01/03/05

La Tomatina, por DervixeRodopiante

Já toda a gente viu as imagens e já toda a gente lá quis ir. Mas aquilo mete medo. Nas imagens parece uma horda selvagem e desenfreada que tomata tudo o que aparece. Nem mais. É assim mesmo. Telúrica, Selvagem e Brutal. Imprópria para virgens ofendidas, copinhos de leite, crianças, grávidas ou susceptíveis. Para quem se entusiasmar, não tem nada que enganar. É ao meio dia da quarta quarta-feira de Agosto em Buñol, Valência, España.

Bunõl é a povoação mais feia de toda a España. Fuentes de Oñoro é uma beleza comparada com Buñol. E acreditem, que o Tapor esteve lá numa expedição memorável do Mefistófeles e do Dervixe. À saída da auto-estrada, o cenário é industrial, feio e sujo. Várias fábricas de cimento em pleno funcionamento tornam o ar pesado e a paisagem branca. Quando se entra em Buñol a paisagem piora e entramos num cenário Mad Max, apocalíptico, com cimenteiras gigantescas – pelo meio das quais se circula e estaciona - desmanteladas, esventradas e comidas pela ferrugem e pelo tempo. Aliás Buñol e a Tomatina é uma paragem no tempo. E um murro no estômago.

Para baixo da encosta desenvolve-se o casario baixo de Buñol, que comprime ambos os lados de uma pequena e infecta ribeira. A Tomatina é numa praça ao fundo da povoação e da encosta. Cerca de 1 km de rua íngreme até ao fundo e paralela à ribeira que serpenteia ao fundo de uma ribanceira.

A coisa mais estranha de tudo aquilo, é que não se vê ali qualquer marketing ou aproveitamento comercial de tudo aquilo. Estacionamos numa cimenteira horrível e escalavrada no meio de milhares de automóveis que vomitam milhares de pessoas que se juntam às hordas que saem dos comboios especiais vindos de Valência e no ar apenas há silêncio, compenetração e concentração. As ondas de bárbaros, apocalípticos e desintegrados rumam ordeiramente ao centro da vila e não há nada. Zero. Em Portugal aquelas 40 ou 50.000 pessoas geravam em dois ou três anos um novo Santuário de Fátima. Ali não há qualquer tendinha ou barraquinha de comércio ou bugigangas. Não há recuerdos, não há postais, não há roulottes de bifanas, vendedores de água, de t-shirts ou seja do que for. Não há bichas, engarrafamentos, pais de família aos berros e putos ranhosos a levar bofetadas Nem placas sequer a indicar a Tomatina. Para lá chegar seguimos a horda em silêncio. Sigamos pois.

O silêncio e o despojamento de tudo aquilo assusta um bocado. E vai de usar o melhor espanhol da confraria, com o Mefistófeles a perguntar a uns hermanos como era: - Muy Bueno, por sepuesto, pero, fuera com las camisetas…, pardón, como és? Fuera com las camisetas, qui son prá rasgar…Mau maria, se alguém me rasga esta merda há molho a doer, carago! – Ó pá, mas foi o que os gajos disseram, voltamos atrás e vamos em tronco nú… - O catano, siga, é prá desgraça, é prá desgraça…

Nem mais. Chegámos com uma hora de antecedência antes da largada dos tomates. A praça estava à pinha, mas há sempre lugar para mais um, ou dois ou quatro…. Ficámos lá mesmo no meio, junto a uma casa tapada, a meio caminho entre o pau de sebo onde um presunto pata negra resistiu até ao fim aos sitiantes e um palanque com mangueiras e motores, que não augurava nada de bom. Na praça todas as casas estão tapadas e protegidas com placas de madeira até ao primeiro andar e por plásticos gigantes até ao quarto e último andar.

A multidão é imensa, sem ser compacta, e acumulam-se ali cerca de 40.000 pessoas. O ambiente é estranho, cosmopolita e electrizante. A meu lado um grupo de Irlandeses emborca cerveja. O Mefistófeles mete conversa com uma Americana que se queixa de já não conseguir ver o marido que a arrastou prá ali. Diz que já teve medo em San Isidro e ali a coisa parece pior. De facto.

O murmurar da multidão é de súbito interrompido por gritos. De todos os lados da praça se berra: “Camiseta, Camiseta, Camiseta…”. Berram a plenos pulmões e o pessoal sem perceber nada. Logo que o Mefistófeles leva com um jorro de água na cara e o Dervixe com um t-shirt encharcada e enrolada, nas fuças, percebemos de imediato. Há que baixar a carola, que é o segredo nº 1 da Tomatina. E enquanto não há tomates, há camisetas. Voam t-shirts e bocados delas de todos os lados. Tudo é rasgado e tudo serve para encharcar e atirar às fuças mais próximas. Quem não rasga a sua, vê mãos anónimas fazerem-no por si. Do alto do palanque os mangueirantes regam à pressão toda a multidão para refrescar do calor abrasador de Agosto. Garinas mais corajosas sobem lá pelo meio, às costas dos namorados. De toda a praça chovem t-shirts que se lhes colam aos ombros e à cabeça, em chapões que se adivinham dolorosos. Algumas caem. Outras aguentam até que nada delas se vê, se não uma massa informe de pano molhado. A multidão exulta e grita “Olé!”, “Olé!” de reconhecimento e louvor à toureira. A miúda agradece e desce. Um mânfio tenta fazer isto, leva com um sapato nas trombas e desiste. A lide só é permitida às miúdas.

De repente do canto oeste da praça ecoa o ronco de camiões. A multidão entra em delírio. Abre-se instintivamente um corredor e cinco ou seis camiões gigantes largam rapidamente milhares de toneladas de tomate maduro, vermelho de sangue. Num ápice os montes desaparecem, o ar enche-se de bandos de tomates voadores e toda a praça se tinge de vermelho. O cheiro adocicado e pungente do tomate invade tudo e a multidão salta e entra em frenesim. A orgia dispara de repente.

O Dervixe e o Mefistófeles que já aprenderam o segredo da bola baixa, protegem a americana, guardam tomates de reserva nos calções e nas cuecas e vai de escolher alvos. O Mefistófeles aponta ao Dervixe o marido da americana, mas este prefere os dois irlandeses gigantes cuja careca rapada brilha ao sol e facilita a pontaria. Tiro de rajada. Em cheio. Bola baixa e zás, de novo em cheio. O Mefi exulta com a pontaria do Dervixe. Os Irlandeses rodam os periscópios a 360 graus para ver quem…azar, tunga, de novo em cheio. Os irlandeses sem alvo de represálias somem-se da zona, o Dervixe levanta-se e comemora a vitória. Tunga, uma tomatada na sobrancelha que até viu estrelas. E outra. Fónix, mas que é o cabrão e zás, nova tomatada nas fuças até aprender o segundo segredo da Tomatina: não há rancor ou sede de vingança, pela simples razão de que isso é completamente impossível.

A berraria é imensa. O delírio é total. De todo o lado e a toda a velocidade voam tomates. Uma tomatada em cheio numa orelha explicam de imediato à americana, que deve desistir de procurar o marido com a cabeça a espreitar. Um grupo de australianos põe-se a jeito na zona de tiro do Dervixe. O Mefi aponta-os e fornece munições. Tunga. Em cheio na orelheira. E bis na nuca. Esta até fez ploc. O bardana do Mefi não baixa a bola e ri-se que nem um perdido e o careca do Irlandês topou finalmente a zona que lhe está a afiambrar. Faz tiro para lá mas népias. E leva outra, e mais outra mal se vira. Ali, foi uns Portugal-10, Irlanda-Zero.

Loucura total, intensidade selvagem, instintos primevos e telúricos, orgia vermelha.

Finda a tomatada há que subir o kilómetro de encosta até ao cimo. Então, de todas as casas, portas e jardins da mais feia povoação de España, sai à rua de mangueira em punho, a mais simpática e generosa das suas gentes, que desde pais de família, a avós de bengala, de putos ranhosos a meninas de vestido, todos, mas todos, pegam nas ditas mangueiras e tratam de regar e lavar a tomatada escorrente dos corpos suados da horda em retirada.

Nós voltaremos.

1 comentário:

Anónimo disse...

HoHo. E dá-lhe tomatadas! :D