02/02/05

Mozart e Salieri, ou a Mentira de Pushkin, por Mangas

Antonio Salieri (1750-1825), professor de Beethoven, Schubert, Weigl e do jovem Franz Liszt, foi brilhantemente massacrado há alguns anos atrás com o filme Amadeus (1984), de Milos Forman, cuja primeira montagem data do séc. XIX. Na realidade, o poeta russo Alekxander Pushkin mergulhado no romantismo descarado da sua época, escreveu em 1830 a peça Mozart e Salieri, cujo grande mérito é o de expor a dolorosa e infinita distância entre o vulgar talento e a genialidade absoluta, encenando a inveja como a razão motivadora de um crime – o assassínio do génio de Salzburgo. Nikolai Rimsky-Korsakov, compositor russo, transformou a peça de Pushkin num ópera estreada em 1898. Porque a ideia era original, manipuladora e polémica, o dramaturgo inglês Peter Shaffer foi atrás e escreveu a peça Amadeus, base do filme homónimo de Forman. A distorção dos factos reais resulta numa história fantasiosa do relacionamento entre os dois grandes músicos e num filme notável do princípio ao fim, pretexto cruel para tornar evidente que o sacrifício, a dedicação e o esforço árduo pela arte podem ser completamente esmagados pelo sublime pensamento criador de um talento nato. Amadeus vem de "Amado de Deus”. Génio (ingl. Genius; franc. Génie; al. Genie): «a divindade que é proposta a cada uma das coisas geradas e que tem a capacidade de gerá-las, S. Agostinho, De Civ. Dei, VII, 13»; «o talento criativo ou inventivo, nas suas manifestações mais altas».

A mestria de Salieri permitiu-lhe compor cerca de 46 obras de palco como, Falstaff, A Europa Desconhecida, A Escola de Ciumentos e Les Danaides, com a qual teve a honra de inaugurar o famoso Scala de Milão atestando a importância de seu nome na época. De acordo com alguns biógrafos, também cuidou generosamente dos seus alunos, vários deles destinados a ocupar um papel destacado na história da música clássica perpetuando dessa forma a memória do grande mestre de Legano. Porém, Mozart não se ficou por ninharias e desde muito cedo mostrou ser o eleito dos Deuses: compunha e executava com extrema facilidade e com uma complexidade impossível de acompanhar por quaisquer outras formas de pensamento musical. É que Mozart, para além de uma intuição musical muito acima do normal, foi também, e graças à disciplina férrea exercida pela figura paterna de Leopold Mozart, um talento trabalhado e espremido até à exaustão. O compromisso inteiramente devoto à música, aliado a um dom prodigioso que muito cedo imergiu em si, resultou em obras originais e reconhecidamente de alto valor, verdadeiros milagres de ritmo e emoções, encantamento e inovação.

1764. Wolfgang tinha 9 anos e os Mozart não sendo aristocratas viviam no meio deles em trajes de gala oferecidos, trabalhando arduamente num calendário de recitais para reis e imperadores. A lei do chicote não precisava de ser imposta porque a obrigação dos longos e exaustivos estudos de piano e composição era facilmente aceite por Wolfgang e sua irmã Nannerl. Foi nessa época que o miúdo conheceu Johann Christian Bach, filho de Johann Sebastian Bach. Bach e Haendel passariam a influenciar de forma determinante a sua obra. Entretanto o jovem Wolfgang foi eleito Mestre de Capela Honorário da Academia Musical de Verona e aos 12 anos escreveu a sua primeira ópera, La finta semplice. Em 1770, em Bolonha, aprendeu o contraponto com o Padre Martini e entrou para a Academia Filarmónica Bolonhesa aos 14. Regressou a Viena contrariando a vontade do pai e aí viveu os melhores anos da sua vida. A boémia, as gajas e as festas arruinaram-lhe as finanças e regressou a Salzburgo em 1979 onde tocou nos dois anos seguintes, com um profundo sentido de humilhação, para uma corte surda e distante da sua música. Mas ela, a divina e abstracta organização de sons e silêncios a que tinha acesso privilegiado, exultava! Compôs nesses anos a Missa da Coroação, a Sinfonia Concertante e a ópera Idomeneu. Foi recebido com honrarias em 1781, por José II Imperador da Áustria e Viena rendeu-se ao seu talento. Despedido literalmente aos pontapés pelo Arcebispo Colloredo, Mozart regressa a Viena e, enfrentando a oposição do velho Leopold, casou-se com Constanze Weber, irmã de Aloysia, o grande amor da sua vida que o havia rejeitado. Importa referir que à época, Salieri era agraciado pelos favores do Imperador José II, não só porque era um dos convidados habituais para o círculo de amigos e artistas de que se cercava, mas também porque participou activamente e durante largos anos nos esforços do Imperador em prole da música de câmara. Mozart era apenas um compositor entre muitos outros. O mais absolutamente prodigioso, é certo, mas custa a crer que a reputação de Salieri em Viena e na Europa, tivesse sido alguma vez ameaçada pelo génio de Mozart.

Aulas para sobreviver. Composições sob encomenda. Entrada para a Maçonaria em 1784. Perda do primeiro filho. Desgostos vários. Dificuldades financeiras. Mestre.

Escreve em 1786, As Bodas de Fígaro, cujo sucesso se estendeu a Praga, Dresden, Leipzig e Berlim. É interessante constatar que após a sua estreia em Maio de 1786, As Bodas de Figaro foi repetida seis vezes durante os quatro meses seguintes, e três vezes entre Setembro e Novembro do mesmo ano, tendo saído de cena para apenas voltar a ser apresentada em Viena, no ano de 1789, sob a batuta de... Antonio Salieri. O libretto foi escrito por Lorenzo Da Ponte, o libretista oficial de... Antonio Salieri (que após o ter apresentado a José II, lhe assegurou o cargo oficial de libretista da Ópera de Viena). Nunca Salieri se opôs ou manifestou desagrado pela colaboração entre ambos, ainda que estivesse dentro do seu poder fazê-lo. Numa pareceria perfeita, Lorenzo escreveu ainda o libreto para Don Giovanni, e Cosi Fan Tutte. Na sua autobiografia, Lorenzo Da Ponte, um libertino de reputação e putanheiro refinado, recorda todas as cabalas e intrigas da sociedade musical de Viena, mas nem uma só vez faz menção a algum comentário depreciativo ou rancoroso de Salieri para com Mozart. Para completar a eventual animosidade que pudesse existir entre ambos, acrescente-se que a soprano de D. Gionanni e de outras óperas de Mozart foi Catarina Cavalieri, amante oficial de... Salieri.

Fruto de uma criatividade febril, Mozart compõe de seguida Pequena Serenata Musical - Eine kleine Nachtmusik. Problemas económicos agravados; afunda-se em dívidas. Em 1791, começa a trabalhar numa nova ópera A Flauta Mágica, baseada nos esboços de Emmanuel Schikaneder, um conto de fadas contemplando os valores maçónicos, uma obra-prima de sensibilidade e encantamento. Sucesso retumbante. Assegura quem lá esteve que Salieri, comovido após a estreia, lhe teria dito embargado de emoção: “É a música mais bonita que já foi escrita”. Ainda em Julho desse ano, Salieri chegou a Praga para a coração de Leopold II com nada menos do que três Missas de Mozart na algibeira: A Missa Piccolomini, a Missa da Coroação, e K.337. De facto, Salieri himself, conduziu estes três trabalhos em outras tantas diferentes coroações: duas vezes para Leopold II em Praga e Viena e uma vez para Francisco II em 1792. Posteriormente, Salieri também dirigiu o coro da peça Thamos Rei do Egipto, bem como o Offertorium Misericordias Domini, em Dó Menor, ambas da autoria de Mozart.

1791. Mozart recebe a encomenda do Réquiem. Um personagem envolto em mistério pagou adiantado. Um Mozart profundamente abalado retardou a concluir a encomenda obcecado pela ideia de que a missa se destinava ao seu próprio funeral. Na realidade o mensageiro encapuçado era o mordomo do conde Franz von Valsegg, um senhor abastado que costumava comprar composições e apresentá-las como sendo da sua autoria. Pretendia o plagiador homenagear a sua mulher falecida recentemente. Mozart morreu à 1.00h do dia 5 de Dezembro de 1791. Nos óbitos consta “grave febre biliar aguda” mas não é de excluir intoxicação provocada por mercúrio, disponível naquela época através de um sublimado oral para tratar doenças venéreas. Actualmente, a hipótese mais aceite aponta para coma urémico provocado por uma esclerose renal. Facto: as centenas de pesquisas levadas a cabo nos últimos dois séculos, excluíram sempre a sustentação de morte por envenenamento. O que não sofre contestação é que Antonio Salieri não foi tido nem achado no assunto, que Constanze o encarregou de ser tutor do filho mais novo e que o Réquiem foi concluído por Süssmayer, discípulo de Mozart.

A verdade dos factos diz-nos que Salieri teria sido um protector de Mozart nos seus primeiros passos na corte de Viena; mas também que entre ambos sempre existiu uma rivalidade civilizada decorrente do facto de Salieri defender a ópera italiana vigente no seu tempo, enquanto Mozart lançava as bases para uma genuína ópera alemã.

A imagem do mito mostra-nos um homem encarcerado na infância espiritual, de gostos bizarros e práticas mundanas, apreciador de um bom peido, gozão, intuitivo, brilhante com os números e capaz dos assomos de paixão mais desenfreados. Para perceber as circunstâncias da morte de Mozart, é fundamental não esquecer o quanto o estigma da genialidade marcou a sua trajectória e fez dele um estrangeiro aos homens da sua época, um estranho às normas sociais do seu tempo. O superlativo não se adapta; eleva-se antes de tombar à vala comum, sufocado pela mediocridade. Mozart transcendeu-se anulando-se, sacudiu o Universo, e pelo meio dedicou-se a anunciar o divino a todos os mortais, incluindo Salieri. Este, para além de todos os raciocínios e inferências musicais que não pôde ou soube fazer, talvez também se devesse queixar do pai. Ou de Pushkin.

No final de Amadeus, a descida de Salieri ao inferno dos loucos é redentora:
“- Medíocres de todo o mundo, eu, príncipe dos medíocres, vos absolvo!”
Também nós te absolvemos, Mestre.


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