14/04/05

O capitão Haddock e a Linguística, por Semi Óptico

Deve-se a Roman Jakobson, nascido em Moscovo (1896) e linguista do Círculo de Praga, a teorização das famosas funções da comunicação. Uma delas é a função emotiva ou expressiva que descreve a relação da mensagem com o emissor. Esta função torna a mensagem fundamentalmente pessoal, na medida em que expressa as emoções, atitudes, estatuto ou classe do emissor. É engraçado como a BD é uma boa ilustração destas ideias e, em particular, da função expressiva da linguagem.

O capitão Haddock, por exemplo, é um dos melhores exemplos a este respeito. Haddock é a mais exuberante das personagens criadas por Hergé, a mais expressiva. Quando comunica usa constantemente onomatopeias, pragas, entoações, tiques e gesticulações. Lembrem-se: «Com mil milhões de raios e coriscos!», ectoplasma!. Pirata!, Ostrogodo, Pirómano!, diz ele e o que nos diz tudo isto, para além do carácter exuberante e verrinoso do emissor? De facto, o conteúdo semântico destas mensagens é zero, mas, em contrapartida, o seu potencial expressivo é imenso… Haddock é dos nossos.

Mas não é só a linguagem verbal que comunica aspectos do emissor ou da sua relação com outros intervenientes sociais. O corpo, os gestos, o olhar, o vestir, cumprem igual função. E, ainda, o que é muito interessante, o espaço. Sim a forma como dispomos o espaço ou nele nos dispomos também comunica, também cumpre esta função expressiva de que falava Jakobson. Nos grandes edifícios de escritórios e firmas de negócios os andares mais altos são reservados às pessoas de estatuto mais elevado – o sonho de um arrivista é, justamente, subir uns pisos e é engraçado como esta ascensão social lembra o universo religioso. Mais uma vez há exemplos na BD sobre este aspecto. Duas sugestões:

- Em A Feira dos Imortais, Bilal imagina uma sociedade futurista em que os níveis mais baixos da população vivem abaixo do solo, são seres inferiores que não têm, sequer, o direito de contemplar o sol. Nos níveis mais elevados, em verdadeiras fortalezas voadoras, vivem as elites que Bilal representa, recorrendo a elementos da iconografia egípcia.

- Em A Sombra de um Homem, Schuiten e Peters – dois arquitectos – voltam ao tema, imaginando uma espécie de cidade que não é mais que um edifício muito alto em que as classes sociais, estão divididas por andares. Mas se um homem bem instalado num nível mais alto se apaixona por uma rapariga do rés do chão… Abdicará ele do estatuto, suportará o desprezo dos seus semelhantes por causa da rapariguita?

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