04/04/05

Olé!, por J. Bergamín

Há gente que não gosta de touradas! Tudo bem! Eu também não gosto de muita coisa. Agora, como é possível falar de direitos dos animais a propósito de touradas? Como é possível classificar os apreciadores da tourada de «bárbaros», «incultos», «anacrónicos», «carniceiros», como o faz o Vizinho no seu blog? Para mim, bárbara é a arrogância que muitos têm de se julgarem donos da Verdade e, munidos da sua Certeza, classificam os outros. Logo depois, condenam-nos. Esta gente aspira a um mundo higiénico e puro feito à sua medida e gosto. Eu prefiro as touradas. Como é possível, em nome da defesa dos direitos dos animais desejar a morte dos humanos que gostam de touradas? Como é possível ser tão categórico? Repito, não gostar de touradas eu aceito, agora, fazer juízos morais sobre os outros que gostam? E que havemos nós de fazer a essa gentalha que gosta de touradas? Proibir as touradas? Mas se isso não for possível? Exterminar os amantes das touradas? Reeducá-los? Prendê-los? Chicoteá-los? Pô-los na arena? E esta gente que é tão categórica o que acha deste rol de amantes de touradas: Hemingway, Picasso, Orson Welles, Lorca, Almodovar? E Júlio Pomar, Miguel Torga ou António Osório, para falar de portugueses? É de Osório que cito do livro posto na imagem: «Nas grutas de Altamira e do Cáucaso, a disposição central é, muitas vezes, ocupada pelo dualismo cavalo - touro. A coragem do cavalo, a destreza e a elegante bravura do cavaleiro ficam, todavia, aquém do dualismo fundamental da corrida: a luta directa, viril, entre o homem e a morte, luta de que são protagonistas os matadores e os pegadores. Mas erra-se o alvo, porque o touro é um símbolo abusivo da morte. A corrida assenta nesta infeliz metáfora. A inocência do touro comprova-se pelo sofrimento, pelo seu medo pungente. Arremedo, desforço simulados, réu equivocamente perseguido, cercado, justiçado, vítima da nossa finitude, o touro não passa de um malfeitor inocente.»

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