10/03/05

A Seita dos Assassinos, por Marco Pila

A primeira vez que ouvi falar desta seita foi há uns anos, entre amigos que discutiam, entre duas cervejolas, a origem do termo «assassino». Numa versão que vim a confirmar em leituras, algum tempo depois, o termo tem origem na palavra árabe «hashish» que é fonte de Assassini, assissini e heyssisini, presentes nas fontes dos cruzados. Parece, pois, que há uma relação entre os charros e o crime. E há mesmo, segundo esta leitura.
A Seita dos Assassinos tornou-se célebre pela eficácia mortal dos seus membros, que se drogavam com hashishe para ganharem a coragem que lhes ajudava a realizar os crimes. Mas mais célebre ainda, pelo absoluto desprezo com que os seus membros encaravam a morte com que eram, geralmente, castigados, mal acabavam de cumprir as suas missões sanguinárias.
O seu mais terrível e famoso líder foi Hassan-i-Sabbah que erigiu uma fortaleza praticamente inexpugnável – a fortaleza de Alamut, de onde dirigia os seus Assassinos. Pelo seu fanatismo, pelo seu desprezo e até pelo seu desejo da morte e do martírio, esta seita bem pode ser considerada precursora da terrorista Al Qaeda.

Mas o que levava estes homens a cometerem tais actos e a encararem o martírio como finalidade suprema da sua vida?
Nos últimos tempos cruzei-me com alguns livros magníficos que falam desta seita e que, de algum modo, ajudam a encontrar a resposta à minha pergunta. Assim foi com o fabuloso e absolutamente genial Samarcanda de Amin Malouf, com A Casa Dourada de Samarcanda de Hugo Pratt e, mais recentemente, com uma descoberta nos saldos de Os Assassinos de Bernard Lewis, este uma investigação histórica acerca da seita de Hassan-i- Sabbah.

Neste livro, Lewis (sim, é o mesmo de O Que Correu Mal?, um best seller acerca do desencontro civilizacional entre árabes e cristãos), cita uma passagem do Livro de Marco Pólo que narra uma história/explicação tão fantástica para o fanatismo dos Assassinos que eu não resisti a vir aqui transcrevê-la para quem a quiser ler. As coisas podem não se ter passado desta maneira, mas que, quase dá vontade de pensar que sim, dá. Com a devida vénia, pela primeira vez no Porco em exclusivo mundial, cito o grande aventureiro, o maior de todos os viajantes conhecidos, Marco Pólo, que passou pela Pérsia em 1273 e escreveu o seguinte acerca da fortaleza e do vale de Alamut, sede dos Assassinos:

«O Velho (e líder dos Assassinos) era chamado na língua deles ALOADIN. Mandara que determinado vale entre duas montanhas fosse fechado, e transformou-o num jardim, o maior e mais bonito que jamais se vira, cheio de todas as variedades de frutos. Nele estavam erigidos pavilhões e palácios do mais elegante que se pode imaginar, com dourados e pinturas requintadas. E havia córregos, também correndo livremente com vinho e leite e mel e água; e um grande número de damas e das donzelas mais belas do mundo, que sabiam tocar todos os tipos de instrumentos, e cantavam da forma mais doce, e dançavam de um modo que era um encanto contemplar. Porque o Velho da Montanha desejava que o seu povo pensasse que era realmente o Paraíso e, por isso, concebera-o segundo a descrição que Maomé fisera do seu Paraíso, a saber, que deveria ser um belo jardim atravessado por regatos de vinho e leite e mel e água, e cheio de belas mulheres para deleite de todos os seus habitantes. E é claro que os sarracenos destas paragens acreditavam que era o Paraíso!
Pois bem, nenhum homem estava autorizado a entrar no Jardim, excepto aqueles que ele pretendia que fossem os seus ASHISHIN. Havia uma Fortaleza à entrada do Jardim, suficientemente forte para resistir a rtodo o mundo, e não existia qualquer outra forma de lá entrar. O Velho mantinha na sua corte diversos jovens dopais, entre os doze e os vinte anos, que tinham gosto pela vida de soldados, e costumava contar-lhes histórias sobre o Paraíso, como fora costume Maomé fazer, e os jovens acreditavam nele. Em seguida, levava-os para o seu jardim, cerca de quatro, seis ou dez dias de cada vez, mas primeiro obrigava-os a beber uma determinada poção que os precipitava num sono profundo, para depois serem levantados e transportados para lá. Assim, quando acordavam, encontravam-se no Jardim.
Logo quando acordavam e se viam num local tão encantador, pensavam que era efectivamente o Paraíso. E as damas e donzelas satisfaziam-lhes todos os desejos e, portanto, tinham tudo quanto os jovens devem ter; e nunca teriam abandonado aquele local de livre vontade.
Quando queria que um dos seus hashishin fosse enviado numa missão, o Velho mandava que a poção de que falei fosse ministrada a um dos jovens que se encontravam no Jardim e, em seguida, mandava transferi-lo para o seu palácio. Assim, quando o jovem acordava dava consigo no Castelo e já não naquele Paraíso; algo que não o deixava nada satisfeito. Era conduzido, então, à presença do velho, e curvava-se perante ele com grande veneração por achar que estava na presença de um verdadeiro profeta. O Príncipe perguntava-lhe, então, de onde vinha, e ele respondia que vinha do Paraíso! E que era precisamente igual àquele que Maomé descrevera na Lei. É claro que isto dava aos outros, que estavam a assistir, e ainda não haviam sido admitidos, um enorme desejo de lá entrarem.
Por isso, quando o Velho pretendia que algum Príncipe fosse assassinado, dizia a um daqueles jovens: «Vai e mata Fulano; e quando voltares os meus anjos levar-te-ão para o Paraíso. E, se morreres, enviarei mesmo assim os meus anjos para te trazerem de volta ao Paraíso». Era isso que lhes fazia acreditar e, portanto, não havia qualquer ordem sua para cuja execução não enfrentassem todos os perigos, dado o grande desejo que tinham de regressar ao Paraíso dele. E, deste modo, o Velho conseguiu que o seu povo assassinasse qualquer pessoa de quem ele se quisesse livrar.»

Sem comentários: