06/07/05

O Espírito do Golf – Mito ou Realidade?, por John of God Pine Tree

A propósito da última ida da malta ao golf – como muito bem documenta o post anterior – muito se tem discutido entre nós o que é «o espírito do golf». Há quem defenda que é um mistério inacessível a mentes simples como nós, qualquer coisa apenas tangível por meia dúzia de cérebros eleitos que captam as subtilezas daquilo. E também há, quem ache, como é o meu caso, que não há nenhum especial espírito do golf, há é uma colecção enorme de disparates e bizantinices e é a isso que alguns chamam «espírito do golf».

Ou melhor, eu acho que o espírito do golf existe, mas não no sentido que os seus defensores lhe atribuem. O «espírito do golf», se é aquilo que ele tem de específico, é precisamente o que ele tem de negativo, é um espírito agoirento, de coisa má. A individualidade do golf em relação a outros desportos está, antes de qualquer outra coisa, no conjunto de futilidades que caracterizam esta modalidade.

O espírito do golf é aquele modo ridículo de equipar mai-los gajos que levam aquilo a sério. Vocês podem não acreditar, mas aqueles gordos que um gajo pensa que só existem na televisão e não na vida real, usam mesmo calções de pregas pelo joelho e pólo por dentro dos calções com a barrigona saliente. Eu já vi mesmo ao vivo, ao pé de mim, gajos com meias pretas quase pelo joelho, acreditem ou não… É claro que, deste ponto de vista, nem um só de nós tem espírito de golf. Arranjámos todos maneira de contornar aqueles equipamentos, mantendo uma vaga ressonância da coisa que impede os puristas de embirrarem connosco.

Também é próprio do espírito do golf a mania que aqueles gajos têm (apesar de adorar jogar golf eu nunca consigo deixar de pensar nos gajos que jogam como «aqueles») de dar nomes ingleses a tudo e mais alguma coisa, mesmo quando há palavras portuguesas para designar o que se quer dizer. Uma vez, uma amigo meu que foi comigo ao campo pediu-me, quase em pânico que fosse com ele ao balcão pedir um balde de bolas porque estava com receio de haver um palavrão inglês para designar «balde de bolas» e ele não saber!.. De resto, eu insisto sempre que vou a um campo, em pedir «uma entrada», altura em que, invariavelmente, o gajo do balcão faz questão de me corrigir: «um green fee», diz ele. E quando peço o cartão para marcar as pancadas o tipo diz outra vez, como se estivesse a converter os ímpios: «o scorecard». Os espanhóis, neste particular como em todos os outros, estão à nossa frente: para eles «fairway» diz-se «la calle» e ponto final.

Outra coisa típica do espírito do golf é a bizarria dos sistemas de contagem. Basicamente, o golf é um jogo simples: trata-se de meter a bola num buraco, usando vários tipos de tacos, com o menor número de pancadas possível. Qualquer criança entende isto. No entanto, para impedir que nós, os simples, topemos a coisa à primeira, houve uns cérebros sinuosos que se lembraram de inventar uns sistemas de contagem - mais uma vez com nomes ingleses como net e gross que têm a ver com os handicaps – que é para poderem chamar burros aos outros. Conclusão: eu ainda não percebi muito bem como é que aquilo se conta, mas depois de muitas e aturadas explicações, já me vou desenrascando. Faz lá algum sentido que, depois de um torneio, um gajo espere uma semana para saber em que lugar ficou e conhecer a classificação final? Tá-se mesmo a ver não é?

Estes são só alguns exemplos daquilo que eu encontrei de específico nesta modalidade. É por estas e por outras que eu acho que o espírito do golf é uma coisa negativa e Deus me livre de um dia vir a ser possuído por tal coisa.

Depois, é claro, existem umas utopias acerca da modalidade, umas ideias bonitas que eu raramente vejo serem praticadas em campo. Podia ser isso o espírito do golf mas infelizmente, o que vejo é que quem pratica esses idealismos são os gajos como eu e a malta aqui do Porco – que é duvidoso terem o tal «espírito» - e não a maior parte dos labregos endinheirados que vejo nos campos, esses sim, a tresandarem a «espírito». Por exemplo, a regra da passagem: nós damos sempre passagem aos outros, mas é curioso, nunca ninguém me deu passagem, muito pelo contrário, só não nos atropelam senão puderem; ou o cuidado com o campo, aspecto fundamental deste jogo: em vez de cuidado em reparar a relva, o que se vê mais frequentemente, são autênticos bulldozers a dizimar tudo à sua volta. Pra não falar dos charutos e cigarros espalhados pelo campo, cascas de banana ou restos mortais de chocolates snickers… Ou ainda, o cuidado em não jogar enquanto o grupo da frente não estiver a uma distância segura. Nós, aqui do Porco, devemos ser estúpidos porque chegamos a perder o ritmo do jogo à espera que os jogadores da frente se ponham a uma distância segura. Mas, só para dar uma ideia, no jogo de segunda-feira, em três ocasiões levámos com bolas dos grupos de trás a cerca de dois metros! Claro que o Lecter queria desfazê-los e estava cheio de razão. Mas em nome dessa coisa etérea que é o espírito da coisa, que ás vezes também se confunde com uma subserviência a raiar o intolerável, lá o impedimos de fazer jorrar o sangue que ele deveria ter feito jorrar. Mas da próxima vez, tou com ele pela simples razão de quem um dia um de nós apanha mesmo com a porra de uma bola nas trombas...

Em suma, o espírito do golf bem podia ser esta coisa mundana e simples da civilidade e da educação, mas infelizmente isso é coisa que, na prática, eu não vejo assim tanto nas ocasiões em que tenho frequentado os campos da modalidade. Vejo isso em teoria e até costumo ler nas revistas da especialidade uns artigos de uma espécie de metafísicos da coisa que acham que o comportamento de uma pessoa no campo é, invariavelmente, um reflexo do carácter das pessoas na vida real. Isto é completamente idiota: eu já conheci indivíduos violentos na vida real que não faziam mal a uma mosca dentro de um campo e, pelo contrário, pessoas muito honestas na sua vida que dentro de um campo de ténis se portam como gangsters autênticos. Não faz sentido extrair o carácter de uma pessoa do seu comportamento numa modalidade desportiva. Mas se assim fosse, eu teria que concluir que, a julgar pela amostra, as pessoas que jogam golf não são assim muito recomendáveis…

Quem me aturou até aqui deve estar a pensar porque raio é que eu ainda jogo golf… Mas a resposta é, mais uma vez, simples: porque o jogo em si - esta coisa maravilhosamente inútil de andar a tentar meter uma bola com um taco num buraco - é realmente divertido e interessante. Eu gosto mesmo do jogo, tal como gosto de jogar futebol que é outra coisa estupidamente simples (11gajos a tentar meter uma bola na baliza de outros 11), como gosto de ténis (que consiste em bater a bola com uma raquete uma vez mais que o adversário, dentro do limites do campo). Tal como estes desportos, o golf fascina-me pela sua simplicidade que os «golfistas» tentam complicar. De resto, aquilo que podia ser o espírito do golf, num sentido positivo, não é mais que o desportivismo inerente a qualquer desporto, seja o golf, o futebol, o andebol, o tiro ao alvo ou as corridas de sacos. Saber perder e saber ganhar, respeitar o adversário e, ao mesmo tempo, ser capaz de encaixar as críticas, saber rir dos outros e, sobretudo, de si próprio, aprender a não se levar tanto a sério, ser sempre honesto e jamais ser batoteiro, tudo isto são predicados que eu sempre reconheci noutros desportos e que, evidentemente, também são essenciais nesta modalidade. Isso, contudo, não é nenhum espírito especial do golf mas o que ele tem que ter em comum com todos os outros desportos. Sem estes predicados, sem desportivismo, nenhum desporto tem sentido, nem cumpre a sua função de nos fazer felizes e o golf não é excepção. E este desportivismo geral é tão importante que, sem isto, o golf torna-se num jogo de caca de donzelas sensíveis e cretinos novos ricos.

1 comentário:

Anónimo disse...

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