27/07/05

Das Lides Forenses – Parte 3 – Na Pinóquio, por AbyssusAbyssumInvocat

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Num certo dia de verão, já lá vão cerca de 10 anos, fui a Lisboa ao Tribunal da Boa-Hora participar num julgamento, em que o meu cliente era ofendido. Eu, pelo menos assim o defendia, apesar de a situação envolver pessoas várias, a modos que passeantes do lado de lá da linha legal, o que é sempre uma coisa muito difícil de definir. Fomos no bólide do meliante, um Volvo azul escuro, imponente, de último modelo e tamanho Tir.

A jogada na Boa – Hora correu bem e o cliente diz que vai pagar o almoço na Marisqueira Pinóquio dos Restauradores. Insisti que não, mas ele insistiu que sim. Fomos por ali acima e logo depois de sair do Rossio e de passar em frente à Estação, admirado fiquei eu, de o artista embicar o Volvo ao passeio e subir por ali acima, obrigando dezenas de passantes a desviarem-se. Isto, logo a seguir à agência Abep e mesmo no meio do largo passeio, onde passam milhares de pessoas por hora. Dez metros à frente, é a entrada do estacionamento subterrâneo dos Restauradores.

- Ó Sr. Miranda então vai meter o carro aqui em cima do passeio, homem, aqui leva já uma multa!
- Não levo nada Doutor, isso diz você. Vá saia lá, que isto fica aqui mesmo.
- Oiça lá não pode ser, caramba, tire daqui o carro, olhe as pessoas que se desviam já a olhar de lado…
- Olham de lado, mas não marram, são mansos. Vá, saia lá que vamos ali à Pinóquio.
- É pá, até me sinto mal de você deixar aqui o carro, olhe aquele policia ali ao pé do Multibanco já a olhar para nós…,
- Não olhe para ele Doutor, não olhe para ele, saia e entre na Pinóquio sem sequer olhar para ele!
- Ó homem, você está doido, a multa e o reboque não lhe compensam o almoço!
- Doutor faça como eu digo, saia, não olhe sequer pró policia – repare que ele nem sequer se aproxima e já estamos aqui no paleio há muito tempo – e vamos à Pinóquio, se eu tiver multa quando viermos fico-lhe a dever outra mariscada, se não houver multa, esta da Pinóquio é por sua conta. Aposta?
- Mau, não aposto nada que aqui há coisa. O que é? Conhece o policia?…
- Vamos, vamos e a ver vamos.

Dito e feito. Respeitei a vontade do alfacinha e entrei no tasco sem olhar pró policia. Que jamais fez o gesto sequer de nos interpelar, apesar de estar de olho na cena toda.

Lá dentro, explicou-me o faralhista a manobra.
- É assim, ó Doutor, o policia vê dois gajos de fato, engravatados, que não lhe ligam nenhuma e metem o carrão azul escuro em cima do passeio em cima das barbas dele, o que é que ele pensa aqui em Lisboa? Que aquilo é Ministro ou pior, Upa, upa, que é melhor não se meter, se fosse povo olhava e perguntava se podia ou dizia que era só um minutinho. Fica ali na dúvida e na dúvida vai-se embora. Vai ver que não nos multa, nem incomoda. Vale a aposta.?

Na dúvida fiquei eu, mas acautelei-me. Em boa-hora o fiz, já que quando saímos da Pinóquio, hora e meia depois da pança cheia de marisco, de um carro estar a estorvar meia Lisboa, o dito cujo lá estava incólume, no sitio, sem multa nem policia à vista. Por pouco não me fodia eu. Nesse dia, nos restauradores tive estatuto de Ministro. Inmultável, Inimputável. Como se vê ainda.

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