27/05/05

Morte aos bons da fita! (parte I), por Ferrabrás

É verdade que sempre me irritaram os chatos dos bons-da-fita! Sempre me conheci assim: os bonzinhos sempre me chatearam, no mundo dos filmes, como na vida real, que hei-de fazer…

Lembro-me, era miúdo, de ver os cartoons do Beep Beep e de torcer pelo Coyote. De nada lhe valeu a minha simpatia, o desgraçado do Coyote passou todo o tempo que durou a minha infância a ser gozado, humilhado, baleado, esmagado e explodido pelo infalível Beep Beep…Apesar da série ter uma violência íntrinseca – hoje politicamente incorrecta - que não me desagradava de todo, o Beep Beep, sempre vitorioso e risonho, irritava-me ao ponto de me obrigar a desligar a TV. E quem diz o Beep Beep diz esse outro bonzinho nojento, o Piu Piu, um queixinhas abjecto que passou toda a santa vida a massacrar o pobre do Silvestre. E o Speedy Gonzalez, o rato que assassinou mil vezes o Duffy Duck… E muitos, muitos outros…

Nos Westerns eu simpatizava com os índios que eram invariavelmente apresentados como os selvagens de serviço – ainda não suspeitava que a história viria a dar-lhes razão, invadidos e expulsos que foram da sua própria terra por hordas de Europeus que não tinham lugar na Europa. Tantas vezes vi o Bonanza à espera que um índio fosse aos cornos ao Hoss e ao seu angelical irmão, o eunuco Litlle Joe... Mas não, o Hoss e o Joe venciam sempre e os índios acabavam invariavelmente lixados, atirados para a Reserva, sem um escalpezinho de recordação para contar aos netos...

Não era só no cinema, na vida real eu também detestava os Pompeus das minhas e de todas as turmas, impavidamente cumpridores, disciplinados e estudiosos, ainda petizes e já exemplares cidadãos. Os Pompeus eram os correspondentes na vida a sério dos Beep Beeps e dos Piu Pius. Na minha turma do Liceu havia um tipo que encarnava todos os Pompeus deste mundo - o jovem-velho Batenabó que, aos 16 anos já tinha o ar amarelecido que ainda deve ter hoje, eternamente previdente com o seu inseparável guarda-chuva-all seasons que o acompanhava quer chovesse quer fizesse sol. Irritava-me o Batenabó, certinho como um Piu Piu, erecto como um Beep Beep, angélico como um Joe de um Bonanza qualquer…

É pois inteiramente verdade, confesso, eu nunca fui um grande admirador dos bons-da-fita, muito pelo contrário, e sempre sonhei, secretamente, com um mundo em que, finalmente, os maus se erguessem das cinzas e se vingassem de anos e anos a apanharem dos bons. Como eu sonhava com touradas na TV em que o touro saltasse a barreira e danasse tudo à marrada, tudo, capinhas, forcados, cavaleiros e cavalos, aficcionados e corneteiros… Qual Manolete, eu torcia mesmo era pelo Miúra!

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