23/02/05

This Weekend They Didn`t Play Golf, por DervixeRodopiante

O título deste post era a Tagline do filme Deliverance (Fim de Semana Alucinante), realizado por John Boorman, em 1972.

O filme até começa bem. Uma aventura de quatro amigos a descerem em canoa um rio da América profunda. São todos urbanos, sedentários, aquietados e pais de família. Todos, todos, não, há por ali um Burt Reynolds que foge ao um bocado ao estilo do grupo, numa de encorpado, sobrevivente, desenrascado, bruto e sargento de ferro.

Pelo meio a coisa descamba. Há uns Rednecks, rústicos, facínoras e tarados, que se envolvem com os canoeiros urbanos, e a coisa passa a arrepiar um bocado a partir dali. Julgo que toda a gente já viu o filme, uma vez que isto já passou dezenas de vezes na tv, embora a altas horas. Internacionalmente a coisa transformou-se em filme de culto. O melhor do Boorman e sobretudo a melhor actuação do canastrão do Burt Reynolds que a partir dali nunca fez mais nada de jeito.

Para lá das paisagens magníficas, do ambiente tenso e denso de um terror e horror crescente (um pouco à imagem do Conrad e do Appocalipse Now), e independentemente da magnífica fotografia e das excelentes actuações, há uma cena que perdura na memória e que marca o filme, assim como marcou o actor respectivo.

A cena é cruel e dilacerante. Nela o actor e vendedor de seguros no filme - Ned Beatty - é capturado por um Redneck desdentado e sob ameaça de morte, é violado no meio do mato ao mesmo tempo que é obrigado a guinchar como um porco. Mesmo sem imagens explícitas, a cena custa a ver e marca o filme. A partir daí o grupo excursionista transfigura-se por completo numa demonstração clara de que o homem é sempre o produto das suas circunstâncias.

O actor Ned Beatty face à crueza e intensidade dessa cena recusou-se inicialmente a fazê-la com o argumento de que a sua imagem ficaria para sempre ligada à mesma e que isso poderia limitar a sua carreira. Boorman e Reynolds deram a volta ao gajo e ele alinhou. Galo do catano. Deveria ter ficado quietinho porque estava cheio de razão. A partir dali nunca mais fez nada de jeito, nem foi convidado para nada de relevante. Ficou-lhe colada à pele para sempre a imagem do violado guinchador, o que o remeteu sempre para uma carreira de filmes série B.

Há tempos no programa da CNN do Jon Stewart, Burt Reynolds abordou isto e a argumentação que usaram para convencerem o Ned Beatty a fazer aquilo. Terminou a argumentação, dizendo que de facto nunca mais conseguiu pensar no amigo Ned sem que lhe viesse de imediato à cabeça o eterno guincho de porco e de dor. Ned Beatty é o guincho! Diz que o problema foi que o Ned representou a cena tão bem, que ela se tornou lendária por si própria. E riu-se. Riu-se muito. Uma vez canastrão, sempre canastrão. Com amigos assim, há de facto que guinchar!

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