mulher apenas se deixa furar por um...
- Sim, meu filho, é verdade. E qual é a tua dúvida?
- Mas, venerável e santo Mestre, ao que parece, há mulheres que se deixam furar pelos dois orifícios! Sendo assim, Mestre, qual é a diferença entre uma pérola e uma mulher?
- É que isso, meu filho, não é uma mulher, mas uma pérola.

21/11/04

Como se combate a idiotia?, por Idiota Jones

Escrevo hoje por dever e penitência. O dever ditado pelo arrependimento, a penitência sedenta de perdão. Deve a idiotia combater-se à paulada? Embora os idiotas não desmereçam do método, devemos optar pela negativa. A escolha é mais pragmática do que cristã. É que a paulada, embora castigadora, produz normalmente o efeito perverso de estimular a idiotia. Retenham o princípio: quanto mais se arreia num idiota, mais idiota o idiota se torna. A partir daqui, é só desnovelar a regra. Isto é, quanto mais idiota, mais pauladas, quanto mais pauladas mais idiota, e por aí fora. Arafat morreu sem ler este conselho, tal como não creio que Sharon leia o Tapor, e por isso o conflito israelo-árabe está como está. Crede pois, sou eu que vo-lo digo: não há pau que ilumine um idiota. Só há um remédio para a idiotia: classe! Há pessoas que têm classe. As pessoas que têm classe anulam os idiotas. Não há idiota que não arrenegue da idiotia em face da classe. E eu sei do que falo, meus irmãos. Eu fui um idiota! Em Julho de 2004, aqui neste blog de idiotas, eu levei a idiotia aos limites históricos. Poderia arrolar agora, qual arrependido na vara da justiça, inúmeras razões que explicassem a idiotia. Invocaria o contexto e a circunstância, o espírito jocoso e a inconsciência, o involuntarismo e a irreflexão, buscaria atenuantes e testemunhas abonatórias e talvez convencesse os idiotas ainda mais idiotas. Não há perdão, porém. Eu, idiota me confesso e prosterno-me humildemente aos pés da ofendida com o incomensurável peso da minha idiotia amarrado ao pescoço. A ofendida foi Filipa Pato. E se esta confissão tiver o dom de reduzir a idiotia, que não limpá-la totalmente posto que a má natureza se atenua sem que se anule, a causa é só uma: a classe de Filipa Pato.
Em Julho de 2004, provámos e não gostámos do «Ensaios» de Filipa Pato. Escrevi, a esse propósito, um post para o qual reclamo desde já o indisputável título do «post mais idiota do Tapor». O plural refere-se à confraria. Eu fui o responsável pelo post. Estranhas são, todavia, as leis que regem o universo. Não fossem estranhas essas leis e a Providência ter-nos-ia, justamente e para nosso infortúnio, privado para sempre do conhecimento da jovem enóloga. Mais não mereceria, diga-se, o deslustre que lhe endossei. Se tal desdouro merecera eu por castigo, decidiu a Divina Providência fazer claríssima demonstração do Seu sentido humoroso, dando ao injusto ofensor o imerecido prémio de conhecer a ofendida injustiçada. Quando Filipa Pato se nos dirigiu, de forma cordata e corajosa, desafiando-nos para uma prova de vinhos brancos, não foi só uma bela jovem determinada e inteligente que saiu ao nosso caminho. Foi mais do que isso, foi a sabedoria do Eterno, que nos Seus insondáveis e excelsos desígnios, lançou uma cavalheiresca e humorada bofetada às trombas deste seu servo, pobre degenerescência da Criação.
Na Sexta-feira, 19 de Novembro, tínhamos aprazado o jantar na Cova do Finfas, onde a D. Cilita, a célebre Dona Gata, nos aguardava com uma magnífica sopa de peixe e um extraordinário Robalo no Forno ao Sal a Arder. Sobre isso e sobre os vinhos em disputa, outros melhor se encarregarão de dar nota. A verdade é que ninguém acreditava que Filipa Pato aparecesse. Pelo caminho, interrogávamo-nos mutuamente. A resposta era invariável e sempre a mesma. Não, Filipa não apareceria, fosse porque a não merecêssemos, fosse porque alguém lhe usurpara a identidade numa piada de mau gosto, fosse porque, vendo bem, não somos gente que se recomende. Afinal, qual de nós, em pleno juízo, aceitaria jantar connosco? É daquelas perguntas que dispensam a resposta, pois vai directa à consciência, esse exótico lugar onde a mentira não cabe porque fruto não colhe. Não, eu se vos não conhecesse, meus amigos, jamais jantaria convosco. E tenho a certeza que cada um de vós pensa como eu. Por isso somos amigos, porque partilhamos esta incontornável verdade.
À hora marcada, porém, Filipa apareceu. Só. Corajosa mulher! Quem olhasse aquela mesa de convivas e observasse Filipa rodeada por aquela gente, inevitavelmente se lembraria de um qualquer episódio bíblico. Daniel na Cova dos Leões, Cristo no Templo com os doutores, eu sei lá, uma de entre as tantas por onde a natureza extraordinária do Filho de Deus se exaltasse pelo contraste dado pela fraca figura dos circundantes. Filipa brilhou, naturalmente. Mas também porque a nossa rude natureza ainda mais brilho lhe conferia. E falou de vinho, e exalou simpatia, inteligência e beleza. Lembro-me quando, em criança, no circo, via os domadores na jaula dos leões e me interrogava como conseguiam eles acalmar as feras. Sei-o agora: tal como a classe de Filipa se impõe sobre o espanto dos bárbaros desta confraria e deste idiota que outrora, no tal Julho de 2004, lhes deu voz e agora se penitencia.

Que fazer com blogs nazis? – semana de reflexão, aqui no Porco. Por Rocco Siegfriedo

Quem tem aparecido no Porco na última semana, reparou que andámos divertidos a bandarilhar a marizza, a nossa kiducha de estimação e nazi assumida – ela não é bem nazi, é mais uma nazizita que tempera as cruzes suásticas do seu blog com imagens da minnie e do mickey e hentais muito kidos.

Primeiro embirrámos com ela, simplesmente, porque a achámos intolerante – a kiducha insultava-nos quando lhe criticávamos os posts, como se a blogosfera tivesse que ser um imenso salamaleque virtual destinado à troca de galhardetes. Continuámos a toureá-la, claro, e ela irritava-se cada vez mais – apagou-nos os comments! – e mais – suicidou-se como um terrorista da al qaeda, apagando o seu próprio blog. Confesso que nos rimos muito esta última semana e o Porco atingiu cifras astronómicas de visitantes para o que estamos acostumados, sem dúvida num estado tão hilariante como o nosso. Por isso é nosso dever agradecer-te kiducha. Bigado!

Foi então que descobrimos que a nossa kiducha é, assumidamente, nazi, detesta os «pretos» e tem amigos skins que fazem rusgas a demarcar o território. Ela própria o diz e «acha que a sociedade não está preparada para as suas ideias» (como se se pudesse chamar aquilo que ela defende «ideias»…). A nossa inocente kiducha, não tem culpa, coitadita, mas fez-nos pensar: como devemos reagir perante blogs nazis? A divulgação e a promoção de ideais nazis são expressamente proibidas pela Constituição Portuguesa … Devemos denunciá-los? Bom, não é o nosso estilo fazer queixinhas. Mas mentecaptos deste género devem saber que estão fora da lei.

Excluída a hipótese da denúncia, surgiram no Porco duas correntes: uma, que defende que temos o direito e o dever de insultar gente desta. Outra que é melhor não cair no registo a que eles estão habituados e tratá-los com complacência e piedade, usando a fina superioridade da ironia e do humor como farpa que mói o touro. Ou então, simplesmente, podemos ignorar esse tipo de gentalha. Temos algumas dúvidas acerca do tema. E o que é vocês acham?

19/11/04

Um Rapaz Cruel, Sanguinário e Vingativo, por SarçArdente

Agora anda toda a gente a escrevinhar à mão a Bíblia. A começar pelo nosso/deles Presidente da Junta, Sua Majestade Portentosa El Cabeça de Cenoura, tudo faz bicha com câmaras atrás claro, para ir escrever mais um trecho do livrinho sagrado.

Ora o livrinho sagrado, que nos ensinaram - de longe e por voz terceira - como puro e inatacável, é uma enorme sucessão de barbaridades. Divinas, mas barbaridades.

Até dou barato, a justeza dos ensinamentos do JóttaCristo do Novo Testamento, assim como a imagem do Deus compreensivo, misericordioso e pachola que o mesmo descreveu. Mas o Velho Testamento pré-Ísaias, descreve um Deus particularmente cruel, invejoso, ditador, sanguinário e vingativo, que se está completamente a cagar para quantos inocentes mata, só para dar uma lição a um triste qualquer que só reza uma vez ao dia. É um Deus que arrasa povos e cidades inteiras só para dar lições ao povinho eleito, que por acaso nem lá mora. Noutras vezes, extermina por inteiro o povinho deseleito e vai fazer obra nova a partir de outro rebento qualquer. Tribos inteiras sujeitas a pragas ou passadas a fio de espada é mato na Bíblia, tudo com aval, ajuda divina ou até em acção directa e ao vivo do colérico nominado.

Por tudo isto e nesta época do politicamente correcto em extremo, acho imensa piada às criancinhas todas a copiarem os excertos como os do Génesis, que relatam em pormenor o arrasar de Sodoma e Gomorra, crianças e bebés de colo incluídos, ou a parte em que se recomenda que se comam grilos e gafanhotos, mas que condena à danação quem coma gambas ou camarão, ou a violação do pai pelas filhas de Lot numa orgia continua de dias sucessivos, ou ainda aquele outro que relata que Deus permitiu a Caim “conhecer” mulher, depois do gajo limpar o sebo ao irmão Abel. Isto, quando na altura só tinha sido ainda criada uma única mulher, Eva, a mãe de Caim. Ora, se só lá havia uma mulher e Deus permitiu a Caim “conhecer” mulher, quem é que raio “conheceu” Caim? Freud tinha razão?

17/11/04

Have a Cigar, por Zé Gilmour, admirador de António José Saraiva, director do ESPESSO

Hoje é o Dia Mundial do Não Fumador. O governo anunciou, à semelhança de outros Estados da União Europeia, uma série de medidas drásticas com o objectivo combater os hábitos tabágicos da população portuguesa. Proibição de fumar nas escolas e nos hospitais. Mesmo nos espaços públicos, como os restaurantes e centros comerciais. E até nos bares e discotecas. A razão justifica-se. Fuma-se cada vez mais. Os fumadores passivos reclamam direitos. O Estado despende quantias enormes no tratamento das doenças causadas pelo tabaco. Eu fui fumador até ao dia que deixei de fumar. Sou, portanto, um ex-fumador. Há quem não seja. Por exemplo, o confrade Grunfo. O Grunfo fuma charutos há pouco tempo. ('tás a ver, ó Marisa, sua nazi de merda, aqui é que leva agá). Embora só fume aos fins-de-semana, pode considerar-se um fumador. E, porque fuma, não é um ex-fumador. Como não são ex-fumadores todos os outros que começam agora a fumar. Jovens. Principalmente raparigas. Ora, como todos sabemos, as raparigas de hoje serão as mães de amanhã. Algumas, pelo menos. ('tão, Marisa, já te veio o período?). E é entre as raparigas adolescentes e as grávidas que o consumo de tabaco tem aumentado nos últimos anos. Compreende-se. Primeiro fode-se e depois fuma-se. O melhor é produzir um pacote legislativo onde se proíba o sexo em conjunto com o tabaco. Se não se foder não se engravida. Se não se engravidar, as grávidas deixam de existir. Se não houver grávidas, deixa de haver o grupo estatístico onde o consumo de tabaco mais cresce. Então, o consumo de tabaco deixa de crescer. Isto é, decresce. Se decresce acabam as campanhas anti-tabágicas. Se há menos campanhas anti-tabágicas, já não seremos obrigados a ver aqueles cartazes idiotas e violentíssimos. Olé!

15/11/04

VAGA DE FUNDO - NÃO NOS ABANDONES MARISA!

Aqui no Porco pensávamos que a net era o mundo mais parecido com o Planeta Liberdade de Expressão que o ser humano já inventara. Aqui no Porco ficamos sempre satisfeitos quando vem cá alguém – seja para dizer bem, seja para embirrar e levar troco. Até o Julinho é bem vindo. Quando não vem ninguém, marramos nós uns com os outros.Venham todos, digam bem ou mal. É pra isso que foi feita a blogosfera.

Mas há bloggers (?) que não pensam como nós e ficam zangados quando vamos dar patada aos blogs deles. Alguns estão ali ao lado nos links ao pé de outros onde vamos geralmente sem dar patada. Gostamos tanto de uns como de outros… Mas há os que se ofendem e que nos apagam os comments, exprimindo assim o desejo virtual de uma net ordenada e bem educada feita para se trocarem elogios.

A nossa amiga Marisa do Diabolik Angel, ofendeu-se com os comments de alguns safarditas aqui do Porco. Porcalhões! E agora ameaça que vai fechar o blog dela por nossa causa. Nós não queremos. Gostamos da Marisa e por isso lançamos aqui uma vaga de fundo para que ela não feche o blog. Prometemos que, a partir de agora só vamos ao Diabolik para dizer bem da marisa. A marisa é património registado do tapornumporco. Não nos abandones marisa, agora que te conhecemos, não, please. FICA! Esperamos muitos subscritores desta Vaga a chamar-nos nomes e a apoiar a Marisa. Nós também somos contra o Porco e a favor da Marisa.

14/11/04

O nacionalismo é a ideologia dos burros, por Nossa Senhora Macuda

O «Público» de ontem anunciava o novo hino do pêpêdêpêéssedê do Sant'Ana Nos Valha: Somos actores da História/ de coragem e glórias/ pátrio orgulho do passado/ abraçado pelo mar./ Para vencer os desafios/ desse povo soberano/ abre a porta do destino/ que o futuro quer entrar./ Queremos mais Portugal/ grande luso pequenino/ nova força para o mundo/ geração Portugal./ Grita Viva Portugal/ pede a alma, bate o peito/ nova força para o mundo/ meu orgulho Portugal./ Tempo novo de acreditar/ de ser mais feliz/ de ser PSD/ sempre mais e melhor./ Santana Lopes é a voz/ na vanguarda do futuro/ de norte a sul/ de todos nós./ Grita viva Portugal/ meu orgulho, meu país/ nova força para o mundo/ grita Portugal./ Grita viva Portugal/ meu orgulho, meu país/ nova força para o mundo/ viva Portugal. Conseguem imaginar pior? Está cá tudo: o historicismo nacionalista que acha que o nosso umbigo é o mais bonito de todos os umbigos, a virilidade marialva, o triunfalismo patético, as banalidades recorrentes, o prospectivismo messiânico que tenta disfarçar a medicridade indisfarçável, o ensimesmamento missionário de quem se julga concebido para grandes missões e o próprio nome do timoneiro citado em hino. Desde o Mao que não se via uma coisa assim. Será possível ir mais baixo? Somos mesmo obrigados a aturar esta malta?

13/11/04

"Teria sido uma boa mulher", disse O Inadaptado, "se estivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela", por DervicheRodopiante

Descobri uma coisa portentosa. Passeava calmamente por um dos ensaios de Harold Bloom, quando os títulos de alguns dos contos da americana que ele recomendava, me fizeram arrepiar na sanita. “Os Coxos hão-de entrar Primeiro?”. Eh lá, isto é um conto do Cão!. “Não se pode ser mais Pobre que os Mortos?”. Chiça, isto é Tinó puro, talvez Xiita mesmo. E logo outro. “Os Homens bons não são fáceis de encontrar.”. Caramba, mais Mangas que isto, não se pode ser, e com um cheirinho de Vice.

Estes títulos negros, ligeiros e profundos ao mesmo tempo, cómicos e sérios, tudo na mesma frase, transportaram-me de imediato para um universo fora do habitual. Um universo negro, impiedoso, iconoclasta, porco mesmo. A leitura da coisa fazia-me adivinhar um gozo que até arrepiava a espinha..

Depois de meses de investidas pela Almedina, Bertrand e Fnac, lá consegui finalmente o “Antologia Indispensável”, edição Dom Quixote de 1996. O meu primeiro livro de contos da Flannery O`Connor, uma católica sulista de Savannah na Geórgia que cresceu e viveu numa Quinta de criação de Pavões, chamada “Andalusia”.

A frase do título deste Post é a frase com que termina um dos contos da O`Connor e situando alguma coisa, termino com as palavras do prefácio do livro “…por detrás de um cenário aparentemente insuportável de banalidade começam já a insinuar-se os primeiros sinais de alarme relativos à demência indomável da natureza humana.(…) Incrível. Hipnótico. Estranho. Mas não é a história. Somos nós. Nós os humanos, somos estranhos. Flannery era muito nova mas sabia isso melhor que ninguém.”

11/11/04

O Fernandel, por Tinoni

Já não vejo há muitos anos um filme do Fernandel; por isso a recordação que tenho dele e dos seus filmes pode estar um pouco fora de prazo. Já é quase uma recordação de caricatura, impressionista. Então, é assim: Um homem grande, com umas mãos grandes, uns olhos esbugalhados, uma boca enorme, uma forma de cantar la-boulli-a-bai-se (saravá, mangas!), com uns olhos muito abertos e risonhos. É assim que o recordo, embora não me lembre sequer de alguma vez o ter ouvido cantar. A memória tem este hábito de se distorcer e recriar para se manter feliz. E até acerta, por vezes. Para mim, o Fernandel confunde-se com o Dom Camillo, o padre-cura que interpreta no filme com o mesmo nome do princípio dos anos 50 (fui ver à net: o filme chama-se em francês “Le petit monde de Dom Camillo”; não me lembro como era cá). Fazia uma dupla da espécie bucha e estica com o comunista Peppone, seu amigo e adversário, numa versão amável e morna da guerra-fria, então a começar. Mais donc, tu m’enerves mon vieux! Curiosamente, não reconheci o Fernandel no personagem do Dom Camillo dos livros do Giovanni Guareschi, ao contrário do que me aconteceu, por exemplo, com a figura do Comissário Maigret, dos romances do Simemon, criado pelo actor Bruno Cremer. Se há personagens definitivas criadas por um actor, esta é uma delas. Um dia falo nele noutro post. Mas voltando ao Fernandel, há outro filme dele que recordo com nostalgia: A Vaca e o Prisioneiro. Lembro-me apenas que o Fernandel era um prisioneiro fugido dos nazis que andava pela floresta acompanhado por uma vaca, com quem se fartava de conversar. Por falar nisso, o Dom Camillo também dava secas monumentais a Deus, em conversas meio profanas e bonacheironas. Os personagens do Fernandel faziam parte de um mundo antigo, rural e a preto a branco (a minha memória deles é a preto e branco, pelo menos…). Este mundo foi depois torpedeado pelo Tati, com o Playtime, a sua fabulosa paródia do mundo moderno. Era outro mundo que surgia, frenético e labirintico, outra linguagem e outros valores, um mundo technicolor à beira de um ataque de nervos. Talvez já estivesse na altura. Esta é a recordação que tenho e é recordação que me apetece ter. Quando revir os filmes, logo se vê o que calha. Há aquela máxima que diz que nunca devemos regressar ao local onde fomos felizes. Mas acho que não corro risco nenhum se voltar ao Fernandel. Se alguém tiver para emprestar, agradecido.

10/11/04

Kilroy Was Here !, por DervicheRodopiante

- Já toda a gente viu de certeza um boneco semelhante ao do lado. Não é tão comum como os perversos “smiles”, mas aparece em “n” grafittis, filmes, livros e na net é mato. Até o Calvin do Calvin & Hobbes do “Público” aparece algumas vezes com esta postura. Por mim, já tropecei muita vez em tal bicho e sempre fiquei curioso da sua origem ou significado.

Ainda pensei em interrogar o nosso Vice, especialista em Simbologia e Semiótica, mas tal ousadia tanto pode resultar num discurso de duas horas sobre a evolução do boneco desde o São Tomás de Aquino até ao Umberto Eco, como pode conduzir à defenestração do ignaro por delito de analfabrutismo.

Contudo, há uns tempos atrás o “Público” reproduzia a lista do New York Times sobre os 4 melhores livros de literatura do Séc. XX, que seriam o “Ulisses” do James Joyce, o “À Espera dos Bárbaros” do J.M Coetzee, o “Pilgrims Progress” do John Bunyan e o “A Trilogia de Nova Iorque” do Paul Auster. Dando de barato o chauvinismo de se tratar de obras só de língua inglesa e saltando o Bunyan que julgo nem sequer estar traduzido, tratei de ler “A Trilogia de Nova Iorque” que me faltava. E ali, em nota de rodapé lá descobri o nome do boneco e a sua origem. Apresento-lhes assim o “Kilroy”.

Kilroy era nem mais nem menos que um fiscal dos estaleiros navais do Massachussets, nos EUA, que durante a construção naval intensa da Segunda Guerra Mundial, estava encarregue de inspeccionar e contar o trabalho dos rebitadores. Rebitadores esses, que eram pagos por cada rebite colocado. Após a inspecção e a contagem, Kilroy colocava no local, uma marca de giz para que os outros fiscais soubessem que aqueles rebites já estavam contados. Os rebitadores, ratões, iam por detrás do pachola do Kilroy e apagavam as suas marcas de giz, o que levou a pagamentos a dobrar, pelos quais o Kilroy foi chamado à pedra. E o Kilroy não esteve com meias medidas e passou a andar com lata de tinta e brocha. E brochava tudo com a expressão “Kilroy Was Here”.

Acontece ainda que, como em tempo de guerra não se limpam espingardas, as lanchas de desembarque, navios de transporte e demais material de guerra, saia dos estaleiros directamente prá frente de batalha sem qualquer pintura que eliminasse os milhares de “Kilroy Was Were” presentes em tudo. Muitas lanchas de desembarque e navios de transporte de tropas, apresentavam assim como único emblema, estandarte ou bandeira, o misterioso e eterno “Kilroy Was Here”.

Os soldados americanos acharam piada à coisa, adoptaram a expressão e trataram eles próprios de a pintar em todo o lado, dos tanques às baionetas, razão pela qual se vê tal expressão em muitos filmes sobre a Segunda Guerra, tanto na Europa como no Pacífico. Pelo meio há um soldado desconhecido, ao que se julga na frente do Pacífico, que acrescenta à expressão, o boneco do narigudo a espreitar por cima da vedação. A coisa tornou-se de tal maneira iconográfica que contaminou a própria guerra da Coreia e do Vietname.
E agora contaminou o Tapor. Kilroy Was Also Here !

07/11/04

Steve McQueen, por Mangas

Ocorreu-me dizer-te algumas coisas. Todos estes anos depois de ter visto Nevada Smith pela primeira vez, ocorreu-me falar-te daqueles dias de cinema e inocência perdida que tiveram também a ver contigo. Que perceberias o que quero dizer se ainda por cá andasses. Sabes, é que agora, nestes tempos de filmes com prazos de consumo e vocação para produzir mitos rascas, recordo-me com frequência dos teus personagens e dou comigo a pensar se, na realidade, cada um deles não te personificou de algum modo. Se todos eles fragmentados não era tu por inteiro. Ainda que não fizesses grandes esforços para que reparassem na tua presença. Porém, como era possível não reparar em ti? Talvez não te preocupasses muito em domesticar lá por dentro o selvagem intratável em fúria contida. Talvez nem quisesses ser esse ícone vagabundo de pés descalços caminhando sobre um vulcão sem rede. Quem anda à chuva molha-se, e a ti nunca te vi de guarda-chuva aberto. Procuravas, se calhar, mostrar nos filmes como te sentias fora deles e porque razão te saltava cá para fora aquela essência de duro nostálgico, a expressão irrequieta e o os olhos em agressão sem tréguas ao azul, tentando perceber se, afinal de contas, representar é coisa para um homem crescido fazer.

Disseram-me que em certas alturas tinhas de forrar com algodão o assento de uma Harley para poder continuar em cima, correndo 24 horas off-screen, ainda que não houvessem mais homens-estrelas à tua volta, para além da tua sombra empoeirada determinada a prosseguir. Sei pouco de carisma se queres saber, mas naquele tempo tinha poucas alternativas a deixar-me ir atrás, tentar cobrir-te pela costas e ver-te arrasá-los a todos sem pestanejar, ver-te chegar ao fim em primeiro, ou sentir-te as dores nas costelas ao ergueres-te outra vez depois da centésima queda. «I live for myself and I answer to nobody», resumiste um dia. Contigo, aconteceu-me muitas vezes perceber que estavas lá, mas na realidade não estavas. Quer dizer, os teus aviadores, os teus detectives ou prisioneiros, os teus personagens condenados, emergiam de um natural sentido de ausência e indiferença ao banal quotidiano que passava para o lado de cá. Para mim, simbolizavam em privado a tua liberdade incorruptível e a ânsia indomável de contrariar a inércia da resignação. Tu eras o Papillon de todos nós. O outsider que fabricava as fugas, fazia as despesas da liderança e aceitava sem hesitar as emoções incondicionais da aventura. Todos nós, de uma geração, éramos apenas figurantes em papéis secundários, destinados a cumprir e minimizar os percalços da sobrevivência e a sentir o incómodo de um nariz amassado nos coices da vida real. Como tal, não te surpreendas se alguma vez desejei que fosses o tal irmão mais velho que nunca chegou a descer da tela para me vir buscar numa qualquer Grande Evasão. Em sentido contrário ao destino. Recusando duplos nas cenas mais perigosas, como tu sempre fizeste. Desafiando o perigo em alta cilindrada. Arriscando, arriscando como loucos, sem pit-stops nem seguro de vida. Ir até ao fim do mundo à procura sei lá de quê autêntico por descobrir. Fazendo de qualquer causa perdida um ideal para defender de peito aberto.

No dia 7 de Novembro de 1980, entre os corredores esventrados pelo branco asséptico da quimioterapia, em Juarez, México, eras ainda o último dos puros. Dizem que te agarraste até ao fim àquele sorriso de ferro em brasa que se recusa a ser temperado. O anjo órfão que te possuiu a alma em vida, cumpriu o seu destino e entregou-te a um lugar no qual só entram os homens que sobrevivem à morte e o fazem à sua maneira. Tanga! Reconheçamos: sempre foste um mestre em fugas. Desconfio bem que nos enganaste a todos, tiraste o teu quinhão de açúcar e fugiste de vez para longe, para não acabares a morrer sentado com um copo de martini na mão.

03/11/04

Escrutínio Universal, Já !, por Mies Van Der Rohe

Falando em votos e em liberdade e em suínos, a mais que certa vitória do Bush é sem dúvida um dia negro para a paz e para o equilíbrio mundial. Como ouvi dizer a um amigo cibernauta o George W teve o grande mérito de convencer os eleitores de que havia razões para ter medo sem que estes se apercebessem que ele próprio constituía a maior das ameaças.
Como pode todo um povo inteiro, ser tão burro? Nem era preciso ver o demolidor Fahrenheit 9/11 do Michael Moore - que sem dúvida, entre muitas verdades indesmentíveis e não desmentidas tem algo de panfletário - para perceber que o Bush é um perigoso troglodita cuja única estratégia visível é a do "keep it simple and stupid". Pelas repercussões que tem nas nossas vidas ( ele é a guerra no Iraque, o recrudescer do conflito do médio Oriente, o incremento do terrorismo internacional, a escalada do preço do crude, a secundarização dos programas para combater a desigualdade Norte-Sul, a perpetuação da intolerância religiosa e sexual) julgo que é tremendamente injusto que não tenhamos direito a eleger alguns lugares no tal colégio eleitoral. Mas porque raio é que a minha vida (como a de tantos outros que gostariam de ter visto Kerry ser eleito) há de ser definida por uns labregos que vivem no interior da Florida, no Wyoming e no resto da América profunda, sem que me seja dada uma palavra a dizer? Se estão a eleger o líder do planeta porque todos os habitantes não têm direito a serem auscultados? Esta nova ordem mundial justifica ou não ser legitimada por um escrutínio universal e directo?
Grão, aquilo no Ohio tá como o FQP na Champions: matematicamente perdido. De que estás à espera para decretar luto oficial na confraria?

02/11/04

Pedro Páramo de Juan Rulfo, por AlquimistaDaDor

Vi agora nos escaparates mais um livro da Isabel Allende, autora de que nunca li nada. Talvez um dia, quiçá. Mas sempre fui desconfiado em relação a escritores que escrevem um livro de cada vez que vão à casa de banho. Autores como a Isabel Allende, Nicholas Sparks, Anne Rice, Paulo Coelho, John Grisham e quejandos, que inundam constantemente de capas diferentes os Continentes e quitandas similares, fazem-me torcer o nariz e fugir deles como o diabo da cruz.
É quase impossível que quem tenha tanta coisa a dizer, diga alguma coisa de jeito.
E vem isto a propósito de Juan Rulfo, um fotógrafo e escritor mexicano, que só há pouco descobri nos cafundós dos armários imensos. Ao invés dos industriais da escrita e da novela deste mundo, Juan Rulfo, discreto funcionário público do estado mexicano, com uma vida fantástica e atribulada como poucos, tinha uma única história a contar. Uma só coisa a dizer. Escreveu um livro em 1955, publicou-o e nunca mais escreveu romance nenhum, até falecer em 1986. O que tinha a dizer, disse-o ali e nunca mais abriu a boca. O seu único livro, “Pedro Páramo” é um livro fabuloso. Uma obra prima do Realismo Mágico, mas anterior a qualquer das obras do Gabriel Garcia Marquez ou do Miguel Angel Astúrias. De Pedro Páramo, uma obra pequena com pouco mais de 100 páginas, disse Borges: "Pedro Páramo es una de las mejores novelas de las literaturas de lengua hispánica, y aun de toda la literatura"
Uma vez perguntaram a Juan Rulfo porque não escreveu mais nenhum romance, porquê o filho único. Respondeu, que o que tinha a dizer, disse-o ali. Ainda escreveu alguns pequenos contos, mas romance e livro propriamente dito, foi só aquele.
Há obras grandes, muito superiores ao tamanho e por vezes, por detrás delas, Homens ainda Maiores.

01/11/04

As moscas são umas inúteis..., por Pilas

O texto que se segue é da lavra do Pilas – velho cognome de liceu – e foi enviado por mail a 9 de Dezembro de 2003 na era Pré Tapor. Ainda hoje há discussões entre nós para saber o que é que o Pilas queria dizer. Ninguém sabe. Mas seja o que for, o que ele escreveu é tão inteligente que se adapta a quase todas as situações. E a malta gosta. E o Pilas ainda não escreveu nada pró Tapor e tá na hora. Com a devida vénia, aí vai:

Não se lhes conhece razão de existência, gostam de merda e nem por isso têm problemas de auto-estima. Além de inúteis, as moscas são chatas e convencidas. Pavoneiam-se no ar num bailado zunido, quando não teimam em nos chagar o juízo com sucessivas e teimosas poisadelas, cocegando-nos com as patas imundas, indiferentes, as putas, às desesperadas tentativas para as esborrachar.
Mas, já que foram colocadas no mundo, bem podiam fazer um favor à humanidade se objectivamente se limitassem a cumprir a inutilidade do seu papel - saciar-se do desperdício fumegante e depois descansar nas paredes, quietas, sem molestar ninguém...

Os "complexificadores" do real são, como as moscas, inúteis e chatos como o caralho. Cumprem a inutilidade de tornar difícil o simples e indecifrável o difícil. Disfarçam muitas vezes a sua insegurança e até ignorância com a obscuridade de sofismas e artifícios de linguagem, colhendo no floreado e exuberância do discurso a gratificação do seu ego, pouco acrescentando de consistente ao conhecimento.