18/04/05

Já pensaram bem na vida de um salmão? Por Salmonete

Ontem vi um programa da National Geographic e tornei-me um admirador incondicional dos salmões! Os salmões são uma espécie digna do nosso respeito. A vida deles é uma ode ao altruísmo, uma vitória da moral sobre os interesses individualistas.

Fiquei a saber que a vida de um salmão é, basicamente, uma imensa correria – ou, mais literalmente, uma imensa prova de natação – desde o mar até à meta, algures milhares de kilómetros mais além, num rio de água doce. Os salmões saem dos oceanos em direcção aos rios e nesse percurso que dura milhares de kilómetros, têm que enfrentar hordas de predadores esfaimados, a começar pelos tubarões. Deslocam-se em cardumes, aos milhares, e uma parte deles consegue vencer esta primeira etapa da sua vida.

Uma vez chegados aos rios, têm que subir correntes poderosos que os deixam positivamente extenuados e à mercê de mais umas dezenas de espécies predadoras. Os que sobrevivem apanham depois com multidões de ursos esfomeados que despertaram da hibernação e precisam absolutamente de se alimentar para não perecerem. É uma verdadeira batalha: os ursos escolhem os locais estratégicos, as cascatas principalmente, e aí esperam os cardumes de salmões que têm que dar saltos enormes para vencerem os rápidos. Os ursos podem dar-se ao luxo de escolher os melhores salmões e estes sabem que só têm alguma hipótese de passar mais esta provação se se atirarem de cabeça aos milhares. Ou seja, sabem que é o facto de muitos perecerem na subida dos rápidos que dá a uma minoria a possibilidade de passar. É heróico. Os salmões, neste momento, são como um batalhão aliado a desembarcar nas praias da Normandia no Dia D. Eles avançam esperando que as rajadas os poupem, mas conscientes que alguns – a maioria – tem que morrer para que os outros possam vencer. Se o Spielberg soubesse disto o soldado Ryan seria um salmão!

Os poucos que passam as cascatas e os monstros dos ursos ainda têm que enfrentar as águias e outros predadores, também elas dependentes de alimento, e que os apanham já cansados nas águas mais baixas. É uma verdadeira carnificina. Mais uma! Mas mesmo assim ainda há sobreviventes que vão chegar ao destino que norteou todas as suas vidas: as águas paradas onde estão mais seguros. Poder-se-ia pensar que estas águas são uma espécie de jardim das delícias para os salmões. Que valeu afinal a pena terem enfrentado os mais poderosos predadores dos oceanos, terem subido rios em contra corrente em estado de exaustão, não terem parado nunca, nunca… Mas não é bem assim. Afinal os salmões passam toda esta vida terrível para cumprirem um objectivo bem simples – poderem desovar e assim perpetuarem a geração seguinte. Só aparentemente estamos perante um final feliz. É que, após a desova os salmões morrem irremediavelmente. Tanta canseira para perecerem, desgraçados. No entanto, eles cumpriram a sua missão e o seu destino. Na próxima primavera, das ovas que lá deixaram, nascerá uma nova geração de salmões que perpetuará a espécie e fará a mesma viagem dos pais para deixar, também, as ovas da geração futura.

O exemplo salmão é uma lição para a espécie humana e, em especial, para aquela imensa percentagem de nós, principalmente aqui da Europa, que se recusa a procriar em nome da vida que tem que viver. Os filhos são estorvos e a malta quer é curtir. Como são escandalosamente diferentes os salmões que se sacrificam individualmente para salvarem a espécie! Não quero julgar moralmente os membros da minha espécie mas, na perspectiva de um salmão, não há dúvida que daria que pensar, uma espécie como a nossa… Se algures no reino dos salmões houver um National Geographic a emitir, de um rio qualquer, um programa sobre a espécie humana, imagino que eles ficarão espantados. De facto, uma vida de um só salmão, vale mais que todos os tratados de ética produzidos pela nossa espécie.

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