21/02/05

As falsas irmãs gémeas de Theodore Chassériau, George Washington e o seu cozinheiro negro, por J. Cook

Ainda que não tenha na história da pintura o lugar que a sua precocidade prometia quando, ainda não contava uma dúzia de anos, frequentou o estúdio de Ingres, Théodore Chassériau (1819-1856) não pode ser considerado um pintor menor. Chassériau é, quando muito, um grande pintor menor. Se Ingres foi o último dos classicistas, o que sendo defensável não é pacífico, e Eugene Delacroix o maior dos Românticos, a ambiguidade de Chassériau define-se enquanto discípulo do primeiro e admirador do segundo.
A sensibilidade romântica contrapõe ao intelectualismo racionalista o mundo fervilhante do sentimento e da paixão. O Romantismo descobre o sentimento como elemento individualizador, numa época em que triunfam os valores do individualismo burguês e em que o cidadão se torna fonte de soberania e agente da história.
O retrato torna-se um dos géneros predilectos da pintura romântica, na medida em que satisfaz o intuito individualista da burguesia triunfante. O retrato é psicológico e por isso prefere o busto ao corpo inteiro, para que o olhar, esse verdadeiro espelho da alma, revele a personalidade única do retratado. Juntamente com a pintura de grandes paisagens, são os géneros preferidos dos pintores dos Estados Unidos da América. O que se entende sem necessidade de explicações alongadas. Nesta modalidade, merece destaque Gilbert Stuart (1755 - 1828) que teve o merecimento de legar à posteridade o rosto do herói fundador da América: George Washington. Neste retrato, vemos um herói austero e determinado. Dos seus olhos perpassa o puritanismo e a superioridade moral do fundador de uma nova sociedade, um desdém para com o Velho Mundo e os tempos antigos. Os seus olhos fitam os grandes horizontes da paisagem e do futuro americanos. Mas a obra maior de Stuart não é esta. Nem sequer um dos outros retratos que fez de Washington. É o Cozinheiro de George Washington, que pode ser apreciado no Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid. A Liberdade e os direitos individuais de Cidadania, valores fundadores da América, equiparam em estatuto, condição e personalidade, o herói fundador e o seu cozinheiro negro. Os dois retratos bem podem por isso ser considerados como o díptico da América dos fundadores.

Na era contemporânea, a soberania está na multidão, que é um somatório de cidadãos que se descobrem, cada um deles, como portadores de uma personalidade, de uma vontade e de uma capacidade de acção. A grande questão a resolver é como conciliar a necessidade da Ordem Social indispensável ao Progresso com os direitos individuais. A solução está na proclamação de um outro valor revolucionário, também ele retomado da ética cristã: a Fraternidade. A Fraternidade é uma imposição moral que limita o exercício da Liberdade, impedindo que se torne em egocentrismo antissocial.
Ora, quanto mais extremada e arrebatadora for a experiência sentimental, mais se individualiza o sujeito. Este é o princípio burguês e esta é a ameaça social. Este é o paradoxo. A questão fulcral é, e repito, como conciliar o valor fulcral da Liberdade individual sem que se ameace a vida pública? É esta agudíssima questão que se põe na tela de Théodore Chassériau. Este quadro, pintado em 1843, resolve o problema. Leva a Igualdade ao extremo para demonstrar que o princípio não é ameaçador da individualiddae. Para isso, o pintor retrata as irmãs como gémeas, apesar de terem uma diferença de idade de quase uma dúzia de anos. A irmandade que em Chasseriau se coloca ao nível familiar é expansível até ao limite da Humanidade, pois que para o optimismo romântico a utopia não tem limites e o universalismo dos princípios alimenta o mito da Fraternidade Universal. Nos Estados Unidos, a moral puritana e evangélica faz depender a Promissão e a prosperdidade colectiva das virtudes morais privadas, pelo que a salvação se pode comprometer no vício moral, instaurando-se assim o dever da vigilância dos cidadãos sobre os costumes privados dos dirigentes. Estes tendem por isso a propagar publicamente as virtudes domésticas, o que se pode ver neste quadro de Savage que atesta a robustez moral do Presidente, garantindo assim a prosperidade da República.
Voltando a Chassériau, as irmãs do artista, Adele e Aline, diga-se, não são particularmente belas. O que faz com que o artista as represente não é a beleza idealizada nem qualquer espécie de erotismo sublimado ou explícito. Pelo contrário, o pudor afirma-se logo pelo título e pela casta invocação da irmandade, pelas vestes e pela pose. Há também um puritanismo burguês e familiar, tipicamente romântico, mas sem as implicações que vimos no caso americano. Dada a diferença de idades, a semelhança é mais forçada do que real. Diremos mesmo, até pelos vestidos que são exactamente iguais, que Chassériau as quis pintar como gémeas, siamesas mesmo, posto que unidas pelo belíssimo motivo floral que debrua a parte inferior dos mantos, cujos padrões se conjugam perfeitamente. O penteado, as gargantilhas, tudo concorda em explicitar a intenção do artista em geminar as irmãs. Igualizando-as em tudo, podemos dizer que o que as distingue não é a forma nem o traje, isto é, o biológico ou o social, é a alma, é o espírito, é o sentimento. O que as diferencia é o carácter que adivinhamos no olhar mais determinado daquela que agarra o braço esquerdo da irmã, como que querendo conduzi-la. Esta, com o rosto pintado em três quartos, conserva uma rosa na cintura, o que pode indiciar um traço de personalidade mais dócil. Mais suave é também o seu olhar. E assim se distinguem, pela personalidade. Mas complementam-se numa fraternidade simbólica. Quer dizer, mesmo que extremando ao limite o valor da Igualdade, a individualidade não sai ameaçada, pois que o elemento distintivo é sentimental, psicológico, mental. No entanto, o individualismo supera-se na sujeição a esse ideal sintético superior que é a identidade colectiva, a Vontade Geral, o Espírito do Povo, que é mais do que um somatório de vontades, é um corpo místico. Assim como as duas irmãs se fundem num só corpo. A individuação a que a arte romântica procede nas personagens, através da psicologização retratista, é a mesma a que o nacionalismo romântico busca concretizar na organização das nações. O Nacionalismo não se antagoniza com o culto da Humanidade e da Fraternidade Universal. A Nação é a versão maximizada do conceito burguês de família. Tal como os indivíduos, também as nações possuem uma especificidade própria, histórica, mental e psicológica. Deste ponto de vista, as irmãs de Chassériau, que inicialmente nos pareciam tão idênticas, diferenciam-se por traços de personalidade e carácter. São tão diferentes como George Washington e o seu cozinheiro negro! Mas as irmãs, sendo diferentes, complementam-se e fundem-se num abraço sólido e fraterno, tal como o Presidente e o Cozinheiro Negro são gémeos autênticos no plano dos princípios. Pela Fraternidade se solve a aparente impossibilidade teórica de conciliar a Liberdade individual com a vida social. O que é dizer que o colectivo se sobrepõe ao individual sem aniquilá-lo.

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