03/06/05

O Regresso do Aparelho Digestivo do Coelho

Há uns anos atrás o Miguel Sousa Tavares confessou numa das suas crónicas da imprensa um dos maiores traumas dos estudantes de liceu da sua geração. Nem mais nem menos, o facto de constar do programa da disciplina de Biologia do seu tempo, um capítulo inteiramente dedicado ao aparelho digestivo do coelho. Nessa altura chumbar-se ou passar-se, entrar-se ou não no curso pretendido, decidir um rumo na vida, dependia, em certa medida, de uma coisa simplesmente ridícula: de se saber com maior ou menor detalhe o funcionamento do aparelho digestivo do coelho!

É claro que esta bizarria durou até alguém de bom senso no Ministério da Educação se colocar a si próprio uma simples questão: porque é que um aluno que queria seguir literatura, por exemplo, ou direito ou engenharia tinha que conhecer a fundo o aparelho digestivo do coelho? Não seria o caso de alguém que decidisse ir para veterinário, obviamente, mas de um aluno do ensino geral…

Pois bem, para quem pensa que idiotices destas foram definitivamente banidas dos currículos dos miúdos dos 9º e 10º anos, eu tenho uma péssima notícia: o aparelho digestivo do coelho está de volta e em força, para infortúnio dos pobres dos alunos! Regressa é numa nova versão: desta vez chama-se T.I.C., que é como quem diz, Tecnologias da Informação e Comunicação.

Os governos anteriores do PS e do PSD decidiram, antecipando o actual Choque Tecnológico que aí vem, que é importante que as novas gerações possuam alguns conhecimentos sólidos acerca das, pomposamente designadas, Tecnologias da Comunicação e da Informação (eu acho sempre espantoso que o nosso futuro esteja nas mãos dos humores e das modas pedagógicas dos políticos que decidem em cada momento o que é importante que se aprenda e o que deixa de ser, mas enfim…). Afinal não queremos uma geração de analfabetos informáticos, o que está muito bem. Até aqui estamos todos de acordo: faz sentido uma disciplina que ensine aos putos o que é um PC, o Word, o Excel, a Net, enfim, essas coisas, hoje indispensáveis para muitos de nós que as aprendemos sozinhos.

Agora o que não faz qualquer sentido é que a disciplina se tenha tornado, na prática, num curso especializado de informática erradamente dirigido a miúdos de 14 e 15 anos. Percebe-se o que aconteceu: a clique técnica ligada à informática, pegou na ideia e, com vistas curtas e tecnicistas, toca a carregar em coisas tão imprescindíveis para um utilizador como Rams, Bus, motherboards, drives internas e externas, hertzs e caches… Enfim, puxaram para o que sabem, para a visão que têm dos computadores. Perdeu-se assim uma excelente oportunidade de constituir uma disciplina interessante, que deveria ser, por um lado, técnica – centrada na operacionalidade dos computadores – e, por outro, reflexiva – as questões da comunicação e da informação na sociedade contemporânea não se reduzem à utilização acrítica de um PC, este é só um meio não o fim em si.

No programa da disciplina de TIC lê-se que «tem como objectivo global promover a utilização generalizada das Tecnologias da Informação e Comunicação nos alunos do 9º e do 10º anos». «Utilização»... «Generalizada»... Percebe-se o que se pretende. Mas na prática os alunos a quem é suposto transmitir conhecimentos na óptica do utente têm que gramar com uma minudência tecnicista absolutamente supérflua.

A impressão que dá é que quem fez este programa pensou nos empregos da malta informática e não nos alunos. E os governos concordaram. Vejam-se os manuais da coisa: o que eu tenho em mãos – da Porto Editora – é um rochedo denso, pesado, graficamente carregado, com letra miudinha de meter medo para caber lá tudo.... 285 páginas de papel fininho, um mastodonte em todos os aspectos, gráfico, literário e literal. Pelo meio os alunos aprendem coisas tão importantes para a sua vida prática e até para a sua vida como utentes de um computador como, por exemplo:

- O interior de um PC (fundamental, nem sei como é que ainda consigo usar o Word sem conhecer o interior da carcaça que aqui tenho); A motherboard; O CPU; Memórias tipo ROM e tipo RAM (!!!!); O BUS; Plotters; Conectores VGA ou SVGA; Cores resolução 640X480 e outros números; Sistemas operativos dos tipos CLI, GUI, etc. Chips controladores; ROM BIOS; Dispositivos de conectividade a redes de computadores; Sistema operativo MS DOS (até tu…);Limpeza e desfragmentação de dicos; Redes LAN e WAN; Código binário.

Pelo meio os putos têm que responder a perguntas de capital importância como:

- «Descreva as principais sessões de uma motherboard, bem como as funções genéricas de cada uma dessas secções.»

Ou:

- «Apresente uma classificação dos principais meios de memórias secundárias utilizadas nos sistemas informáticos e compare-os entre si quanto a vantagens e desvantagens.»

Ora fónix! Pobres putos! Entendamo-nos – um programa deste tipo é igualzinho a qualquer um dos livros que por aí se compram nas estantes de informática. É dirigido a técnicos de informática e não a alunos que o não pretendem ser. Faria todo o sentido num curso específico com essa orientação; é absurdo, nestes moldes como componente geral dos 9º e 10º anos. De resto são os próprios alunos que têm que aturar esta estopada idiota que se queixam. Eu falei com alguns:

A Sofia: «É a mesma coisa que um tipo que quer tirar a carta de automóvel ser obrigado a saber a mecânica profunda do carro, a sua constituição pormenorizada, etc».
Bem visto, Sofia! Eu preciso de saber o código da estrada, de saber conduzir e de um mínimo de aspectos técnicos. Para problemas complicados chamo um técnico ou um mecânico, como acontece com o PC...

O João: «Baixei a média por causa desta seca. E o pior é que não percebo para que é que isto me serve.»

O Daniel: «Não me aquece nem me arrefece. Passo a vida no computador e o que sei para usar PC já o sabia antes. O que aprendo de novo não me interessa nada.»

E assim se matou, logo à nascença, uma oportunidade de criar uma disciplina que até poderia ter algum interesse. Os autores do «crime» foram os espertos que – com a conivência dos governos centrões - se encarregaram de a transformar numa inanidade. Daqui a alguns anos, certamente, um Miguel Sousa Tavares da altura escreverá nos jornais um artigo em que se lamentará dos tempos perdidos no liceu, quando o obrigaram a estudar este sucedâneo para as novas gerações do aparelho digestivo do coelho. Vai dizer que os coelhos do seu tempo têm a forma de máquinas electrónicas e órgãos com nomes esquisitos que são iniciais de palavras inglesas.

1 comentário:

Anónimo disse...

Desculpe-me, mas acho que você está um pouco equivocado, por dois motivos: conhecimento sobre o hardware pode ser muito útil sim, e não só para quem vai trabalhar na área, mas para qualquer pessoa que utilize o computadores, principalmente para evitar de ser passado para trás por tecnicos e economizar dinheiro com coisas simples. Além disso, conhecer sobre o sistema digestivo dos coelhos pode não ser útil, mas por que você acha que alguém que vai estudar engenharia precisa conhecer sobre historia ou literatura? Assim como qualquer pessoa deve ter conhecimentos basicos sobre as ciências humanas, também é preciso ter conhecimentos básicos sobre ciências naturais para que o homem entenda o mundo à sua volta, o que pode incluir os diversos tipos de sistemas digestivos. Inclusive, eu estava pesquisando sobre o sistema digestivo dos coelhos, sem motivo nenhum a não ser o amor pelo conhecimento, quando encontrei seu artigo, e devo dizer que gostaria muito de ter aprendido sobre esse assunto no colegial.