08/07/05

Goran Bregovic em Aveiro, uma música dos diabos!, por Sokata

Ontem esteve em Aveiro um dos músicos mais criativos dos últimos anos: o bósnio Goran Bregovic e a sua Weding and Funeral Orchestra (entretanto, no dia anterior, Coimbra desenrascou-se com uma tal de Mafalda Veiga…). Uma delegação não oficial do Porco também lá esteve e garante que foi um excelente concerto.

Ouvi Bregovic a primeira vez quando, há uns anos atrás, vi O Tempo dos Ciganos, um filme fabuloso do realizador, hoje consagrado, Emir Kusturica, o mesmo de Underground, de Gato Preto Gato Branco ou de Arizona Dream. Pessoalmente não gosto tanto de nenhum destes filmes, como gostei de O Tempo dos Ciganos, uma obra prima do burlesco. O Tempo dos Ciganos é uma comédia/drama com uma sensibilidade comovente a fervilhar num ambiente de ciganos, crianças de rua, ladrões, putas e chulos, galinhas e capoeiras e uma personalidade estética inovadora. Entre muitas das coisas que adorei no filme, uma chamou-me particularmente a atenção: a sua incrível banda sonora feita de cornetas, acordeões, latas a fazerem de baterias, e cânticos belíssimos de mulheres e crianças. A música, ora trágica ora deliciosamente cómica, era de Goran Bregovic, esse mesmo que ontem pude ver ao vivo. Durante um ano ou dois eu procurei nas estantes das lojas de discos de Coimbra, Porto e Lisboa a banda sonora d´O Tempo dos Ciganos, mas invariavelmente, os empregados olhavam para mim como se eu fosse um bombista à procura da bomba desconhecida. Nicles! Até que um dia encontrei, finalmente o disco, creio que numa mega store Londrina.
O tempo passou e, entretanto, Bregovic, tornou-se um nome relativamente conhecido, apanhando a onda da World Music. Continuou a trabalhar com Kusturica e gravou com Cesária Évora e Riuchy Sakamoto. Ontem, como ele disse, veio (creio que pela segunda vez) a Portugal «porque não tinha convites de outro lado».

O concerto foi como a personalidade de Bregovic e a da sua música: bizarro. Abriu como eu nunca tinha visto: em vez de aparecerem no palco, como quaisquer músicos normais, os membros da Weding and Funeral Orchestra, surgiram de trombones, trombetas, saxofone e cornetas no meio do público, que se levantava das cadeiras e rodopiava, sobressaltado. A energia da fanfarra foi tanta que à segunda música já estava toda a gente de pé a dançar a empilhar as cadeiras de modo a abrir espaço para o arraial que se adivinhava. Isto é o sonho de qualquer intérprete de música popular, mas Bregovic mandou parar tudo e pediu delicadamente para se sentarem, que ia tocar durante muito tempo e ainda a noite era uma criança (de facto tocou duas horas e picos). Contrafeita, que a música puxava, a malta lá se sentou.

O concerto teve momentos hilariantes e outros sérios. Em particular nos cânticos fúnebres, Bregovic não admitiu faltas de respeito e por duas ou três vezes mandou as cantoras, vestidas com trajes tradicionais bósnios, como os restantes músicos, recomeçarem os belíssimos cânticos de reminiscências árabes e orientais. O homem mostrava assim que, pese embora a energia e a o burlesco de certas músicas, não era uma palhaço e obrigava-nos a sair da gargalhada para o registo sério. Aquela música é uma salganhada fantástica de referências, um cruzamento notável entre o étnico e o moderno, o oriente e o ocidente, o eléctrico e o acústico, o cómico e o trágico. A mim fez-me lembrar a música do demónio – seja lá o que isso for é parecido com isto -, principalmente pelos grupos descontrolados que, não sabendo muito bem como reagir áquilo (como é que se dança uma música que, por um lado, não nos deixa estar parados mas, por outro, tem um ritmo completamente desenfreado e absolutamente estranho aos nossos hábitos de frequentadores amestrados de Discotecas?). Mexiam-se, saltavam e pulavam no que me parecia um sabbath de um quadro de Goya. No fim, acabou tudo a dançar Kalashnikov, um clássico da banda que eu ão fazia ideia de ser tão popular entre o público aveirense.
Resta-me dizer que convidei o Mangas, o maior dos cinéfilos do Porco, para ir comigo ver este concerto. E o gajo, como sempre, disse que estava muito cansado e que tinha que dormir (o Sérgio Godinho diz que «temos a morte toda para dormir»). Eu cheguei a casa passava das duas da manhã e hoje é dia de trabalho. Mas aposto que estou muito mais descansado que o sorna do Mangas.

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