05/04/05

El Fandi perante o Soltero, na Real Maestranza, por PedroRomero


Há tempos passava eu pelo canal 13 do Viver da TvCabo a ver se as hostilidades já tinham começado, quando tropecei no Festa Brava. E que festa! No écran um saltarilho de lantejoulas desesperava de volta de um tal de Pellegrino. Népias, tanto fazia como acontecia, o Pellegrino marrar não era com ele e perante os apupos da Maestranza, o Pellegrino recolheu aos curros. Mais manso que ovelha de curral. Fiquei por ali porque adivinhava a humilhação do torero. Um tal de El Fandi.

De seguida e com a anuência do Director de Corrida, entrou outra besta. Entrou o Soltero. Um colosso de 499 kg que investia sobre tudo e todos. A fera em estado bruto. Logo nas verónicas de homenagem a nosso senhor Jesus Cristo, o Soltero esteve-se nas tintas para a via sacra e ferrou um corno na coxa de um bandarilheiro de serviço, que saiu de maca. A fera sabia o que fazia. Mais um motivo para ir ficando.

De seguida vem o El Fandi com um par de bandarilhas. E caíram-me os queixos. Literalmente, o homem voava por cima do touro. Para quem nunca viu, El Fandi brilha sobretudo no tércio de bandarilhas onde as ferra em voo recuado e picado.

Normalmente o toureiro, espicaça o touro e corre de frente para ele, cravando os ferros e saltando no último momento. El Fandi não faz isso. Não corre para o touro. Espicaça-o, ferra-lhe o olhar e a atenção e depois quando a besta o fila e desembesta, El Fandi não vence a distância antes a mantém. Isto é, faz um trote de costas – embora sempre de frente para o touro que nunca deixa de ver as bandarilhas – e em passe de dança e ballet vai gerindo a sua distância ao touro. Literalmente, El Fandi corre e voa para trás. Com uma elegância e uma graciosidade, que só visto. No último instante, porque o touro corre mais do que ele e porque ele nunca se afasta da linha de marranço, El Fandi lança um último salto para trás e para a lateral, já por sobre os cornos e o cachaço do touro, cravando-lhe então as bandarilhas, completamente dobrado sobre a besta. Único.
“Air” Fandi, como depois vi que lhe chamaram em Pamplona.

As segundas bandarilhas ainda foram mais brilhantes de destreza e desfaçatez perante a morte. El Fandi fila o Soltero, galopa de costas meio círculo da arena, reduz para um trote de alazão alado e mais uma vez, no instante preciso da cornada, ganha impulso e salta sobre a afiada e luzidia armação num voo único e fantástico. Olé!

Olé! A besta corre de cabeça descontrolada a revirar os olhos e o cérebro à procura do boneco que lhe fugiu. No caso, voou. Olé!. Vi-o fazer isto por três vezes. Por três vezes a Maestranza se levantou.

Mas nas verónicas o Soltero mostrou que não estava ali para laurear o El Fandi, e virou-o de pantanas com uma marrada em cheio na cintura. Marrada fundo. Daquelas que tiram a respiração à praça. El Fandi voou de novo, mas desta vez pelas piores razões. Levantou-se a sangrar e aguentou-se na muleta, mas o deslize ia-lhe sendo fatal com o Director da Corrida a negar-lhe qualquer troféu. Mas a Maestranza não esquece e relembrou o magnífico tércio de bandarilhas e exigiu orelhas pró rapaz. Perante o levantamento geral da praça, o engravatado concedeu uma orelha e uma volta à praça. A faena não foi notável, mas o tércio de bandarilhas é inesquecível. “Air” Fandi também na Maestranza.
Na net podem-no ver na página pessoal com fotos do melhor em: http://www.el-fandi.com/

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