22/02/05

Moisés e o Sebo, por Mascarilha

O Moisés caminhava ao meu lado, rua adiante a caminho dos Cogumelos Aporcalhados do Zé Manel dos Ossos. Contudo, ao passar rente a uma montra de loja de estilo armada ao pingarelho da snobeira carota, o Moisés estacou e fincou os olhos numas botas catitas. As botas tipo Timberland ao preço de Camport, luziam na retina do profeta.

- Mau, deixa lá essa merda, e vamos adiante que estou com fome, vês essa merda outro dia!
- Péra aí, já vou, carago, deixa-me ir só ali dentro comprar estas botas…
Seca do catano, aturar compras do animal, e pra mais dele, que passa três semanas a namorar a compra e mais três meses para se decidir, fónix…,
- Olha, já ali vem, - Atão, pá, qué da botas?
- Não mas vendeu o ganda cabrão, diz que aquela merda é só para decorar a montra e não é para vender, o ganda cavalo, pera aí que já o fodo…

E encosta-se à montra. Disfarçadamente, como quem revê as botitas, o animal encosta e esfrega a testa no vidro da montra. Para quem passa e para quem está dentro da loja, ninguém estranha nem vê nada. Vê apenas um cliente a ver a montra. Não repara na testa encostada ao vidro. É que esta é a vingança tradicional do meu amigo Moisés, também conhecido pelo cognome de O Seboso. É que o gajo larga sebo! E que sebo! Aquela testa telúrica destila um preparado oleoso e gordurento que esfregado num vidro, cola-se como loctite e não sai. A esfregação e a limpeza só servem para espalhar mais aquilo. Um nojo! Parece uma pessoa normal, mas não é, é um autêntico Quimíco.

- Ó pá, não faças isso, porra, tamém não é caso para tanto, deixa essa merda, esquece!
- Esqueço o caralho, hádem-se foder a limpar isto! Boas e baratas, chulos, e a lata do cabrão a dizer que eram só pra decoração…

Má politica, ofender O Seboso. Três dias depois e certamente depois de três lavagens matinais e do desespero da empregada de limpeza, a mancha de gordura sebosa alastrou e desfeou a montra. A mancha compacta e baça, sobressaía do restante brilho e transparência. A limpeza apenas faz isso à mancha de sebo, alastra-a e não a limpa. Aquilo só sai com o tempo, diluente ou aguarrás. Desgraças do comércio…

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