20/05/05

Quem quel tlamal Logel Labbit..., por Kzar Das Ilhas

Andava eu a pensar ir prá faculdade quando em Coimbra apareceram os primeiros restaurantes chinocas. Não falo do do Rocha, no Monte formoso, que já tinha uns anos valentes e a esse tempo estava para fechar. De resto, o Rocha, antigo jogador da briosa, nem era bem chinoca e o restaurante também não era daqueles que os súbditos do Império do Meio armam normalmente pelo mundo fora. Refiro-me é a estes último, decorados com cenas saloias ao máximo, com músicas de fundo indizíveis e menu numerado (o númelo 1 é o inevitável clepe).
Aliada à falta de bago crónica de que padece o estudante, alguma curiosidade levou-me à frequência esporádica dessas casas e assim lá me fui habituando ao pato à pequim, cerveja Tsin-Tao, lichias e aguardente de lagarto, entre outras merdas que por junto sabem todas mais ou menos ao mesmo.
Evidentemente não pretendo com isto menoscabar a gloriosa gastronomia do Celeste Império, que não necessita de referências encomiásticas, sendo concerteza uma das mais ricas e variadas do mundo. Todavia, sucede que a pequenez do nosso mercado condiciona a oferta e até nós só chegam restaurantes dos tais: "fast food" de rabicho, com uma tipa que mal fala português a fazer a invariável pergunta - quel clépe? - e a gritar o pedido para dentro - é tlinta e dois! Agruras da lusitaneidade. Quem quer restaurante chinês a sério e não pode ir até Hong Kong, Macau, Shangai e etc., onde se supõe havê-los à farta, trate de dar um saltito a Londres ou Paris.
Este longo introito vem a propósito de dizer que seja como for os chins foram-se instalando e atrás dos restaurantes vieram aqueles armazéns estilo loja dos 300, onde a toda a hora a populaça e não só compra miríades de pechinchas.
Em geral tenho muita boa ideia desta tropa. Vendem lá as cenas deles e só compra quem quer. Na maior parte dos casos trabalham na loja ou no restaurante o pai, a mãe, os filhos, o avô, o cão, o gato e tudo o que mexa; fechar a tasca não é com eles - irra, só obrigados; pagam rendas estapafúrdias para terem as chafaricas na baixa das cidades ou nos shoppings que durante os anos 80 nasceram como cogumelos; os filhos vão para a escola e em geral são bons alunos e não se metem em merdas; nos tribunais muito raramente me aparecem chinocas - ao longo de um ano, num tribunal de família e menores, aparecem problemas do camandro com menores de todas as raças menos chinocas - nunca aparece um maltratado pelos velhos ou delinquente! Enfim, o que desejo quanto a esta malta é que venham para cá mais! Aldrabões doutras latitudes a mamarem da segurança social e a encherem os tribunais já cá temos com fartura.

Dito isto, já se vê a estupefacção com que tenho visto a histeria racista e xenófoba que se tem vindo a levantar contra os chineses. A coisa começou com os eternos e inenarráveis comerciantes lusos a queixarem-se da concorrência. Desleal, desleal, urram eles furiosamente, por junto dizendo que os chineses vendem demasiado barato e não cumprem horários. Mas quem é que faz concorrência desleal? Sintomaticamente, nunca vi a protestarem contra os chinocas os lojistas com estabelecimento no shoppings do tio Belmiro; esses pagam rijo e têm é que fazer negócio, que a vida custa a todos - não lhes saiu na roda da fortuna uma renda de 50 paus, os da baixa que se ponham a bulir e os chineses que se façam à vida... Cada um por si e Deus por todos.
Quanto aos protestantes, a verdade é que normalmente é malta que tem uma loja na Ferreira Borges e paga 500$00 paus de renda (se for preciso quer que o senhorio faça obras no edifício!), fecha das 13.00 às 15.00, ao Sábado à tarde e ao Domingo (o cliente que venha às horas que eles mandam!) e compra ou pode comprar a mercadoria nos mesmos grossistas, mas quer vendê-la a preços exorbitantes. É malta, por outro lado, que tem tendência a esquecer que apesar de estar na mesma rua, e até ao seu lado, como o chinoca não tomou a loja num desses trespasses que uma lei infame consente (e que não são mais do que vergonhosas transmissões de arrendamento a perpetuar rendas decrépitas), paga de renda 400 ou mais contos; esquece também que tratando-se de gajos que deram ao coiro com força para virem lá da parvónia chinesa, onde vergavam a mola 14 horas por dia para comerem a malga de arroz, normalmente endividaram-se forte e feio com gente pouco recomendável, que lhes emprestou, a juros de envergonhar a banca nacionalizada de 1980, o dinheirito com que vazaram lá da terra e montaram o negócio. Já este último tipo de relação é algo que as ditas vestais do comércio luso não se lembram de denunciar às autoridades...
E aqui batem de assombro os queixos de um honesto português! Então não é que as tais autoridades, concretamente a inspecção geral do comércio, agora deram de fazer uma operação de grande envergadura para escrutinar a regularidade de procedimentos nas lojas dos chineses?! Assim mesmo! O objecto da acção é definido pela etnicidade dos lojistas! Um tipo ouve e lê isto, nas televisões e nos jornais, dito como se fosse a coisa mais natural do mundo, e nem quer acreditar! Será possível que as autoridades do Portugal do sec. XXI, supostamente civilizado e democrático, anunciem que vão ver à lupa as "lojas dos chineses" e ninguém diga puto? Onde é que estão os tipos do Bloco que desatavam logo a gritar e espumar baba e ranho se um chefe local de polícia dissesse que ia fazer uma justa operação sistemática para varrer a ciganada e os caixotes de camisolas foleiras dos passeios fronteiros ás lojas!? Tá tudo bêbado?
Parece que nessas operações lá apreenderam umas gaitas com rotulagem em estranjeiro ou em mau português, uns brinquedos com a marca "CE" aposta abusivamente, e alguns têxteis com composição diversa da anunciada... Infâmias que, está bom de ver, jamais poderiam ser detectadas nas lojas dos honestos comerciantes lusitanos da Rua da Louça... Os chineses andam a enganar o consumidor tuga e há que reprimi-los, o que as autoridades, benfazejas como sempre, se aprestam a fazer com paternal vigilância e abnegado furor.
Para ajudar à festa, agora a propósito da liberalização do mercado mundial dos têxteis, juntaram-se ao coro uns inovadores empresários do Norte (e com eles uma série de congéneres europeus). Trocado por miúdos, o argumento reza que isso é uma corja de malandros, não paga puto aos trabalhadores lá na china, não há lá sindicatos nem direitos dos trabalhadores, assim não dá para concorrer com os gajos, fechem-lhes a porta, carago! Parece que é mesmo o que a Comissão quer fazer...
Entretanto, ocorrem-me algumas perplexidades. Então ao tal senhor empresário lá de Felgueiras não andam a avisar há uns vinte anitos que o mercado haveria de ser liberalizado? O gajo pensou que isso só aconteceria no tempo dos netos? E o que fez aos dinheiritos que a UE copiosamente lhe verteu sobre a tromba com o pio objectivo de que modernizasse a sua indústria? Terá ficado no BMW? O processo (daqueles da banhada ao FSE e manás que encheram os tribunais nos anos 90) nunca permitiu conclui para onde foi o bago?
Outra piquena questão: então o Sr. Empresário está preocupado com os salários e os direitos dos trabalhadores da China? Quão preocupado? Tanto como com as suas operárias, a quem ainda há vinte e três anos aumentou três escudos e meio no salário e já nem sequer exige que trabalhe também no dia de Natal?
Já o vejo, ao fabricante de T-shirts do Vale do Sousa, a sair de uma marisqueira de Espinho, com um pelo de lagosta no bigode, chave do mercedes na mão, a declarar, agastado, ao consciencioso jornalista do Diário Económico:
- Isto assim não pode ser, carago! Já um gajo não pode ser filantropo, pagar às operárias quase todos os meses o salário mínimo, pagar subsídio de férias ainda há dois anos, raramente foder alguma, e virem logo estes tipos da china, que não pagam nada aos escravos deles, aproveitar para nos quilharem! Desta maneira tenho que fechar a tasca e abrir uma casa de alterne, ou aumentar nas facturas falsas para sacar mais algum IVA que não paguei! Não tarda nada ponho essas putas todas no desemprego!
E assim se vai vivendo neste Portugal de brandos costumes, que segundo as loas habituais é tudo menos racista. Fazem cá falta montões de chineses, e eles também bebem o seu copito!

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