06/05/05

O Outro Zé, por Rafael José

Este post pode parecer, mas não é bem sobre futebol. É mais sobre o «pensamento-maçã-reineta». O pensamento maçã reineta é o modo pacóvio de pensar daquela espécie de indivíduo que considera que o selo da Pátria está acima de qualquer outra coisa. Para o pensador maçã reineta, a sardinha assada com broa é sempre preferível a qualquer outro peixe, simplesmente, porque é portuguesa. Para o pensador maçã reineta, o Camões é o maior poeta da história da humanidade mesmo que não tenha lido mais nada, mesmo que, como acontece na maior parte dos casos, nem o Camões tenha lido. Há lá maçã como a reineta? E Portugal? – há lá melhor coisa que este «jardim à beira mar plantado»? Népias, somos o melhor país do mundo e do universo, que bela é a torre dos Clérigos, o Castelo de Neiva com o seu castelo altaneiro, as mil fontes de Vila Nova e a cabra da Universidade de Coimbra…

Claro que este critério absolutista de julgar a portugalidade o valor supremo a todos os outros dá um jeito do caraças aos tolos que não têm ideias próprias. É fácil «pensar» assim e tem-se opinião sobre tudo - é português é bom, não é, é uma merda. É este tipo de lógica – pacóvia, provinciana, burra, obsoleta, desmiolada – que leva gajos como um Anonymous que por aqui apareceu, a qualificarem de «invejosos» todos aqueles que pensam que o zé mourinho mereceu a eliminação aos pés do Liverpool. Isto é a ausência de pensamento em estado puro, é a redução simplória e biliosa ao argumento «és português não gostas do sucesso de um português, logo és invejoso».

Pois bem, fica aqui declarado que eu apreciei e vibrei com a passagem do Sporting à final da taça UEFA (uma competição menor, é certo, mas ainda assim uma competição com popularidade). Não por ser uma equipa portuguesa, mas porque praticou um futebol espectacular, de categoria, e não foi só ontem. O Sporting é a antítese do Chelsea, joga o jogo pelo jogo, com grande criatividade sem cientismos ultra-defensivos. Não foi só ontem – este ano, alguns dos melhores jogos que vi foram do Sporting – o Benfica –Sporting, o Feyonord-Sporting, o Sporting – Boro, o Sporting-Newcastle e o Sporting-Alkmaar, uma equipa que não fez papel de Liverpool. E tudo isto tem a chancela de um homem que foi contestado até à náusea, que foi quase crucificado pelos próprios sportinguistas, mas que está a provar que é um grande técnico de futebol-espectáculo (e não do outro futebol…): de seu nome Zé Peseiro, o outro Zé, o do futebol como eu gosto de ver jogar. Aprecio-o não por ser português, mas porque, ao contrário do zé abramovich, este sim, defende e promove o jogo. Que dirão perante isto os cultores do pensamento maçã reineta – terá o Peseiro um avô castelhano?

P.S. Ah, esquecia-me de dizer: sou do Benfica.

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