11/06/05

Coluna Social, por Madame Butterfly

Durante esta semana o ilustre filósofo do PS, Manuel Maria Carrilho, apresentou a sua candidatura à Câmara de Lisboa. Entre outros, o evento contou com a presença da esposa Bárbara e do rebento Dinis. Num vídeo os eleitores embevecidos podiam assistir às micro-façanhas do pequeno Dinis e aos seus passeios nas ruas da capital às cavalitas do papá. A mãe aparece derretida a compor o quadro de felicidade familiar e até confessou aos presentes que «o Dinis gostava de ver o papá presidente da câmara, não é Dinis?»…Como se tudo isto devesse ter relevância para a eleição do Presidente! Eu vi e não quis acreditar.

Noutras ocasiões, já li declarações de Carrilho em que este se confessa incomodado, revoltado, chocado, pela invasão da sua esfera privada pela imprensa. Já o vi defender violentamente o seu inquestionável direito à privacidade - não foi o mesmo Carrilho que há uns tempos atrás sacou da máquina a um paparazzi e a destruiu? Carrilho acerta na mouche quando denuncia este problema flagrante da tele-sociedade, da mistura entre o público e o privado. Reclama, com razão, sem dúvida, quando os media lhe devassam a intimidade, a sua e da sua esposa, e faz bem em defender-se com unhas e dentes.

Mas que dizer quando, como foi agora o caso, é ele próprio a misturar os planos e a trazer para o terreno do argumentário público e partidário, a própria família? E agora, quando não é o paparazzi a querer fixar na sua objectiva um naco sagrado da esfera privada, mas o político a misturá-los, deliberadamente, os planos pessoal e público?

É certo que o fenómeno não é novo na sociedade portuguesa. Estamos fartos de rir com cromos que num dia, quando dá jeito, abrem as suas casas à devassa da imprensa cor de rosa e, depois se queixam de que não têm privacidade quando as mesmas revistas chapam a foto comprometedora que não dava jeito nenhum, tirada algures numa discoteca perto de si. Ao misturar de uma forma tão inesperada a família no jogo político, Carrilho está a fazer exactamente o mesmo que esses desiludidos dos tablóides. Como é uma pessoa coerente, certamente não se virá queixar quando lhe voltarem a escarrapachar a sagrada privacidade nas páginas de uma Caras qualquer…

Mas mais estranha que a atitude de Carrilho neste caso, é a da comunicação social portuguesa. Ninguém aqui no Porco foi mais crítico do santana que o autor deste post. Mas conseguem imaginar o que não se escreveria se o mesmo santana se viesse apresentar numa candidatura pública acompanhado da namorada e dos seus 9 ou 10 ou 11 filhos ou lá o que é? Eu era capaz de escrever um post imaginário só de pensar nisso. Comparem com o tratamento dado agora a Carrilho. Parece que a nossa imprensa até achou graça, uma ternura, aquela família… Parece que, no fundo no fundo, também a esquerda portuguesa ( e a imprensa de esquerda) partilha da mitologia socialite mais própria da direita Quinta da Marinha portuga. O povo de esquerda também gosta de ter as suas famílias bem, ora essa…

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