20/06/05

Torpedo, 1936 – o maior machão da história da BD, por Ferrabrás

Eu irrito-me facilmente com os bons da fita, como expliquei há uns tempos atrás no post daqui do tapor, Morte aos Bons da Fita (2005_05_22_tapornumporco_archive.html). Durante muitos anos andei muito chateado com os bonzinhos. Até que, finalmente, li uma BD emprestada pelo JPC Palavrar (Saravá grande Jota) e senti-me vingado, ainda que por instantes, deste mesquinho e moralista mundo dos bons da fita. O livro chamava-se Torpedo-1936, uma edição da Futura, e, através dele, conheci e imediatamente fiquei fã de um dos maiores «injusticeiros» que encontrei na vida. Torpedo é o cognome do mais famoso personagem criado pela dupla Sanchez Abuli/ Jordi Bernet, respectivamente, argumentista e desenhador da série. Abuli nasceu em França mas fixou-se em Espanha; Bernet é espanhol. No país vizinho são muito conhecidos, não só por serem os criadores dogrande Torpedo, mas também por outras séries de entre as quais destaco Clarita de Noche, a história de um prostituta ingénua.

Torpedo é um gangster da pior espécie – isto é uma redundância, um verdadeiro gangster é sempre da pior espécie. A moral é-lhe desconhecida, ele é um é simples assasssino a soldo que vende os seus serviços-Colt 45 a quem der mais. Ás vezes chega mesmo a mudar de campo e a acabar com o próprio mafioso que lhe pagou por um servicinho, apenas porque a sua vítima abriu ainda mais os cordões à bolsa. Não se pode descer mais baixo que isto. Mas não se pense que este Torpedo desumano e absolutamente mau (ou simplesmente amoral) nasceu de um parto tranquilo. Não. Originalmente, o desenhador de Torpedo foi o americano Alex Toth que não aguentou a maldade do personagem e acabou por desfazer a dupla com Abuli. Toth já estava irremediavelmente contaminado pelo espírito moralista americano e queria fazer um Torpedo bom, ou, pelo menos, com um fundo bom. Abuli não cedeu e ainda bem: Luca haveria de ser um canalha, um duro, um gangster a sério sem romantismos nem lamechices. Toth foi à vida dele e Torpedo cresceu saudavelmente mau pela pena de Sanchez Abuli e traço de Jordi Bernet. Cada vez pior.

Na qualidade de personagem de ficção mais politicamente incorrecta que alguma vez foi criada, Torpedo, como não podia deixar de ser, é um porco machista e «sexista». Nas suas histórias as mulheres ocupam um papel quase sempre submisso. Quando assim não é, quando as mulheres aparecem no papel de ricaças poderosas, ainda é pior porque com o desenrolar da história acabam infalivelmente humilhadas pelo nosso herói.

É o caso de Miami Bitch, estória publicada no volume 5 da Futura. Torpedo é contratado como segurança por um milionário que «quando tem falta de papel higiénico, limpa o cu a notas de mil.» (sic). Acontece que a namorada do milionário é uma verdadeira lady, daquelas que gostam que lhes abramos a porta do carro e que as deixemos passar à frente nos restaurantes. Muito fina, um verdadeiro primor de delicadeza! Ainda por cima, pedagógica, faz desde logo intenção de domesticar as maneiras rudes de Torelli. Quando Torpedo comenta, por ocasião de um cházinho com torradas, que «Este local é pardalísiaco», a menina , muito indignada, faz questãode o advertir:
- «Não se fala com a boca cheia, senhor Torelli».
O nosso Torpedo quase cospe a porcaria das torradas mas aguenta-se sem reagir. No entanto, para quem já está familiarizado com a lógica Abuli/Bernet, percebe que esta afronta, ainda por cima vinda de uma gaja boazona com ares de madame, terá que ser reparada. E assim é: duas páginas mais à frente, a nossa menina está num estado de cio incontrolável depois do namorado velhote milionário a ter excitado e de ter fraquejado na hora da verdade… Luca aproveita a deixa e invade o quarto da senhora. Mete-a na ordem com um estalo nas ventas, Plaf!, e por entre gritos de «larga-me porco, besta, selvagem» salta-lhe para cima. Algumas tiras mais á frente, a ex-madame já está de joelhos, enquanto abocanha o zezinho. Incontrolável comenta a menina:
- «Que… Li… Do!»
Ao que Torpedo, qual cavalheiro esmerado, replica:
- «Não fales com a boca cheia!»

Papéis invertidos,vingança consumada. O gangster grunho acaba a dar lições de etiqueta á senhora fina. Na verdade da cama e na crueza dos instintos, Torpedo assume o controlo da situação e verga o orgulho possidónio da fêmea. Esta humilhação é a revelação do carácter da mulher: para lá do verniz, das maneiras e do cházinho com bolachas, o que há, afinal, é «uma putéfia». Que é como quem diz, nas histórias de Bernet e Abuli as mulheres ou são submissas ou, se o não são, pior: acabam invariavelmente humilhadas, confrontadas com a sua baixeza original. Não é bonito não senhor, mas não creio que seja de espantar que algumas mulheres achem Torpedo muito divertido. Eu não diria que ele não interessa de todo ao público feminino. Este episódio é um verdadeiro tratado da Metafísica de Torpedo: a ontologia porno de Luca Torelli em todo o seu esplendor!

Sem comentários: