09/03/05

Um Homem Completamente Torcido, por AlquimistaDaDor

Yasunari Kawabata escreveu um dos livros mais estranhos e perturbadores que já li: “A Casa das Belas Adormecidas”. Tropecei por puro acaso em tal coisa numa feira da ladra e achei o título estranho. A leitura apanhou-me desprevenido e tratei de saber mais sobre o japonês. Ora o homem não nos devia ser desconhecido. Trata-se nem mais nem do que um Prémio Nobel da Literatura (1968) e um dos mitos da literatura japonesa.

A sua escrita é plena de solidão, tristeza, sexualidade, serenidade e morte. Há um culto e uma perseguição da vida e da beleza, relatada em regra, por quem lhe viu ou vê fugir as duas. Kawabata ficou tuberculoso muito cedo e órfão de pai e mãe mais cedo ainda. Aos pais, pelo afastamento e pela morte prematura, “nunca lhes perdoou a falta de uma infância normal.” O francês Olivier Rolin no seu “Paisagens Originais”, repescou uma lapidar frase de Kawabata: “O medo e a vergonha que vocês semearam no meu coração de criança permanecem profundamente enraizados (…) e fizeram de mim um homem completamente torcido.” Nem mais. A perversidade serena, estranha mas humana e comedida, transparece em toda a obra. Cada conto é uma Catedral Gótica que inspira estranheza pelo mistério e força, respeito pela pureza e harmonia e sobretudo amiração pela sensibilidade e beleza. Kawabata, em 1972, quatro anos depois do Nobel e com 73 anos, suicidou-se.

Vão lá. São livros pequeninos e até no Continente os há, sublimes e soberbos: “A Casa das Belas Adormecidas”, “Kyoto” e a “Dançarina de Izu”.

Sem comentários: