11/05/05

Peregrinação, por Fernão Sem Fim da Silva

E pronto, é vê-los nos seus coletes reflectores repescados no Continente, Jumbo, Modelo e afins, com uma expressão ora perto do juízo final, ora identificada com uma tenacidade própria de quem acredita nos seus actos (a mesma que os poderia levar ao questionamento e reflexão do porquê de semelhante investidura).
Este empreendimento gigantesco que move uma panóplia de meios e pessoas cada vez se parece mais com uma organização profissional, em que a fé individual se dilui, num folclore de gosto duvidoso e motivações difusas.
Ir a pé a Fátima insere-se em que categoria? Significa exactamente o quê? Será ainda (e sempre) pela velha máxima do valor redentor do auto-flagelo? A expiação da culpa?!
A mesma sociedade que os apetrecha de telemóveis, de carros topo de gama (que os acompanham metro a metro), do último modelo da invenção tecnológica não conseguiu penetrar no mais recôndito do seu ser.
A ciência no seu esplendor fracassou nas trevas da Idade Média.
Mas não será esta romaria uma questão cívica e de cidadania?
Assistimos ao Presidente da República a ataviar um discurso acerca dos (maus) condutores, da falta de civismo, da importância da condução defensiva… então e o perigo que os peregrinos representam? Basta andar pelas estradas para verificar os riscos e inconvenientes que decorrem daquela turba sem bom senso (era interessante o Continente promover uma campanha designada “caminhada defensiva”). Fazia todo o sentido.
Enquanto os responsáveis não se preocupam com isto rezemos um pai-nosso e uma ave-maria pelos peregrinos (e também para que os senhores do governo não decidam fazer uma promessa de ir a pé até Fátima se o défice melhorar – o que parece ser a única maneira).
P.S.- Também sou do Benfica (será este facto relevante?).

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