14/02/05

Casablanca para os Namorados, por Mangas

Casablanca, para além de todas as leituras possíveis é um filme sobre quatro personagens e dois triângulos amorosos. Rick Blaine (Bogart) é o vértice comum de ambos.

Deixemo-nos de histórias: Ilsa (Ingrid Bergman), por detrás daquela fachada de sweet-femme-fatale e nobre sacrifício à causa, comporta-se como uma cabra pérfida. Em Paris, descobriu afinal que o marido estava vivo, assumiu o estatuto das alianças, mas não teve a decência nem a coragem de o revelar a Rick e escolheu deixá-lo à chuva num comboio que não podia esperar. Nem sequer lhe explicou porque o abandonava. Até ao fim, Ilsa é o estilo de mulher que foi de dois homens mas não pertence a nenhum. Um caso perdido, ponto final. Quantos seriam os homens que, muitos anos após semelhante patada, não tendo recebido um telefonema, uma carta ou um pedido de desculpas para amaciar a auto-estima, seriam capazes de lhe dar a mão outra vez?

Mas Ricky não se livrou dela. O demónio serpenteou até aos confins do deserto e fez a sua reaparição pendurada ao outro. Ficamos a saber que o marido Victor Laszlo (Paul Heinreid), a recebeu de braços abertos sem nunca suspeitar que a lânguida e inocente Ingrid passara um tórrido Verão nos braços de Rick. Regressou de um anonimato esquecido, resgatou a esposa e devotou-se à Resistência com a bravura indómita de um herói. Nada mau para um corno manso ressuscitado.

Por seu lado, o homem da gabardina abriu os olhos quando foi deixado à mercê de um bilhete de ida. Não teve outro remédio senão perceber que as mulheres, em geral, são animais transitórios e exilou-se num hemisfério político de criaturas confiáveis - refugiados, assassinos, oficiais corruptos e nazis. A felicidade do flashback a Paris, o riso e o coração acelerado de passarão in love, entre um beberrico de Cordon Rouge e um «kiss me as if it was the last time», duraram pouco e ele teve de cavar dali para fora. Ainda bem. Bogart não foi feito para se apaixonar nem para planos a longo prazo que incluam a constituição de família. E, convenhamos, tudo aquilo soava contra natura, fragilizava-lhe a integridade e, por instantes, fez-lhe desaparecer o cinismo lúcido de duro. Corrompeu-o o amor, mas saltou a tempo. Posteriormente a amargura e a desilusão salvaram-no. O Chefe da Polícia Renault (Claude Rains), devolveu-lhe a confiança na espécie humana.

De facto, o grande romance é entre estes dois. No primeiro encontro com Ilsa, Renault esclarece-a dizendo à rival que se fosse mulher, o americano seria o tipo de homem por quem se apaixonaria. Vai-se percebendo que entre ambos começou por haver uma relação protocolar de contrapartidas, como em todos os casos amorosos - Rick é o macho generoso que deixa Renault ganhar à roleta do seu casino, enquanto este em troca, como fêmea agraciada e também em respeito pela sua incorruptibilidade, não lhe fecha as portas do negócio. A cumplicidade movida por interesses pessoais cresceu e acabou transformada no princípio de uma bela amizade. Afastando-se da plataforma após os definitivos gestos de altruísmo, (Rick despacha Ilsa impedindo assim que ela dê o golpe outra vez e Renault salva-lhe a pele dando ordens claras para reunir os suspeitos do costume), ambos seguem o mesmo caminho, lado a lado, como dois pombinhos enamorados de encontro ao nevoeiro que tudo apagará sem deixar vestígios e que sobre ambos encerra o manto da clandestinidade possível.

Quanto ao filme em si, enfim... é uma obra-prima. Provavelmente o mais inesquecível de todos os tempos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Jim Shires who is a spokesman for the police department said that
the deputy felt that everything had been in order, as stated by The Denver Post.
These silos are being turned into condos for people who can afford them and who
are worried about the world coming to an end as we know it in a
couple of years. Are they kept for surplus supplies for
Apocalypse 2012, or are they really thrown
away as the TSA claims.

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