07/01/05

Alamut e a Seita dos Assassinos, por DervixeRodopiante

No Séc. XI da era cristã, na longínqua Samarkanda muçulmana Nizam-El-Molk, Grão-Vizir e Cão dos Turcos Seljúcidas, cujo Império se estendia do Afeganistão ao Mediterrâneo; influenciado pelos apelos do poeta e sábio persa Omar Khayyam, poupou a vida ao traidor Hassan Sabbah, comutando-lhe a pena de morte por decapitação, na pena de banimento do Império. Erro. Asneira crassa. O Cão Nizam-El-Molk acabava de assinar a sua sentença de morte, bem como do próprio Império Seljúcida.

Humilhado, Hassan Sabbah não agradeceu a clemência e jurou vingança. Banido, errou pelo Império cavalgando o descontentamento e arrebanhando para as suas hostes um exército disseminado, discreto e clandestino. Nasciam os “Batinis, a gente do segredo”. Escolhendo os mais fanáticos de entre eles, Hassan Sabbah fundou então a “Seita dos Assassinos” e refugiou-se com um núcleo duro na fortaleza de Alamut, que tomou com astúcia no ano de 1090. Nesse reduto montanhoso, quase inacessível e inatacável, da região de Teerão, hoje capital do Irão, Hassan Sabbah fez espalhar pelos seus e pelos outros, a sua mensagem de morte:

“ - Não basta matar os nossos inimigos, não somos homicidas mas executores, devemos agir em público, para servir de exemplo. Matamos um homem, aterrorizamos outros cem mil. Todavia não basta executar e aterrorizar, é igualmente indispensável saber morrer, pois se ao matar desencorajamos os nossos inimigos de empreender o que quer que seja contra nós, ao morrer do modo mais corajoso ganhamos a admiração da turba. E desta turba sairão homens para se juntarem a nós. Morrer é mais importante que matar.”

Pugnando pela pureza da Fé muçulmana e pregando a Guerra Santa contra o Inimigo, Hassan Sabbah enviou mensageiros de morte, fanáticos e suicidas, para os quatro cantos do Império. Chamou-lhes “Fedai”, ou seja: “Comando Suicida”. A partir de Alamut e em estreita obediência a Hassan, os Assassinos enviados, matavam sempre em praça pública e sempre em acto público. Quanto maior a multidão a assistir melhor. Uma vez morto o Dignitário ou o Governante em questão, sempre à punhalada, o Assassino nem sequer tentava fugir. Mais do que matar, as suas ordens e o seu destino era morrer. Obviamente morria logo a seguir, mas morria com um sorriso nos lábios e a certeza de se ir deleitar com as 72 virgens que lhe estavam prometidas. “Hassan Sabbah tinha construído a mais temível máquina de matar da História.”

A própria palavra “Assassino” deriva desta gente. Embora pelo paleio do Marco Pólo se tenha vulgarizado a ideia de que a palavra derivava do árabe “Haschichiyun”, que designa os “fumadores de haxixe”, e isto, porque nas palavras do veneziano, tais Assassinos quando matavam, estavam drogados com Haxixe. Hoje é tido como certo que o Marco Pólo andava era com uma ganda moca quando passou por ali, sendo mais ou menos consensual, que Hassan Sabbah terá designado os seus acólitos por Assassinos a partir da palavra árabe com que os apelidava, e que era “Assassiyun”, ou seja “os que são fiéis ao Assas”, isto é, “ao fundamento da fé”.

Em 1092, Nizam-El-Molk é assassinado por um Fedai. A partir da morte do Cão, Hassan Sabbah foi minando todo o Império Seljúcida, assistindo e contribuindo para o seu desmembramento. A Seita dos Assassinos, sempre bem organizada, e quando necessário clandestina, espalhou-se então pela Síria, Egipto e Babilónia. Com os seus assassínios cirúrgicos conseguiram criar um clima geral de terror, que impedia qualquer critica ou afrontamento.

Durante o Séc. XII, sob a chefia de Rachideddin Sinan, “O Velho da Montanha”, a Seita chega a deter 10 fortalezas na Síria Central, promovendo assassínios, conforme as suas conveniências e alianças, quer de poderosos árabes, quer de poderosos ocidentais dentro dos reinos dos Cruzados. A morte para eles sempre foi democrática.

Alamut e a Seita dos Assassinos, sobreviveram aos Seljúcidas, aos Fatimidas, aos Cruzados e ao próprio Saladino. Saladino aliás, moveu-lhes certa vez uma sanha sem quartel, determinado a exterminá-los. Contudo desistiu da coisa após ter sido alvo da segunda tentativa de assassinato por Fedai, que por pouco não lhe limpavam o sebo. A partir daí deixou os batinis em paz. Só com as invasões mongóis do final do Séc. XIII é que Alamut finalmente cai e com ela as restantes fortalezas da Seita. A Seita ainda tem descendência actual, uma vez que o Aga Khan, líder espiritual dos Ismaelianos, “é o descendente em linha direita de Hassan Sabbah.”

Mas se as fortalezas se perderam, as palavras de Hassan Sabbah, não. Perduraram na memória dos muçulmanos e muitos deles seguem-nas hoje como há 10 séculos, sem qualquer depuração do pensamento e sem qualquer envernizamento civilizacional.

Hoje como há 10 séculos, a Al-Qaeda e o seu líder Osama-Bin-Laden proclamam alto e bom som: “Nós gostamos da Morte como Eles gostam da Vida e por isso vamos Vencê-los!”. Não são os únicos. Os suicidas palestinos, sejam do Hamas ou da Fatah seguem religiosamente a mesma cartilha.

E como Sabbah bem sabia, as suas palavras - porque portadoras de uma doutrina eficaz – jamais morreriam como não morreram. Entram hoje como nunca no coração do muçulmano médio e são para ele a expressão da única solução que vê para o confronto com o Ocidente, colonizador, dominador e maléfico. Mais do que uma Seita perseguida e repudiada, os novos Assassinos merecem o apoio explicito ou implícito de legiões incontáveis de Muçulmanos. Uns que acham bem e muito bem. E pior ainda de milhões de outros que não achando bem, acham que estávamos mesmo a pedi-las…

Hoje, 10 séculos depois de fundada e supostamente extinta, a Seita dos Assassinos está mais viva e actuante do que nunca. E porque gostam da morte, nunca morrem.

Fontes e citações: “Baudolino” de Umberto Eco, “Samarkanda” e “As Cruzadas Vistas Pelos Árabes” de Amin Maalouf, “Alamut” de Vladimir Bartol e “O Médio Oriente e o Ocidente, O que Correu mal?” de Bernard Lewis.

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