28/01/05

Tonight is the night, por Mad D.J.

Hoje dia 28 de Janeiro de 2005, o Porco quase em peso, mais precisamente o seu alter-ego vínico, a Real Seponto do Tinto vai voltar a reunir-se na Catedral do Bolho onde terá lugar a Sexagésima Terceira Prova Cega Oficial de Tintos. A Catedral do Bolho é uma sala deliciosa, com tectos e paredes de madeira, uma mesa enorme daquelas dos banquetes dos reis brutos da idade média, um balcão que faz de mini bar, muitos santos por todo o lado, objectos rústicos, velhas pistolas, bonés e chapéus, cacetes, espadas e navalhas, até cornos e cornetas mudas e uma fantástica lareira que exige frio e exige Janeiro. Vai estar lá toda a fina (?) flor (?) da Seponto, mais dois convidados: o JPC que repete a presença na Catedral, dois ou três anos depois de ter tido o privilégio de ver a Máquina a actuar ao vivo; e o R., ilustre estagiário do nosso departamento jurídico (para quando, meus senhores, uma estagiária?).

O Bolho para quem não sabe fica em pleno coração da Bairrada e na referida Catedral, pertença de um dos nossos, graças a Deus, é servido aos Eleitos, O Melhor Leitão do Mundo. Sim, é mesmo assim, O Melhor Leitão do Mundo, maiúsculas e tudo! Esqueçam os bácoros vendidos a peso de ouro nos restaurantes da Bairrada. Esqueçam tudo o que provaram até hoje e que vos disseram ser leitão! Só no Bolho se prova a excelência do bicho!

Ainda me lembro da delicada operação a que se obriga o nosso anfitrião, o sublime Mister Sábio, para apresentar um manjar de tanta qualidade.


Desde a escolha do bacorinho, ainda vivo e a guinchar, ao seu transporte num saco de batatas, passando pela entrega ao assador oficial que gasta um dia – um santo e inteiro dia, ave César! – a assar lentamente o leitoso, até à escolha minuciosa das laranjinhas que o hão-de acompanhar no repasto, tudo é ciência, sabedoria, savoir-faire… É preciso olho para escolher o bicho certo, com o peso certo, a postura certa a energia devida, o pedigree, que só se avaliam ao vivo … É preciso arte para assar até ao ponto certo, com as doses certas de pimenta, sal e outras coisas mais sofisticadas que me escapam, pobre ignorante… É preciso saber dar-lhe a cor viçosa e estaladiça, a Bairrada devia dar ao Bolho o estatuto de Universidade.

Mas o Bolho não é só o leitão, o que já é muito, muitíssimo. Para acompanhar o melhor leitão do mundo, levamos os melhores vinhos do mundo (às vezes, outras nem por isso) e bebemo-los todos. O ritual do vinho e toda a panóplia de códigos que o regem, fazem jus ao bácoro, tornam-no ainda mais nobre.

Nas Noites do Bolho temos ainda uma relíquia que eleva tudo aos patamares da dignidade estética – o velho gira-discos do Sábio que nos obriga a re-ouvir velhas músicas que já não se ouvem. O nosso Vice faz a recolha, atempadamente, do saudoso vinil que ainda habita os sótãos de alguns de nós, encarrega-se de elaborar uma lista das músicas que poderão passar na vitrola, e pode! equer! e manda! no que se ouvir enquanto durar o vinho e o leitão. A vitrola é tabu – ninguém a não ser o Vice lhe toca, ninguém pode sonhar, sequer, em meter um disco sem permissão. Tudo foi já pensado e decidido de acordo com a consulta astrológica, depois de prevista a lua que fará nessa noite e se Saturno estará no lugar certo. Sabe assim o Vice, de estudo seguro, qual a música que se deverá ouvir e porquê. E eu posso aqui adiantar em primeira mão e em absoluto exclusivo mundial, os primeiros 33 intérpretes vinis que se hão-de ouvir, logo à noite na Catedral do Bolho:

J. S. Bach, Don Byas e Ben Webster, Dexter Gordon, John Coltrane, Miles Davis, Wayne Shorter, Frank Zappa, Leo Kottke, Los Mariachis, Caetano Veloso, Prefab Sprout, Jacques Brel, GNR, Vinicius de Morais, João Gilberto, Chico Buarque, New Adventures, D. Bowie, Vitorino, Fausto, Frank Sinatra, Charlie Haden, Billie Holliday, Prince, Ella Fitzgerald, Tânia Maria e Neils Orsted Pederson, Mozart, Vivaldi, The Clash, The Beatles, e os Rolling Stones.

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