15/06/05

Até Já, por Florbelo


Homenagem ao poeta Eugénio de Andrade, trocando apenas o Adeus,
que é o título do seu poema original
(http://omni.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/eugenio.andrade.html)
por um simples Até já
com todas as consequências que daí se retiram:

Até já.
Ainda não gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Não gastámos nada nem sequer o silêncio.
Não gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Não gastámos as mãos apesar da força com que as apertamos,
Não gastámos o relógio nem as pedras das esquinas
Apesar de tantas esperas inúteis.

Antigamente metia as mãos nas algibeiras e não encontrava nada;
mas agora temos tanto para dar um ao outro;
é como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dou mais tenho para te dar.
Às vezes tu dizes: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acredito.
Acredito,
porque ao teu lado
todas as coisas são possíveis.

Dantes os meus olhos eram apenas os meus olhos.
Era pouco mas era verdade,
uns olhos como todos os outros.
Agora é o tempo dos segredos,
o tempo em que o teu corpo é um aquário,
o tempo em que os meus olhos
são realmente peixes verdes.

Não gastámos as palavras.
Quando dantes dizia: meu amor,
não se passava absolutamente nada.
E no entanto, agora, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremecem
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Temos ainda tanto para dar.
Dentro de ti
Tudo me pede água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras não estão gastas.

Até já.

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