18/04/05

Existe Vida Para Além do Tinto, por Krrrupt Das Ilhas

Durante largos anos militei com fúria contumaz no partido daqueles que resumidamente crêem que há vinho e há branco. O tempo, esse ladrão, conjugado com feliz e reiterado acesso a exemplares convincentes, encarregou-se de me resgatar do erro em que estiolava, e assim digo hoje, com exultante convicção, que existe vida para além do tinto; que na galáxia vínica nem sempre as estrelas brancas são de menor magnitude e que a dicotomia, assente na evidência dos factos e útil como tantas outras, não tem todavia préstimo algum quando se trata de formular juízos qualitativos.

A quem não concorde, aconselho vivamente um "Cloudy Bay" - subsidiariamente, bolsas menos abonadas poderão ainda assim permitir-se uma ideia razoável com o "Vila Maria", da mesma casa. Além de ser uma proveitosa lição, no que respeita a certos preconceitos em favor dos méritos do vinho nacional, a experiência será ainda elucidativa da "ladroage" que montou tenda no mercado interno. Seja como for, estou em crer que uma mente de abertura mediana acabará, com esse ou com qualquer um de tantos outros exemplos que seria aqui fastidioso enumerar, por reconhecer, com justa equanimidade, que a partir de certo nível as opções são estritamente de gosto pessoal ou, mais ainda, de ocasião. De resto, pela parte das minhas preferências, continuo a favorecer o tintol.

Ora, manda a verdade dizê-lo, a atrás referida não é a única das evoluções a que neste vale de lágrimas está sujeito um cristão que vá adoçando a existência com o exercício do justo amor pelo vinho. Deixo de lado, por agora, as maravilhas do vinho do porto, do madeira e outros licorosos menores, cuja capacidade de devida apreciação, essa sim, estou em crer que só os anos consentem - e daqui dirijo um sincero até breve à garotada que ainda postula que isso nem vinho é, grande charopada, bom para sobremesas e outras bojardas de semelhante quilate. Não. Neste árduo caminho, uma vez vencida a inicial relutância pelo branco, penso que o primeiro grande desvio a merecer do viajante a consideração de uma exploração demorada é o dos espumantes - e não falo necessariamente daqueles que, extraídos das vinhas da Champagne e embotelhados nas casas de Reims, nos remetem as gentes francesas pelo vapor do Havre, a preços pouco convidativos (a "ladroage" monta tenda em diversos sítios). Também cá pelo nosso velho Portugal estamos razoavelmente providos do borbulhante néctar, e já nem falo de "nuestros hermanos", a quem devemos ainda o facto de melhor conterem os sobreditos armadores de tenda.

Dito isto, tem interesse referir que nesta matéria, e por paradoxo, o neófito sofre quase invariavelmente tendência para repetir o erro em que incorrera no início da sua jornada, mas agora invertido nos seus termos: há espumante, e há espumante tinto... É compreensível uma tal atitude, induzida por factores de múltipla ordem, dos quais decerto o menor não será o deslumbramento pela frescura, a leveza, a variedade de aromas e sabores, com tantas vezes feéricas e desencontradas sugestões de mel, caramelo, limonete, eu sei lá!

Porém, mais insidioso do que esse, pesa um factor com infausta tendência a perpetuar-se e cuja ultrapassagem não depende em exclusivo das néscias ou sábias inclinações do apreciador. É que, deplorável falta dos produtores, o espumante tinto tem rara ocasião de dar a conhecer os seus inteiros méritos, derivando de uma posição sempre marginal e até algo excêntrica para a verdadeira exoticidade. Não obstante, aparece, e um mínimo de curiosidade obriga experimentá-lo.

Sem comentários: