31/03/05

XXX, por Van Gago

Nunca mais vou esquecer a música céltica que um descomunal tocador de gaita de foles entoava no meio da neblina escura e húmida que envolve a cidade. Estou no Norte, pensei…
O que mais me chamou a atenção em Amesterdão foi a alma da cidade: pode-se gostar ou detestar Amesterdão, mas tem que se lhe reconhecer alma, identidade... Porque é que numa região povoada de cidades mais ou menos assépticas envoltas num clima mais ou menos lúgubre, Amesterdão pulsa de vida e está cheia de turistas jovens e menos jovens que por ali circulam sem descanso durante 24 horas por dia?

Numa resposta mais imediata podem dizer-me que é por causa dos coffee shops e da prostituição, mas isso é ver apenas a superfície. Amesterdão é um lugar central e sabe atrair gente porque… tem alma. Simples! É uma cidade com uma personalidade própria – o viajante sente-o mal desembarca em Central Station. É a célebre open mind que caracteriza este povo que atrai tanta gente. Três exemplos que simbolizam o que quero dizer:

Visito a Oude Kerk, uma igreja protestante cujo nome significa em inglês old (oude) church (kerk). Do outro lado da rua co-existem pacificamente uma sex shop e um coffe shop, curiosamente, chamado Old Church. Esta mistura entre o sagrado e o profano, entre a devoção e o pecado, poderá ser vista em mais algum outro lugar do mundo ocidental?

Na Niewe Kerk, uma outra igreja situada na praça da Dam, pasmo quando entro, ao sentir o ataque dos aromas intensos a especiarias e perfumes orientais. Verifico que tem lugar no interior desta igreja uma enorme mostra de cultura magrebina, de Marrocos principalmente. Há uma exposição de trajes, há especiarias, livros, artesanato e, ao fundo, um grupo de muçulmanos está deitado numas almofadas enormes e vai passando entre si um cachimbo de água! Seria isto possível na Europa Católica dos brandos costumes ou na América inimiga do Islão?

Leio num folheto local que um partido conservador procurou acabar com a famosa tolerância de Amesterdão relativamente à prostituição e ao consumo de cannabis. A polícia local não terá colaborado e o rigor pretendido não pode ser aplicado. Olho para o outro lado da rua e vejo um polícia de brinco na orelha. Está então tudo explicado…

Todos sabem que Amesterdão é famosa por causa dos coffees shops e do Red Light District. O Red Light é relativamente discreto, se o compararmos com outros sítios do género, como o boulevard Saint Denis em Paris, por exemplo. Nas montras as «trabalhadoras sexuais» exibem os seus produtos embrulhados em lingeries multicolores. Uma colmeia de abelhas esfaimadas circula por ali, falando as línguas mais variadas («nada de especial. Mas bom preço», ouço algures em português…). O efeito Red Light vale mais pelas extensões que se generalizaram em forma de sex shops a outro pontos da cidade do que por si próprio. E por ter inspirado Sting na composição de Roxanne, pérola do repertório dos velhos The Police.

Já os coffee hops são omnipresentes. Para quem não sabe, os coffees shops são sítios escuros onde se servem «combinados» de cannabis. O cliente pode optar entre as variedades negra e branca do hash. Os entendidos aconselham, porém, algum cuidado no consumo do witt, uma mistura local explosiva. Também servem vitaminas e alguns não permitem álcool. Nenhum permite a entrada de crianças. Gera-se, pois, uma situação engraçada: como os coffees shops estão, praticamente, por todo o lado – os raríssimos cafés que não vendem hash têm que avisar em letreiros garrafais NO COFFEEE SHOP. NO DRUGS – é extremamente difícil arranjar um café que permita crianças, pelo menos em certas zonas da cidade. E, portanto, a cidade da tolerância tolera drogas, mas parece não tolerar crianças. É uma contradição interessante…

Amesterdão não é só droga e sexo, mas às vezes parece. Compreendo que nos anos 60 este sítio se tenha tornado a S. Francisco Europeia. De resto as referências sixties são constantes. Chet Baker veio morrer aqui de overdose num pequeno hotel perto de Central Station que marca a efeméride com uma placa de homenagem. Na Leidseplein há um bar com o logótipo enorme dos Rolling Stones mesmo no centro e, logo ao lado, um outro chamado Leidsezeppellin… Nos restaurantes ouve-se blues e rock dos anos 60 e 70. Berlim, por exemplo, é muito mais uma cidade marcada pelo techno e pelos anos 90. Amesterdão foi uma bomba cultural nos anos 60/70 – agora parece tudo um pouco ultrapassado, anacrónico, talvez. O efeito explosivo perdeu-se, o hashish era a droga intelectual dos anos sessenta, mas foi ultrapassado pelas drogas frenéticas do fim de século. Os frequentadores de coffee shop não são intelectuais fascinados com a busca do nirvana. Mais parecem zombies com ar idiota… Isto e a cor amarelada das sex shops carcomidas pelo tempo dão à cidade um ar decadente, apesar dos turistas que circulam por todo o lado. Amesterdão não é só droga e sexo mas, realmente, às vezes parece. A sua omnipresença é exagerada e incontornável. A alma holandesa, a open mind que dá a Amesterdão a sua identidade mais característica, acaba por ficar, assim, algo abafada por este exagero. É fácil cair-se na tentação de reduzir a cidade a uma Babilónia de sexo, drogas e r`n`r, não vendo o que de mais profundo está por detrás disto. O efeito é perverso, de facto.

Amesterdão tem muito mais para ver e curtir que putas e coffee shops. Assim o vento gélido que vem do mar do norte o permita, assim a chuva abrande um pouco e o nevoeiro permanente fique um pouco menos cerrado, há muito que fazer. Passeios de barco ao longo dos canais, mercados de tulipas e bolbos, cafés elegantes (com o «expresso» a 2 euros, fónix!), a feira da ladra de Waterlooplein, a arquitectura do norte da Europa, as igrejas protestantes, museus (cerca de 600, três deles de renome mundial, o Museu Van Gogh, o Rijjkmuseum, com a sua colecção imperial de Vermeers e Rembrandts e o Stedelijk dedicado à arte moderna), restaurantes indonésios e pequenos postos de venda de sushi, a praça da Dam e beautiful people por todo o lado – as holandesas são um povo bonito! -, há muito por onde escolher. Não sei se voltarei um dia a Amesterdão. Mas saí de lá com a convicção reforçada de que o mundo é muito grande e muito diverso e que, mesmo nos sítios que não são a nossa casa - «nossa», dos homens do sul - há sempre coisas que nos fazem descobrir um pouco mais acerca de nós próprios.

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