19/05/05

O Eterno Enigma do Donaciano Afonso Francisco, por MenteContusa

Segundo reza a história, o Donaciano passou cerca de metade da sua vida encarcerado atrás das grades. 30 anos fechado a sete chaves. Segundo o mito e a lenda reinante o homem nada fez, o homem nunca pode, o homem nunca quis. Gradearam-no pelas ideias, meterem-no na redoma por puro medo irracional, porque de concreto o homem nunca aleijou ninguém e nem quis aleijar. Foi punido em sede de caça às bruxas e não em merecimento criminal.

Ora, esta versão da vida do Donaciano sempre me fez confusão. É que a obra do homem se alguma é, é descritiva e pormenorizada. E ninguém pormenoriza daquela maneira sem vivenciar muito daquilo. Dizer-se que aquilo tudo é produto da mente sempre me confundiu. Ainda agora nas reedições da Antígona das obras principais do Donaciano, lá vem nas apresentações da contracapa: “encarcerado injustamente, perseguido pela escrita, etc”, qual intelectual puro banido e detido pela produção do intelecto.

E eu, que li abismado as principais obras do mestre, sempre dividido entre a assombração e o puro nojo, estranhei sempre que todas aquelas alucinações pudessem sair da pura imaginação. Aquele delírio todo tem que sair da vida e não pode sair só da imaginação, ainda que escrita com merda nas paredes do cárcere. A mais delirante das imaginações não consegue traduzir a riqueza da vida. Aquela maldade intrínseca só pode sair de quem conhece profundamente a natureza humana e sabe na perfeição os meandros em que ela se mexe.

Mesmo, o nobel mexicano do Octávio Paz no seu ensaio “Mais do que erótico: Donaciano” alinha no mesmo diapasão dizendo entre outras coisa o seguinte: “E mais assustador do que o número de exemplos é o facto de Donaciano os ter imaginado na solidão do cárcere.” Mas mais, Octávio Paz e outros (como Guillaume Apollinaire que o redescobriu e lançou) alinham e defendem que a escrita do Donaciano traduz antes de mais uma raiva e vingança pura contra a sociedade que o encarcerou por metade da sua vida. Aquilo não é real, mas raiva e vingança pura. Seja. Assim o dizem os mestres e se tá dito, tá dito.

Contudo, fiz alguns apanhados e dei com referências bibliográficas curiosas, ora veja-se:
- “…foi educado por um tio paterno, abade da ordem de Cister, que foi encarcerado depois de uma orgia de deboche, figura essa que o Donaciano recordaria mais tarde por ter sempre em casa um par de rameiras…”,
- “…como tenente participa nas primeiras operações da guerra dos sete anos…”,
- “…já como capitão, os seus companheiros de armas recordam estadias em Paris em que o Donaciano cultivava a libertinagem com furor…”,
- “…com 23 anos é preso pela primeira vez por “deboche escandaloso”, concretizando o processo com uma “horrível impiedade para com as raparigas”…”,
- “…após várias peripécias militares e amorosas, agora com 27 anos, Donaciano aborda uma mendiga e submete-a a práticas cruéis. A mendiga consegue fugir, denuncia a fera e o Donaciano é internado…”,
- “…com 31 anos envolve-se em disputas com um oficial superior e ainda nesse ano é preso por dividas…”,
- “…libertado de novo, envolve-se com uma cónega que amantiza a par e com a cumplicidade da mulher…”,
- “…com 32 anos e na companhia do criado organiza em Marselha uma cena de deboche com quatro raparigas em que predomina a flagelação e a sodomia, e com administração às raparigas de drageias de cantáride e de anis…”,
- “…com 35 anos é acusado de ter raptado cinco jovens, que acabam por ser soltas e devolvidas aos pais…”,

Depois destas cenas que não resumem um décimo das peripécias da vida do Donaciano, este é condenado à morte, que depois lhe é perdoada para prisão, é solto com a revolução que o condena depois por “moderantismo”, e vai acabar os seus dias de condenação em condenação, em que apenas muda a cor da ferrugem das grades.

E se isto que se sabe for apenas metade do que ele fez, como acontecerá com toda a probabilidade, fico com poucas dúvidas que mais do que pura fantasia, há ali muito de vivencial naquela demência animalesca do Donaciano. Sade prós amigos.

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