02/04/05

Porque é que é tão difícil arranjar as minhas histórias preferidas do Super Man?, por J. Olsen

O Super Man é o meu personagem de BD favorito. Sim eu sei que o Umberto Eco o considerou reaccionário em O Super Homem das Massas. Mas nas entrelinhas do seu ensaio há toda uma erudição que só está ao alcance do apreciador. Ninguém pode saber da saga das «imaginary tales», nem de Brainiac nem da Fortaleza da Solidão com tanto pormenor só por mera obrigação de investigador. Eco nunca me enganou: ele passou, como eu, a infância a ler as fantásticas histórias do Homem de Aço. E gostou… Seguro!

O problema é que não há um único, mas vários Super Homens: há o inicial de 39 aos anos 40 da autoria dos criadores originais, Joe Shuster e Joe Siegel, os mesmos que ficaram despojados dos fabulosos direitos de autor que a série gerou para a Dectetive Comics. Estas primeiras histórias têm um excesso de ingenuidade e uma quase total ausência de argumento, mas já aqui estão as intuições básicas e as linhas de força da personagem que hão-de perdurar.

Nos finais dos anos 40 já aparecem as primeiras histórias do genial Wayne Boring que abre para nomes de referência como Otto Binder, Al Plastino ou Bill Finger nos anos 50 e 60 e Curt Swan nos 60 e 70. Esta é a fase áurea da série. Super Man é aqui o que deve ser: um Deus Todo Poderoso que está acima do comum dos mortais, mas ao mesmo tempo, um espírito puro com a naividade em bruto que é própria de uma criança. Este é o Super Homem que eu prefiro, aquele que me alimentou os sonhos de infância e que me fez vibrar de emoção em tardes e tardes esquecido no sofá da casa dos meus pais.

Os anos 70 são o princípio da decadência, pelo menos do meu ponto de vista. Jack Kirby, argumentista e desenhador de Thor ou de Hulk, entre outros, é o primeiro indício da degenerescência. Kirby é de outra escola, mais ligado à Marvel Comics que à DC Comics, a editora do Homem de Aço. È conhecida a diferença de princípios filosóficos que separa as duas escolas: a Marvel vem revolucionar os Comics «humanizando-os», isto é, criando super heróis com fraquezas humanas, atarantados e amargos e tantas vezes frustrados como todos nós. Stan Lee é o grande arauto desta revolução corporizada, sobretudo, por Spider Man, um Super Deprimido vergado ao peso da sua enorme responsabilidade. Os Fantastic Four, mutantes angustiados com o desgraçado Coisa no limite e o Hulk esquizofrénico também fazem parte desta nova geração de super-infra-heróis. Lee e a Marvel vão mesmo ao ponto de conceber um super-herói cego, o Demolidor, que sempre me fez uma confusão do caraças… A Marvel impôs-se nos anos 70 e seguintes – a sua filosofia estava mais de acordo com a geração contestária que fez o Maio de 68 e a Contra-Cultura. Super man, subitamente, foi considerado arrumadinho, penteadinho e demasiado politicamente correcto, para não dizer, como Eco, reaccionário.

E que fez a DC? O pior, abdicou da sua personalidade e aderiu à moda dos heróis Marvel «humanizando» Super Man. Foi uma traição: a DC degradou-o, matou-o! A sequência das histórias do Super nos anos 80-90 é uma tristeza para um fã do período áureo. Fazem-lhe tudo na ânsia de o «humanizarem»: despenteiam-no, deixam-lhe crescer o cabelo, casam-no e fazem-no bom chefe de família (há uma história deste período em que o Super desaparece sem deixar rasto para casar com Lois Lane, fugindo da cruz da sua Superioridade como o Cristo dos Evangelhos Apócrifos filmado por Scorsese). O aviltamento se Super Man chegou, nos anos 90, ao limiar mínimo mas, ao mesmo tempo, inevitável: numa jogada comercial a DC decide matar realmente o Super Homem. O acontecimento é anunciado nos joranis da altura com semanas de antecedência e, finalmente, após uma luta titânica com um Super Vilão que não tem nem um décimo das classe malvada dos super vilões dos anos 50 o Super Homem é morto! Doomsday, é a este Zé Ninguém monstruoso que a DC atribuiu a honra de matar Super Homem. A história é banal, uma salganhada tipo Manga de baixa qualidade em que dois desgraçados – Doomsday e o Pseuso-Super-Man - passam o tempo a destruir-se e a destruir tudo à volta. A edição é histórica, mas, para mim, pelas piores razões. Foi nisto que deu a despersonalização da DC: de tanto querer humanizar o Deus, acabou por ter de o matar (para o ressuscitar depois sem história nem glória).

Já se está a ver que eu sou um nostálgico do Super da minha infância para quem tudo, mas tudo mesmo, era possível: desde voar à velocidade da luz, saltar de galáxia em galáxia, ver o que se passa nos antípodas com a visão raios X até, quando tudo falha, andar para trás no tempo e alterar o rumo dos acontecimentos. É esse Super que eu procuro, mas que nunca encontro. A sério. Literalmente. Corro todas as lojas de BD do país e nunca as encontro, as histórias do W. Boring, do C. Swan ou do O. Binder… E quando as localizo, como aqui na net, custam 100 e 80 euros a edição! As edições importadas dos States, então, são vendidas a peso de ouro. Em Bruxelas, numa loja que anunciava em orgulhosas letras garrafais no meio do império da BD francófona «Oui! Nous avons dês Comics», encontrei de tudo, todos os Superes em todas as fases, mas não encontrei a fase do Super Man que procurava… O pouco que havia – os early years - custava 80 e tal euros!Fico, ao menos, com a consolação de haver mais lunáticos nostálgicos como eu por esse mundo fora que fazem os exemplares rarearem e o preço da série disparar. Portanto já sabem: se tiverem aí esquecidas nos recantos do vosso sótão umas revistinhas daquele Super Man que eu procuro, mandem um comment aqui para o Porco. Garanto-vos que fazem um puto feliz: aquele que ainda vive dentro de mim e que as histórias do verdadeiro Super Man têm o poder

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