11/04/05

No Princípio era o Verbo, por AlquimistaDaDor

Uma das coisas mais fascinantes de um livro e da leitura, é ver a frase com que o escritor começa o livro. A frase ou arranque inicial do livro é sempre matéria de demorada ruminação da minha parte, qualquer que seja a força da coisa.

Como é evidente, há muitos “arranques” que soam a falsa partida, e mais de quantas vezes temos que estar ali a penar dois ou três capítulos até que a coisa desperte o mais leve arquear de sobrancelha. Muitas vezes percebe-se que o escritor andou por ali a penar forte e feio, até conseguir descobrir o fio à meada. Certa vez, de escritor que já nem lembro, ouvi a referência de que a primeira frase era uma agonia completa, para logo rematar, que depois dos meses infindos à volta da primeira frase, logo que acertava na coisa, o resto do livro fluía-lhe naturalmente.

Ao invés, existem frases de uma força tal que acabam, por vezes, por ser mais famosas que o próprio livro. Quem não se lembra ou já não ouviu isto:

“No dia em que iam matá-lo, Santiago Nasar levantou-se ás 5.30 da manhã para esperar o barco em que chegava o bispo.”

E mais esta:

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.”

Ambas as frases abrem livros de Gabriel Garcia-Márquez, respectivamente o “Crónica de Uma Morte Anunciada” e o “Cem Anos de Solidão”. Obras maiores de um escritor ímpar, que nem no menor “Memória das Minhas Putas Tristes” se descuida da força da frase inicial e começa a coisa assim:

No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem.”

Com Kawabata no enredo e Nabokov no arranque, García-Márquez devia pagar aqui direitos de autor. E a propósito relembremos a frase inicial do “Lolita” de Vladimir Nabokov:

“Lolita – Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade.”

Mais de quantas vezes mordemos a primeira frase e tunga, estamos fisgados. Não há fuga possível. Léon Bloy abre o seu “A Mulher Pobre” com um fulminante:

“ – Arre! Como Deus aqui cheira mal!”.

Mário Vargas Llosa começa a desenrolar a utopia no seu “O Paraíso na Outra Esquina” com esta frase:

Abriu os olhos às quatro da madrugada e pensou: “Hoje começas a mudar o mundo, Florita.”

E ainda Vargas Llosa no fabuloso “Conversa na Catedral”:

Da porta do La Crónica, Santiago contempla a Avenida Tacna, sem amor: automóveis, edifícios desiguais e desbotados, esqueletos de anúncios luminosos a flutuar na neblina, o meio dia cinzento. Em que altura se tinha fodido o Peru?”.

Dali para a frente, sempre no Catedral, mas com os tempos todos fodidos, Vargas Llosa vai desbobinando as interrogações sobre a geraldina peruana. E como famosas relembro ainda Jorge Luís Borges e a frase inicial de fascínio puro, do seu conto “Tlön”:

Devo à conjugação de um espelho e de uma enciclopédia a descoberta de Uqbar.”

E a maravilha que é a frase inicial do “Baía dos Tigres” de Pedro Rosa Mendes, que abre assim:

“Em cada milímetro deste chão está o último instante da minha vida.”

Ítalo Calvino no seu “Se Numa Noite de Inverno Um Viajante” abre as hostilidades em interpelação directa do leitor com um anzol poderoso que nos impede de sair dali:

“Estás para começar a ler o novo romance “Se Numa Noite De Inverno Um Viajante” de Ítalo Calvino. Descontrai-te. Recolhe-te.”

Termino este post com o homem mais genial em frases de arranque. Ando a relê-lo e foi ele que me inspirou este post. Falo de Franz Kafka e das suas duas obras maiores. O seu livro “O Processo” abre desta forma:

Alguém devia ter caluniado Josef K., visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal.”

Já no “A Metamorfose”, para mim a obra maior de Kafka, a coisa é ainda mais brutal, misteriosa e poderosa:

Certa manhã, ao acordar após sonhos agitados, Gregor Samsa viu-se na cama metamorfoseado num monstruoso insecto.”

Quando me lembrei do tema deste post corri meia biblioteca lá de casa, à redescoberta destes arranques fabulosos. Contudo existem certamente muitos mais, fabulosos também, dos quais passei ao lado ou que me não despertaram a atenção. Despertem-na vocês e completem este post. Venham daí mais arranques de génio ou que tenham tocado o pessoal.

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