06/04/05

Manifesto Anti-Touradas, por AlquimistaDaDor

A civilização humana e sua evolução, sempre se caracterizaram pela construção de um homem social que superasse os seus mais básicos instintos. O homem social e actual é, e procura ser, o mais afastado que é possível desse instinto básico e primevo fundado no sangue e no apelo do coração. Ainda temos muito de coração, mas luta-se sempre pelo primado da razão. É essa a razão da sociedade, do direito, da economia e da solidariedade. Evoluímos sempre em luta contra o que de animalesco há em nós.

Ao invés, a Tourada, é um apelo cerrado e violento ao que de mais animalesco, cruel e sanguinolento que o homem tem. Aliás, basta ver a sua origem que remonta às arenas romanas, onde esse apelo aos instintos primitivos era a base de todo o espectáculo. Como a tourada hoje continua a ser.

A tourada faz apelo ao sangue. Pela Tradição. Pelo Belo. Pela Arte. As mesmas tradição, belo e arte que também reconhecemos em muita coisa funesta. Como por exemplo num assassínio de vingança de sangue por um velho simpático siciliano que vinga um filho. A tradição, a beleza e a arte da máfia siciliana. Não é por acaso que todos gostamos dos Padrinhos, dos Bons Rapazes, do Pulp Fiction, etc, e não se diga que estamos a meter no mesmo plano coisas distintas, porque o que se quer salientar é que já superámos e saímos – ou pelo menos lutamos por isso – do mero instinto primevo e sanguinolento da vingança. A essência do derrame de sangue é sempre a mesma: a não superação dos instintos mais básicos e primevos.

Ao longo dos séculos o homem tem vindo a superar essa veia cruel. Já não se queimam pessoas – pelo menos da forma institucional anterior – a pena de morte começa a ser excepcional, as lutas de cães e galos estão já proibidas e criminalizadas na maioria dos países e a tourada cairá também, como caíram já outros instintos primevos. Mesmo a tourada espanhola – bastião mundial do apelo ao sangue – é já uma relíquia do que era. É preciso não esquecer que agora é proibido que os cavalos dos picadores não sejam protegidos por aquelas samarras imensas, quando há poucos anos era sempre morto pelo touro, um cavalo ou dois por corrida. É preciso relembrar que hoje a maioria das ganadarias e corridas serra as pontas dos cornos aos touros e depois mete graxa preta nas pontas. Os cornos continuam afiados e mortíferos, mas o touro perdeu a maioria da sua eficácia e pontaria, porque lhe roubaram de um momento para o outro os pontos de referência de toda uma vida. A própria instituição base das arenas espanholas que é a picagem dos touros já não é o que era e deixou de ser por evolução de gostos e instintos, o mar de sangue que a caracterizava.

A pouco e pouco, o apelo do sangue será mais uma vez superado. É futurologia, desalicerçada e optimista? Será, mas julgo que será inevitável, até porque a luta continua. E não me parecem erradas as manifestações pacificas anti-touradas, anti-crueldade gratuita, etc, etc. Hemingway achava notável a caça grossa. As Verdes Colinas de África e As Neves do Kilimanjaro são livros magníficos de alguém que glorifica aquilo que hoje é consensualmente restringido e muitas vezes proibido. A bem da natureza, dos habitats, da beleza animal viva e pujante, garante da nossa própria sobrevivência como planeta, e sobretudo a bem da superação da matança gratuita. E mesmo assim, a caça grossa choca, como a da foto. E é bem que choque.

O respeito por algum bem-estar animal é um dos mínimos que podemos fazer para nos respeitarmos cada vez mais a nós próprios, tentando sempre superar o muito que de animalesco ainda há em cada um de nós.

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