16/06/05

Só Quando As Vacas Vierem À Varanda..., por Bulawayo

Nas décadas seguintes à independência da madre britânica, a Rodésia manteve uma prosperidade económica e um crescimento inigualável em África. Mesmo após a mudança de regime para o actual Presidente Robert Mugabe, o renomeado Zimbabwe era um farol no meio da noite africana, com uma agricultura pujante, forte indústria e um centro de comércio e finanças que regionalmente rivalizava com a África do Sul branca.

Só que Robert Mugabe começou a temer perder o poder e entrou em delírio. O Velho entrou em roda livre e ninguém parece ser capaz de pôr termo à espiral. Começou por “africanizar” a agricultura expropriando todos os proprietários brancos e por tabela e consequência tudo o que era branco, rico, remediado, organizado ou com dois dedos de testa negra, branca ou mestiça fugiu como pode.

Hoje o Zimbabwe não existe para lá da vontade do seu presidente. Uma potência regional rica, financeira e exportadora, vive hoje da caridade da farinha que lhe vem de avião, tem 80% de desemprego, 144% de inflação e no meio das terras mais férteis de África morre-se de fome e desespero.

No livro “O Outono do Patriarca”, que demorou 14 anos a escrever a Gabriel García-Marquez, este descreve em fôlego contínuo – um bocado à maneira da torrente incessante dos pensamentos de Molly Bloom, no famoso capítulo 18 do Ulisses de James Joyce – o único mito global criado pela América do Sul: O Ditador.

No Ditador do Gabo, o povo só se convence da morte do mesmo - que ocorreu muito tempo antes - e só vence o medo da sua paranóia delirante, quando vê as vacas do palácio presidencial a ruminar à varanda. O Ditador estava morto e putrefacto há muitos dias e toda a gente sentia o cheiro, mas ninguém se atrevia a questionar a sua ordem estabelecida. Já o haviam feito antes e tinham-se dado mal.

Com Mugabe passa-se o mesmo. O Ditador está morto e putrefacto. Só continua a existir a sua paranóia alucinada que o levou agora a lançar a policia e o exército contra os bairros e cidades onde o seu partido não venceu nas últimas eleições, numa operação que chamou de “Murambatsvina” (Limpeza da Imundice), em que procedeu à demolição mais de 20.000 casas, prendeu mais de 30.000 pessoas e desalojou mais de 200.000 pessoas que neste momento dormem ao relento do inverno zimbabwano.

O povo está subjugado e aterrorizado. A comunidade internacional, regional e mundial, nada faz. Espera-se pacientemente que as vacas assomem à varanda…

Sem comentários: