26/07/05

Flint, Michigan, Dezembro/93, por Mangas

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Acendeu um cigarro e disse que ainda era novo para morrer. Que se sentia fraco, mas com vontade de tentar. Destrancou a prótese e sentou-se ao lado da tabuleta com as letras: Vende-se. “Se soubesse, nunca tinha posto os pés naquela puta daquela guerra…”, disse enquanto passava os dedos pelo cabelo quebradiço da quimioterapia.
Costumava contar-me histórias de combate, desenhar com um pau seco na areia as tácticas de guerrilha e descrever as partes divertidas dos métodos de interrogação aos vietnamitas capturados. Uma vez foi três dias de licença a Saigão, com dois companheiros de Montana, e fumou tanta erva que pensava estar em Michigan a caçar patos com o pai. De vez em quando tossia. A seguir, recuperava o fôlego, apontava para a relva seca e falava do pequeno lago no rancho onde crescera, a transbordar de trutas saltitantes.
Quando as primeiras gotas desceram, o cigarro apagou-se e ele sorriu-me, com os olhos cheios de nada.

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