27/06/05

Ravelstein, de Saul Bellow, por AlquimistaDaDor

Isto já foi publicado na Gótika e já saiu no verso de um formulário de Nota de Prova, mas agora que faleceu - no mês passado - o grande Saul Bellow, aqui se repescam alguns excertos do seu livro “Ravelstein”, uma obra prima do mestre. Quem quiser ainda encontra este livrinho por aí. A tradução é excelente e é do Rui Zink.

“Éramos completamente abertos um com o outro. Podíamos dizer o que nos ia na mente sem receio de ofender. Em ambos os lados, nada havia para dizer de demasiado pessoal, ou embaraçoso, nada de demasiado terrível ou criminoso. (...)

Mas o Abe não queria que eu o consolasse por ser quem era. Ele teria apreciado mais se eu tivesse rido do seu incorrigível desmazelo, dos seus velhos tremores desajeitados. Ele apreciava a comédia pura e dura, os velhos sketches de revista, as frases assassinas, a rudeza e a sátira cruel. (...)

Esta era a sua maneira de expor um assunto – não propriamente lisonjeira, mas ele nunca lisonjeava ninguém, nem falava connosco para nos achincalhar. Ele simplesmente acreditava que a capacidade de deixar a nossa auto-estima estrutural ser atacada e feita em cinzas era uma medida da nossa seriedade. Um homem devia ser capaz de ouvir, e de aguentar e de ultrapassar, o pior que pudesse ser dito dele. (...)

Eu tinha feito a descoberta de que, se virmos as pessoas à luz do cómico, elas tornam-se mais apreciáveis – se falarmos de alguém como sendo um chuço grosseiro e cheio de gases, damo-nos depois muito melhor com ele, em parte porque temos a noção de que fomos o sádico que lhe retirou os seus atributos humanos. E também porque, tendo sobre ele exercido alguma violência metafórica, lhe devemos uma consideração especial.”

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