14/06/05

Elogio Fúnebre, por Kzar

"Hoje lembramos um dia em que a Europa ficou mais pobre. Partiu um dos seus filhos mais notáveis. Um homem que abraçou uma causa, um ideal e foi com ele coerente, sem cedências, até ao seu último sopro de vida. Com um carisma assinalável, soube sempre congregar vontades e vastas massas seguiram-no na luta pelos seus princípios. Muitos dos que dele divergiram, até violentamente, enfrentando-o nas lutas ferozes que encetou, têm em todo o caso de reconhecer - e reconhecem - que foi um inimigo feroz da tirania comunista, na luta contra a qual comprometeu o essencial do seu poder.
Personalidade marcante do séc. XX europeu, grangeou um lugar indelével na História do velho continente e na das ideias, que agitou como poucos. Veterano da Grande Guerra, viveu em primeira mão a fervilhante agitação política dos anos 20 do século passado, integrou e fundou movimentos populares e de veteranos, participou em múltiplas acções de rua, conheceu o cárcere e, ainda assim, uniu o povo, chefiou um partido de massas e assumiu o poder numa Pátria grande mas destroçada e desmoralizada.
Veio a conduzir o seu povo contra quase tudo e quase todos, de rosto em frente, com inquebrantável tenacidade, mas entre os seus afazeres e a intensa actividade política e governativa que o consumiam, deixava ainda assomar a sua faceta delicadamente humana, legando-nos algumas pinturas que, não sendo geniais, são pelo menos de uma agradável quietude e nada brigam com os padrões mínimos da arte.
Resistente até à intransigência, sobreviveu a atentados e enfrentou incompreensão vinda de todos os quadrantes. Nunca cedeu e só a derrota inexorável dos que se colocam do lado errado da História acabou por levá-lo a escolher a morte, que infligiu a si próprio para que lha não pudessem impor os inimigos. Nunca concordámos com ele, mas a história política faz-se de todos os que combatem, e nela conseguiu por direito próprio o seu lugar, indelevelmente marcado.
Lembramos hoje o autor de "Mein Kampf", obra marcante em que procurou explicar a sua revolucionária visão da Europa."


Como parece evidente, o político/jornalista/escriba-intelectual-de-serviço que se lembrasse, com seriedade, de alinhar disparate obsceno e ultrajante como o que antecede seria vítima de tamanha carga de pau que nunca mais em dias de sua desprezível vida lhe ocorreria pegar na pena. E tenho para mim que em alguns países nem mesmo se safava de processo criminal. O clima de unanimismo "post-mortem" que nos últimos dias vivemos também lhe não havia de valer. Uma coisa é certa: não entrava mais nos areópagos da nação e o seu nome não tornava a ser repetido senão na companhia de indignados vitupérios.

Dando de barato essa prognosticável reacção, da qual não duvido por uma só fracção de segundo e que aliás acompanharia, fico sumamente intrigado com o referido unanimismo que nos tem assaltado o éter e as páginas da comunicação a propósito de uns seres passados recentemente. Já temo que algum sequaz dos nóveis defuntos, num assomo de entusiasmo, proponha a canonização respectiva. E pelo caminho que as coisas têm tomado, estou em crer que dentro de alguns anos poderiamos ver pelas igrejas e capelas da província e nas Sés das principais cidades, as pias imagens deles, em postura de seráfica candidez, eventualmente ao lado das de S. Martinho, todos fraternalmente rasgando capas a dividir pelos pobrezinhos... Quando menos, seguramente não nos vamos safar de algumas Ruas, Avenidas e Praças que por esse país fora passarão a ostentar, em agradecida denominação, a graça dos extintos.

Retomando o fio ao discurso, o dito unanimismo tem alguma explicação no facto de não ser inteiramente real. Pela larga maioria, as fontes de que em substância dimanam os encomiásticos e por vezes surpreendentes comentários são ora camaradas de partido, "compagnons de route" e "idiotas úteis" de todas as horas, ora néscios sentimentais ou por qualquer outra razão propensos a fazer coro - o resto são no mais cabeças ocas por onde ressoam quantas sandices sejam "correctas" segundo "l'ésprit du temps"...

Realmente estranho é que nem todos sejam dessas colheitas. Que o amigo Vasco Lourenço "fatigue a infâmia" (expressão de Jorge Luís Borges) "recordando" a democraticidade congénita dos camaradas Cunhal e Gonçalves, vá que não vá; já era de esperar e o mesmo pode dizer-se do espectáculo do jovem-Bernardino-líder-de-bancada ou da não-tão-jovem-nem-líder-Odete a conspurcarem conceitos como "liberdade" e "democracia" dizendo-os caros aos sobreditos falecidos personagens. O pornográfico espectáculo, que obviamente não é para levar a sério, junta-os com muitos outros actores de gabarito similar.

O que já causa mais do que desagradável surpresa é ver o bochechas a realçar o benfazejo papel daquelas ex-pessoas na democracia portuguesa! Pode não se gostar do homem (e é o meu caso), mas tem de reconhecer-se-lhe um papel fundamental (e a muitos títulos também positivo) na história recente da Pátria - um dos episódios desse papel, e decerto não o menos relevante, foi precisamente o de se opor à "democracia" proposta pelos recém fenecidos. Um tal estatuto impunha-lhe uma responsabilidade à altura da qual não soube estar e que era a de condenar sem tergiversações tudo aquilo que ambas as criaturas defenderam e praticaram em suas lastimáveis vidas. Valha a verdade, não foi o único, longe disso...

Neste contexto, cabe recordar - parece que é preciso - os saneamentos e perseguições várias, as nacionalizações, a "reforma agrária", as ocupações, enfim, um rol de malfeitorias que seria fastidioso enumerar com exaustividade mas que, depois de assim muito sumariamente referidas, creio estarem apesar de tudo acessíveis na memória da maioria da população.

E recordado isto, refira-se o essencial. Acaso aquelas odiosas ex-pessoas tivessem conseguido para Portugal e para os portugueses uma pequena parte do que consabidamente pretendiam, estaríamos hoje bem pior do que com um governo do Sócrates, do Santana e do Guterres juntos! No mínimo, estávamos parecidos com a Albânia. Fónix! A terra lhes pese como chumbo, porque para mim viveram mais (muito mais) do que seria desejável para o incremento da felicidade humana. E a morte deles fecha um capítulo, mas não basta para acertar contas.

Tal como tantos fdp mais que compõem a galeria de monstros abjectos que o socialismo copiosamente ofertou à humanidade (vêm-me logo à mente o Mau, o Estaline, o Pol Pot, o Ceausescu e o Kim, só no âmbito dos pretéritos, porque em matéria de ainda viventes restam uns quantos de boa estirpe...), aqueles de que aqui se cura participaram do Mal, foram rostos e mãos da Besta, e só numa coisa tiveram vantagem: não lograram um poder estável que lhes consentisse levar ao fim as bandidagens de que estavam furiosamente animados. Tal como todos os referidos e ainda aquele com que abri (o fdp Adolfo), o caminho por onde em vida andaram impede que gozem da tolerância em geral concedida aos mortos. Aliás, depois de mortos ainda é mais importante sublinhar o que foram, para tentar que fiquem mesmo extintos.

Pela minha parte, não lhes perdoo; e desprezo profundamente os que a mais de esquecerem ainda encontram ânimo de lhes ver os putativos aspectos positivos. É preciso lata.

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