28/02/05

A Tendência Mini, por M. Quant

Finalmente o Nico trouxe-me os Cds que eu lhe tinha pedido para gravar, vai fazer agora um mês. Uma saca do Continente cheínha de Cds, que eu não tinha e que estava curioso para ouvir com mais atenção, como Dandy Wharolls, Chemical Brothers, Groove Armada, Da Weasel, Sisters of Mercy e mais umas dezenas de músicos velhinhos como o Elvis, os Beatles ou os semi velhotes AC/DC. Entre muitos outros. Agora, o leitor de Cds do meu carro, está renovado para os próximos meses.

Esta experiência da abundância levou-me a observar uma coisa curiosa. Se eu tivesse que pagar os respectivos 20 euros por cada um destes cds, compraria, possivelmente apenas um por mês e era esse que me ocuparia a ouvir durante uma ou duas semanas. Mas agora, tanta é a abundância, reparo que me concentro nas músicas mais apelativas, naquelas que marcam logo à primeira audição. De cada disco, eu ouço, duas três músicas – às vezes uma – e passo ao seguinte. Verifico, pois, que a massificação do CD, altera os hábitos de «leitura» do mesmo. Quando tínhamos que pagar balúrdios por um CD, ouvíamos menos música mas ouvíamos mais em pormenor. Havia o sentimento da escassez do bem. Mas agora, com a possibilidade da massificação dos CDs temos, de repente, 50 CDs novos por mês ao preço da Maria Cachucha. Ouvimos mais Cds, é verdade, mas não ouvmos apenas mais: ouvimo-los de um modo diferente, sem paciência para ouvir todo o CD, cedendo ao gosto imediato das músicas mais apelativas à primeira audição. Quantas preciosidades estão por ouvir ainda, de entre os 50 CDs que o Nico me entregou numa saca do Continente? Muitas certamente.

Relembro Walter Benjamin e o que ele escreveu sobre a morte da «aura». Antes da fotografia só podíamos ver as grandes obras primas da pintura ao vivo ou em raras reproduções. Benjamin imagina que para o apreciador de pintura devia ser emocionante contemplar ao vivo uma pintura de Da Vinci. Uma duas vezes na vida senão fôssemos felizardos e não morássemos em Itália ou noutro local de exposição das suas obras. Mas com a invenção da foto a reprodução passou a estar facilmente disponível e a aquela «aura» que advinha da raridade foi-se perdendo. Pior que isso, tal como acontece com as minhas músicas, de da Vinci passámos a reter, apenas, a Mona Lisa estampada em T- Shirt e pouco mais.

Com os CDs é a mesma coisa: a digitalização veio facilitar-nos o acesso à obra e matar-lhe a «aura». E também aqui, retemos as Mona Lisas dos discos e deixamos na sombra, possivelmente, obscuras Madonnas dos Rochedos menos acessíveis. Ainda fará sentido, nos dias de hoje, que os músicos continuem a gravar em formato de 50, 60, 80 minutos? E os álbuns conceptuais, que nos habituámos a considerar como uma unidade estética, ainda têm lugar? Pense-se em Animals ou em Dark Side of the Moon dos Pink Floyd e na sua unidade de conjunto… Ou em The Lamb lies down on Brodway dos Genesis ou em Sgt Peppers dos Beatles. É certo que podíamos ouvir cada faixa destes discos por si, mas havia uma outra «leitura» que era a do conjunto e da sua espantosa unidade. Os Concept-Albums já parecem de outro tempo (apesar de brilhantes excepções como a dos Sigur Rosz)….

Mas hoje, pelo contrário, os putos de 14 anos não fazem a mínima ideia donde provêm as músicas que coleccionam num único mini-CD em MP3. Os álbuns caminham para os seu fim e, agora, os putos comentam entre si que «A Mafalda tem um MP3 porreiro» ou que «O do Miguel é mais baril». Quer dizer, o mini-CD é do it yourself, com uma música sacada daqui e outra dali. O resultado é uma compilação híbrida de várias proveniências e o que interesa é cada faixa por si, reirada de um conjunto que, muitas vezes, lhe dava o seu sentido pleno.

Talvez estejamos a caminhar a passos largos para um regresso ao formato do velho single, destronado nos anos 60 pela lógica do LP. As pessoas querem esta e aquela música e não a «tralha» que têm de gramar com a compra do álbum tradicional. Talvez eu esteja muito enganado, mas parece.me que isto é apenas mais um sintoma de uma característica mais geral da sociedade mediática: a tendência para a redução, para o denominador mínimo. O caminho para a sociedade mini. Do álbum estamos a voltar ao single (e já não falo do esquecimento dessa suprema arte que nasceu com o álbum, que é o cover, que também se perde inexoravelmente), do conjunto da obra à tela pop, do filme à soap, das licenciaturas de 5 para 3 anos, das teses de mestrado que levavam anos para os mestrados feitos à pressão e, finalmente, no que me parece um sintoma do mesmo tipo, da tese, do ensaio ou do romance, passamos gradualmente para o comentário jornalístico e agora, com a blogosfera para o post. Curto, directo e de não mais que duas frases! É por isso que eu tenho alguma esperança que não me massacrem nos comments a este post: como ele ultrapassa largamente o formato três parágrafos, acredito que poucos me vão aturar até aqui.

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