23/07/05

Deixa arder!, por Cicuta

A primeira vez que reparei neste gajo foi numa fotografia do Expresso, num sábado a seguir a uma sexta de incêndio de Verão. Tinha ardido um dos muitos matagais deste país e, ainda as cinzas estavam quentes, já o Expresso publicava uma foto do ministro do ambiente da altura, um tal José Sócrates, em mangas de camisa e ar decidido a reconhecer o terreno. Pensei logo que aquele gajo era perigoso, não foi inteiramente racional, foi mais uma intuição. Pareceu-me que um ministro que se deixa fotografar daquela maneira, no «terreno», imediatamente a seguir ao fogo, parecia mesmo que tinha andado com os bombeiros a combater o fogo, devia ser um tipo ambicioso como poucos. Aquela fotografia não era uma fotografia sobre um incêndio mas um texto laudatório sobre um homem que estava ali a trabalhar para sua promoção pessoal.

Fazia-o, porém, de uma forma demasiado directa, básica até, de um modo tão primário que eu julgava incapaz de resistir a uma análise um pouco mais cuidada. A mensagem daquela foto era demasiado óbvia. Dizia: «Eis-me aqui, o homem de acção (as mangas de camisa, a gravata solta), o homem que não se deixa ficar no gabinete (a obsessão do «terreno»), o sheriff de olhar puro, meio desesperado, meio revoltado, o defensor das frágeis árvores queimadas. Eis-me aqui, Wyatt Earp de mangas arregaçadas, que chega à cidade e vai pôr os bandidos na linha».

Aquilo parecia-me, de facto, demasiado construído para ser genuíno. Como uma peça de pechisbeque. Desconfiei logo daquele ministro do ambiente e as minhas dúvidas avolumaram-se quando, muitos fogos depois, continuei a ver a mesma fotografia mais uma, duas, muitas vezes publicada nos jornais – quer dizer, não era a mesma, mas era a mesma sintaxe e a mesma semântica que se repetiam em todas as fotos daquele indivíduo. Até parecia que os incendiários, ou alguém por eles, avisava os fotógrafos que «sua excelência, o ministro do ambiente, ia estar no local do fogo que ainda não ocorrera no dia seguinte, logo pela manhã (um homem de acção levanta-se cedo)»! A construção da imagem daquele ministro parecia-me um exemplo de mau marketing, porque demasiado evidente, pouco subtil, primário até. Infelizmente estamos em Portugal e a coisa pegou…

Depois disto fui levando muitas mais vezes com aquela «máscara sem conteúdo». Inesquecível o seu golpe de oportunismo quando se acusava o governo de Guterres de ser excessivamente tolerante, demasiado dialogante. Era então óbvio que quem quer que lhe quisesse sobreviver politicamente, tinha de descolar daquela imagem de laxismo e de brandura (não foi por acaso que o slogan do sucessor de guterres, ferro rodrigues, foi um sintomático «vota num governo com a mão de ferro»…).

Sócrates chegou-se logo à frente, aproveitando a polémica da co-incineração para compor, mais uma vez, a imagem do justiceiro que decide, que age, que não recua perante os lobbies poderosos. Mas quais lobbies, perguntei-me – a população de Coimbra, os «índios» de Souselas e os Quercus de Setúbal? Pelo contrário, a co-incineração interessava e interessa aos verdadeiros lobbies, esses sim realmente poderosos, da indústria e dos resíduos. Além disso, tal causa, fazia e faz um vistão junto da maioria da população do país que quer ver o problema resolvido…desde que não seja no seu quintal. A coisa rende votos!

O comportamento de Sócrates já aqui estava padronizado – o ministro de mangas de camisa aperfeiçoava a sua imagem, afirmava-se como um homem de acção, de pulso firme, que não cede perante os poderosos. Na realidade era e é exactamente o contrário: Sócrates é reverente com os poderosos e tirânico com os mais desprotegidos. Quem quiser analisar as suas várias intervenções públicas, facilmente detecta um aturado trabalho de imagem, embora de composição imediata, uma construção de cabeça de engenheiro (dos maus), com mensagens muito simples e directas. Por detrás disto, nada, zero, nem uma ideia coerente, nem um discurso de fundo, nem princípios consistentes. Apenas uma máscara vazia que rapidamente faz suas, as ideias e as causas que dão votos.

Passado uns tempos e o desastre-guterres, passado o esfaqueamento político de ferro rodrigues por um sinuoso presidente da república, eu comecei a espantar-me com as sondagens que davam Sócrates como o futuro líder do PS. Na realidade o meu espanto era naïf – neste país, estas coisas pegam, como é que eu ainda não tinha percebido isso.

Hoje o tal ministro das mangas arregaçadas é o primeiro-ministro de Portugal! Mais uma vez com a colaboração de um presidente da república que a história há-de julgar e com a ajuda involuntária de um boémio político sem credibilidade, santana, de seu nome. Às vezes, ainda me admiro como é que o gajo das mangas arregaçadas é o actual primeiro ministro, mas logo a seguir penso que temos o que merecemos, um engenheiro inculto e mal preparado que é um sucesso num país analfabeto.

Sócrates continua rigorosamente o mesmo: governa para se auto-promover. Continua a compor a imagem do justiceiro imaculado, duro e autoritário. Não tem ideias nem estratégia para o país, governa de uma forma conjuntural, em flagrante contradição com o que defendia há uns meses atrás. Fizesse santana metade destes disparates, e o que não se diria e faria... O justiceiro aumenta os impostos, contra o que tinha prometido na altura da campanha, ataca violentamente a classe média, declara os profs – mais uma vez com a ajuda do escorregadio presidente – como os grandes culpados da crise (e o país aplaude, a estratégia já é conhecida, cascar nos fracos e fazer vénias aos poderosos), exige listas detalhadas de grevistas, toma medidas populistas nos tribunais e na justiça, e simultaneamente declara a intenção de realizar obras faraónicas (a OTA e os TGV, os números são impressionantes, mas este é o mesmo indivíduo que já estivera à frente da organização do supérfluo euro e dos seus utilíssimos dez estádios novos) e continua a fechar os olhos à fuga ao fisco, às escandalosas Scuts e a marimbar-se para o estado social. Entretanto continua o regabofe dos políticos e das suas mordomias – é o auto-constâncio que gasta 1 milhão de euros num ano em automóveis de luxo (vide O Independente), é a nomeação de exilados políticos como Fernando Gomes para a galp a 5 mil contos mês, são as reformas da malta do parlamento, ora bolas...

Às vezes este país dá-me vontade de emigrar. Quando olho para trás, para os últimos governos de Portugal, só vejo um, um único, que foi competente e andou com isto para a frente: o primeiro de Cavaco. Esclareça-se que nem sequer votei nele. Falo retrospectivamente, o personagem nem me era simpático, mas é inevitável reconhecer a sua competência. Depois dele, eu pensei que o seguinte era o pior desde o 25 de Abril. Mas o que se seguiu foi ainda pior. E o outro pior ainda. Os políticos portugueses são teimosos e, cada governo que se seguiu, conseguiu ser ainda pior que o seu antecedente. Com Santana eu pensei que não era possível bater mais fundo. Enganei-me mais uma vez: este, de sócrates, consegue ser pior. Agora resta-nos deixar que os fogos deste verão acabem com o que resta deste triste país. Quando não houver mais nada a que chamemos Portugal, também nenhum Sócrates de serviço lhe poderá fazer pior.

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