16/05/05

Narciso e Goldmundo, por Valquíria

Em matéria de paixões literárias, eu sou um exagerado do caraças. O ano passado descobri – tarde, eu sei, mas ainda a tempo – o grande Hermann Hesse. Agora não descanso enquanto não ler tudo o que apanhar dele. Hesse é um escritor fabuloso que concilia a densidade de pensamento com uma enorme sensibilidade estética. Faz parte de uma grande família de escritores-pensadores que raciocinam com o coração e sentem com a razão. Estão para lá dos géneros, não são filósofos nem literatos, são pensadores e são artistas, ao mesmo tempo. São estes os meus preferidos e é aqui que filio escritores como Malouf, Sartre e Camus, Barthes, Eco, Mishima e mais uma fornada menos óbvia… Neste momento estou a ler Narciso e Goldmundo, de Hesse, que explora pares clássicos da filosofia e da literatura como ser/devir, coração/razão, lógica/estética, dever/prazer, nomadismo/errância… É de lá que retiro o seguinte extracto que li com os olhos de quem já passou por milhares de discussões aqui no Porco sobre o respeito que (não) temos para com os animaizinhos. Goldmundo, personagem principal do romance, vai à lota, vê os peixinhos a morrer e conclui que somos todos uns Porcos. Até tu, Gold! Com a devida vénia, senhoras e senhores, Narciso e Goldmundo de Herman Hesse:

«Viu senhoras e criadas fazerem compras, demorou-se especialmente no mercado do peixe onde viu os rudes peixeiros e peixeiras apregoar e oferecer a mercadoria, tirando das celhas os peixes prateados e húmidos que, de bocas dolorosamente abertas e olhos fixos e apavorados, se resignavam quietos à morte ou se debatiam em furioso desespero contra ela. Sentiu-se possuído, como de outras vezes, de intensa compaixão por aqueles seres e de amargurada tristeza perante a rudeza e a obtusidade dos homens, tão desmedidamente estúpidos e imbecis; como era possível que fossem assim cegos os pescadores, as peixeiras e os compradores e não vissem aqueles olhos mortalmente assustados, os espasmos violentos daquelas caudas, em luta pavorosa e inútil, a intolerável transformação dos peixes maravilhosos e misteriosamente belos, percorridos antes de morrer por ligeiro frémito e depois, mortos e sem brilho, lamentáveis pedaços para a mesa dos glutões! Era-lhes indiferente ver estrebuchar à sua frente um lindo peixe (…). Andavam todos distraídos ou atarefados, afadigados com importantes afazeres, berravam, riam, arrotavam, faziam alarido, diziam chalaças, discutiam por dá cá aquela palha, e sentiam-se felizes, tudo estava em ordem e eles contentes consigo próprios e com o mundo. Porcos é o que eram, muito mais brutos e piores que os porcos.»

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