15/03/05

Guy de Maupassant, O Brutal, por AlquimistaDaDor

Cheguei ao Guy de Maupassant por um referência simples num ensaio do Harold Bloom. Dizia ele que se tratava simplesmente de um dos melhores contistas de sempre. Como jamais tinha visto livros da criatura editados em Portugal e conservava uma imagem remota de um francês formal e de formol, na altura nem liguei à coisa. Logo em seguida, na Feira da Ladra cá do burgo, tropecei num calhamaço de 1963, que reunia os melhores contos de Maupassant. E foi fascinação pura. Maupassant é de facto um dos melhores contistas em que já meti as olheiras.

Guy, é magnífico e terrível. Assustador mesmo. Os seus contos são do mais variado que se possa imaginar. Vão do absolutamente imoral, ao mais fanático moralismo com passagens frequentes pela mais abjecta amoralidade. Cada conto é uma surpresa e tanto se pode tropeçar na mais admirável das descrições da Córsega – física e humana – como na dentadura de Schopenhaur, numa cabeleira fetish, sanhas assassinas, incríveis love storys, com passagens por bordeis, casernas, cemitérios, conventos, palácios e tascas mal afamadas. Maupassant tanto fez contos de gente má, como só nos contos pode haver, como fez contos de gente boa como só na vida acontece, que contado ninguém acredita.

Percebe-se na escrita de Maupassant uma raiva surda ao clero, um desprezo profundo pela burguesia e um asco visceral aos militares. Pelo meio transparece a visão romântica de putas e bordeis, campo, camponeses, animais e bestas, o que não impede que, meia volta uns e outros, sejam sujeitos às piores desgraças e tragédias de faca e alguidar. Há sempre um realismo cruel, uma obscenidade latente, e sobretudo um suspense terrível. Quando se entra num conto é impossível parar de ler.

Maupassant viveu de 1850 a 1893, e a sua vida reflecte-se por inteiro na força dos seus contos: herdou da mãe a sífilis hereditária, começa por ser educado por um padre entrando depois para um Seminário de onde tenta fugir e acaba por ser expulso, torna-se amigo de Flaubert – amizade que durará toda a vida – e na guerra franco-prussiana participa nos combates, fazendo depois alguma carreira militar de secretaria em Paris, onde se esmera na boémia de copos, artistas e bordeis. Da secretária militar passa para o Ministério da Instrução Pública onde o apanha um infame processo judicial por “ultrage à moral pública e religiosa e aos bons costumes”. O seu crime foi a publicação do poema “Une Fille”. Flaubert acode-lhe e safa-o. As putas de Paris acrescentam-lhe a sífilis contraída para somar à hereditária da mãe. Enriquece com a escrita e viaja que se farta. Contudo, a Sífilis nunca o largou. As dores, insónias e visões levam-no às drogas duras e ao mais cruel dos realismos na sua obra. O irmão acaba por o internar num manicómio, de onde sai e volta para o colete de forças. Por fim tenta suicidar-se cortando a garganta, morrendo pouco depois e de novo no manicómio.

Nalguns contos cruéis e amorais sobre animais, quase que temos a certeza que “Os Bichos” do Torga foram beber naquela fonte. Mas para lá da bicharada é no reino da mais velha profissão do mundo que o Maupassant é sublime. “A Casa Tellier”, “Madame Fifi” ou o inultrapassável “Bola de Sebo”, são disso excelentes exemplos.

Termino esta apresentação com “O Amigo Patiente” – um dos seus contos menores - em que um funcionário da capital encontra numa cidade de província um compincha de liceu. Na exibição do luxo e do palácio do amigo, o funcionário começa a estranhar o tipo de luxo e a passagem de várias belezas esvoaçantes. Começa a desconfiar daquilo tudo e da origem da fortuna do amigo, mas não havia necessidade, o amigo é honesto e directo: “- E dizer que comecei com quase nada…a minha mulher e a minha cunhada.”

Sem comentários: