02/05/05

Antes que me dês ideias., por Mangas

A porta está entreaberta. Perpendicular à linha do meu olhar. Vislumbro a ponta do teu pé descalço e imagino a continuação da tua perna cruzada sobre a outra perna. As mãos. Dedos irrequietos. Leve pressão sobre esse livro aberto. Existem muitos livros que falam de amor e de outras coisas. Mas os livros não ensinam nada. Ou quase nada. Cada letra é uma mancha irregular de tinta, impressa sobre o metal. Cada palavra, algumas manchas orientadas. As frases são resíduos vagos de uma ideia. O livro mais belo é Cem Anos de Solidão, e é tudo mentira.

Procuro-te nas minhas frases. Numa tarde a morrer de cansaço no Central Park e só encontro a imagem pouco clara da tua personagem. Perdida no universo branco do papel. De que falas tu?

Prefiro-te em carne e osso. Os contornos suaves do teu peito, que eu não vejo, mas adivinho. O teu tornozelo, em forma de um fruto de cacau. Definitivamente, prefiro-te assim. Nessa pele de anjo tentador. Sentada em recato e escondendo a ternura adormecida e o teu sexo húmido. Faz um favor a ti própria: guarda esse livro e descruza as pernas. Ou fecha a porta.
Antes que me dês ideias.

New York, N.Y., Junho/94

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