17/01/05

HISTÓRIAS EXTRAORDINÁRIAS (III ou IV?): MANIPULAÇÃO, por Manolete Janamelembra

No dia 14 de Agosto de 1936, o general Juan Yague, o Carniceiro de Badajoz, lançou o ataque final à cidade onde conquistará o cognome. No dia seguinte, o foragido Luciano Ordoñez Reyes, exilado republicano escapado da morte certa, morria colhido por um touro no tentadero da herdade das Garças, escassas léguas para cá da fronteira. Era dia de festa. O proprietário, D. Jerónimo de Sousa Garcia, agradecia a intercessão da Virgem que fertilizara o ventre da esposa, a frágil Jenny. Quando Ordoñez foi atravessado pela cornada fatal, Jerónimo Garcia sorriu felinamente. Jenny, filha de um armazenista irlandês, tinha vinte anos e um ar inocente, sentiu um ligeiro rubor e uma dor profunda. Conteve-se, porém, e não chorou. Logo que o corpo do refugiado foi retirado da arena, a chuva começou a cair pondo fim a meses de seca. Por entre a consternação geral, murmuraram-se graças pelo milagre.

A ascendência paterna de Jenny dava-lhe um ar angélico e só aparentemente frágil. O carácter era forte, a fertilidade é que foi alvo da desconfiança da criadagem. Muito tempo correra desde que D. Jerónimo a desposara. Dois secos anos passaram até que a maledicência questionasse a fertilidade da jovem. A seca assolava a planície alentejana, a guerra anunciava-se em Espanha e o ventre irlandês não prometia herdeiro. A seca, a guerra e a esterilidade pareciam assim peças da mesma conjura. Jerónimo Garcia recorreu então, tal como os ancestrais nos momentos delicados, aos favores da Senhora de Guadalupe, prometendo partir em peregrinação ao santuário da Virgem na serra de S. Gens, aprazando a jornada para os primeiros dias do mês de Julho.

O senhor das Garças partiu montado numa égua cinzenta e seguido por dois criados, peregrinos forçados para que o amo lograsse o herdeiro que lhes perpetuaria o jugo. Tão pesada era a prepotência que solidária lhes parecia a Providência ao esterilizar o ventre irlandês. Desnecessária portanto se afigurava aquela promessa, pois que a ser justa a requerida Virgem, jamais corresponderia às súplicas do peregrino.

Antes de prosseguir com o relato, devo avisar que nada, absolutamente nada do que a seguir se contará se deve atribuir ao acaso. Foi com esta advertência, posta como condição, que a história me foi contada. De início estranhei a veemência desta imposição mas, depois de escutada a história, decidi-me por colocar uma advertência suplementar. Como não creio na intervenção do divino nas coisas do mundo, peço que nada do que a seguir se relata seja entendido como resultado de uma intromissão providencial.

D. Jerónimo, antes de partir, ordenou expressamente que, no átrio do palacete, diariamente e enquanto durasse a santa jornada, fossem depositadas flores frescas sob o nicho que albergava a figura da Virgem, bem como junto da cabeça empalhada do Mingão, colocada defronte. Era lendária a devoção que o latifundiário prestava ao troféu. Mingão fora um touro bravo. Conta-se que um dia, o velho patriarca da família chicoteou numa fúria súbita um pobre serviçal que escarnecera da devoção do amo. Daí em diante, todos entenderam que a consideração prestada à Virgem se equiparava, em fervor e alarde, àquela outra devida ao Mingão, como se a bestialidade viril do magnífico animal fosse instrumento da intervenção sobrenatural e se conjugasse com a delicadeza da Senhora de Guadalupe na protecção concedida à linhagem das Garças. Esta estranha aliança nasceu da profunda convicção do patriarca que em tempos de dificuldade adquirira por um preço elevadíssimo a um ganadeiro de Cáceres um magnífico touro de cobrição. Eram as suas últimas poupanças, a herdade estava falida e Frederico gastou todo o dinheiro, segundo afirmava por inspiração e conselho da Virgem, na compra do magnífico animal. Os credores pairavam sobre a propriedade, a ruína era iminente e Frederico teve um sonho. Durante a noite, a Virgem ordenara-lhe que reunisse tudo o que possuía e se dirigisse à feira de Badajoz. Ainda a manhã não despontara e já Frederico seguia pela estrada de Espanha. Chegado ao destino, aguardou serenamente por novas instruções. Depois, uma inspiração súbita percorreu-lhe a consciência. Quando olhou para aquele touro bravo sentiu um impulso e adquiriu-o. Em boa hora o fez. O Mingão revelou-se um animal de semente excepcional, salvando a família da ruína. A fertilidade do bicho tornou-se lendária e os touros do ferro da herdade dos Garcias, em breve se tornaram, por todo o sul de Portugal e por terras de Espanha, de Cáceres a Sevilha, os mais nobres e bravos animais. Assim, sob a inspiração da Virgem e com a semente do Mingão, se refez a grandeza e a abastança da herdade.

No dia 14 de Julho de 1936, D. Jerónimo chegou ao seu destino. No interior da ermida da Senhora de Guadalupe, na serra de S. Gens já próximo das margens do Guadiana, ajoelha-se aos pés da imagem. Cá fora, os criados que o acompanhavam respeitaram a devoção do peregrino e enquanto o amo implorava por herdeiro, os jornaleiros alentejanos pediam chuva. Nesse mesmo dia, sem que nenhum dos peregrinos de S. Gens o soubesse, chegava à herdade, vindo de Lisboa e com destino a Badajoz, Luciano Ordoñez. Em Lisboa, onde desempenhava funções no consulado, soubera dos acontecimentos de Madrid, logo recebendo ordens de regresso, via Badajoz, sua cidade natal. Passando pela herdade e aproveitando a velha amizade que o ligava àquela família, e dado o cansaço e adiantado da hora, decidiu pernoitar aí. Chegou sem aviso, exausto e empoeirado, e logo o avisaram da ausência de Jerónimo. Pediu somente hospedagem por uma noite. Ao agradecer à dona da casa, os que presenciaram a cena contam como Jenny enrubesceu ao cumprimento do forasteiro.

Poucos dias após, o senhor das Garças regressava da sua pia jornada e, pelos primeiros dias de Agosto, Jenny acusou os primeiros sinais de gravidez, confessando à sua camareira o desconforto causado pelos enjoos matinais. O milagre parecia cumprir-se. Inteirado da novidade, Jerónimo logo iniciou os arranjos para a comemoração. Uma grande festa, com missa, arraial e uma corrida de touros. Será lidado o mais nobre o poderoso de todos os seus animais. No fim da lide, o bicho será morto e o povo terá alguns dias de fartura. Enquanto se encontrava nestes preparos, anunciam-lhe a chegada súbita de Luciano Ordoñez. Os exércitos nacionalistas de Yague ocuparam a serra de San Serván e rumavam a Badajoz pelo vale do Guadiana. A queda da cidade extremenha estava iminente e Luciano atravessou clandestino a fronteira, juntamente com alguns companheiros. O senhor das Garças não lhe nega acolhimento. Abraça-o e oferece ao amigo toda a hospitalidade devida.

No dia 15 de Agosto de 1936, Luciano Ordoñez Reyes morria colhido por um touro no tentadero das Garças. Era dia de grande alegria, celebrava-se o anúncio do nascimento do tão desejado herdeiro. Quando Ordoñez foi atravessado pela cornada fatal, Jenny sentiu um ligeiro rubor e uma dor profunda. Conteve-se, porém, e não chorou. Todos os demais lamentaram a tragédia. Jerónimo Garcia sorriu felinamente. Só ele sabia que as tragédias, todas as tragédias, se devem à perfídia dos homens. Regressou a casa e ao passar pelo átrio aconchegou as flores postas sob o nicho da Virgem e benzeu-se sob a cabeça empalhada do Mingão. Ao final da tarde, começou a chover. No dia seguinte, os sublevados nacionalistas entraram em Badajoz. Os defensores da cidade, após árdua luta, foram conduzidos à Praça de Touros onde foram sumariamente fuzilados.

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