02/06/05

Apocalipse Now, por Ho Chi Minh

O Apocalipse Now é um dos meus filmes de culto. O Mestre, O Grande Mestre, Francis Ford Coppola arruinou-se para fazer este filme nos arrozais das Filipinas e filmou-o ao sabor da luz e da inspiração. Fez e refez todas as cenas até sentir que agora é que estava bem e ultrapassar todos os prazos, custos e multas. O Génio alterou sucessivamente a história e os diálogos até os actores darem em doidos. E ele próprio também.

Em pleno reino da loucura, de tudo aconteceu na epopeia apocalíptica. A personagem do Capitão Willard começou a ser filmada pelo Harvey Keitel, que a meio das filmagens saiu incompatibilizado com o Coppola sobre o rumo a dar à personagem. Para o substituir veio o Martin Sheen, que com os cornos cheios de drunfos levou com um ataque cardíaco a doer que o mandou seis semanas para o hospital, regressando depois às filmagens. O Marlon Brando apresentou-se gordo que nem um texugo e sem qualquer preparação sobre os textos para os quais se estava marimbando a não ser como leve inspiração. Na maioria das falas o homem balbucia e nem sequer se percebe o que diz. Houve muita gente que depois confessou que esteve a uma unha de lhe ir aos cornos. Completamente marado dos ditos, andou sempre o Dennis Hopper que exigia à sua disposição uma dose de coca fornecida pela produção. O Presidente Ferdinand Marcos das Filipinas emprestou os helicópteros do exército ao Coppola e a meio das filmagens teve que lhos tirar porque estalou a guerra civil. Para ajudar à festa o local das filmagens levou com um dos piores furacões da história das Filipinas. As 4 semanas previstas nas Filipinas transformaram-se em 16, o orçamento dobrou e obrigou à falência da Zoetrope e à hipoteca dos bens pessoais do Coppola. Como piada Hollywood chamou-lhe Apocalipse Late.

Mas os problemas não acabaram com o fim das filmagens em 1977. Com mais de 4 horas de filme a distribuidora recusou-se a distribuir a odisseia e Francis Ford Coppola viu-se “obrigado” a cortar o filme para as 2 horas e meia. Este “obrigado” e a extensão ou a força dele logo passaram a ser objecto de larga discussão.

A polémica instalou-se com muita gente a questionar-se sobre o quanto é que - daqueles 150 minutos de puro génio – se devia à arte do Coppola e quanto é que se devia à manigância comercial da distribuidora ao pressionar ou condicionar a extensão dos cortes, da montagem e da edição.

Na senda deste filão, surgiu há pouco o Apocalipse Now Redux. Esta é supostamente a versão integral do Coppola. Aquela que seria exibida se a distribuidora não lhe tivesse imposto condições. Pode ser assim, de facto, mas há uma coisa que nunca saberemos. Com tempo e vagar, até que ponto a sabedoria do Mestre não iria ela própria desatar a cortar muito daquilo que agora na versão Redux nos enfiam pela goela abaixo como “este é que é o verdadeiro Apocalipse Now”! Isto é, se o Mestre tivesse tempo e dinheiro para editar, será que seria esta versão Redux, aquilo que veríamos?

Não o creio. Esta versão Redux é um esterco. Um nojo. Para quem conhece minimamente o Mestre, nomeadamente dos Padrinhos, sabe que o Mestre não deixa o ritmo do filme por mãos alheias, que as personagens têm sempre um carisma e uma força extraordinárias, que obra jamais será chata, amorfa, pegajosa. E isso, é o que é o Redux. Quem não viu a versão Redux, não a veja agora, fuja daquilo como o diabo da cruz e conserve na memória o velho Apocalipse Now!

O arrepiante e demencial Apocalipse Now original, criou uma das personagens do cinema mais memoráveis de sempre, como é o caso do Coronel Kilgore do actor Robert Duvall, que tem ali o papel da vida dele. No Redux esse monstro sagrado - com todas as cenas adicionais - passa a palhonço idiota que desbarata meios infindos do exército na procura de uma prancha de surf que lhe roubaram. As coelhinhas da Playboy que só aparecem fugazmente no original, num toque sublime de anacronismo do espectáculo dentro do espectáculo que é a guerra, passam no Redux a putas de mato que se vendem por qualquer coisa até darem em galinhas doidas. No Redux, são ainda enxertadas à marretada as cenas infindas da plantação de franceses, que num tédio idiota se prolongam em explicações de politica e história local e conjuntural, quando o Apocalipse original é precisamente o contrário disso. É uma descida ao horror intemporal, ao lado negro do coração humano, uma história de valor eterno porque se debruça sobre a mente humana e os seus rios sinuosos e jamais uma lição de moral politico-histórica que data e apouca o filme.

Morte ao Redux. The Horror, The Horror!

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