12/07/05

Os Vinhos Puta e o Trio Sulfúrico, por Salmanazar

Image hosted by Photobucket.comComecemos por explicar o que são os Vinhos Puta.

A autoria do nome e definição deste tipo de vinhos cabe por inteiro ao simpático e eloquente velhote francês da foto ao lado, que dá pelo nome de Hubert de Montille, o qual produz com a família o vinho de terroir: Le Mitans – Volnay. Estamos portanto perante o verdadeiro Terroirist. Metam Terroirist no Google Imagens e vejam quem aparece.

No dizer do bom do Hubert, os Vinhos Puta são aqueles vinhos vistosos e espampanantes que prometem muito à vista e ao nariz e que a meio da prova de boca nos abandonam por completo, porque nada mais nos têm para dar. Deixam-nos sozinhos à espera do mais qualquer coisa que nunca vem.

Os Vinhos Puta opõem-se necessariamente aos Vinhos Sérios, aos verdadeiros vinhos. Precisando, os Vinhos Puta opõem-se aos vinhos sérios de Hubert de Montille. Dele e dos outros terroiristes. Que são os vinhos feitos num terroir, feitos com amor, feitos de tradição, de antiguidade romana, de ensinamentos que se perdem na memória dos tempos, de vinhos feitos milimétricamente destinados a velhas pipas de carvalho que os envelhecem a 10, 15 ou 20 e mais anos. Vinhos que se destinam a serem bebidos a lonjuras da data de produção e que por isso mesmo desenvolvem o refinado e raro bouquet (aromas terciários), explodindo então no palato com uma riqueza, complexidade e distinção que jamais se encontram num Vinho Puta. Vivó Hubert, abaixo os Putas.

Ora o Hubert e os outros Terroirists que com ele emparceiram no Documentário “Mondovino” do realizador Jonathan Nossiter, abominam estes Vinhos Puta e explicam quais são, a que sabem, porque surgiram e sobretudo nomeiam as bestas imundas que lhe estão por detrás.

Les Terroiristes apontam o dedo em riste ao Trio Sulfúrico que desgraçou e desgraça a vinhaça. Para eles esse Trio é constituído pela família Robert Mondavi, (a maior multinacional mundial do vinho – americana portantos), pelo crítico de vinhos Robert Parker (americano e amigo dos Mondavi et pour cause) e o enólogo francês Michel Rolland que trabalha também para os Mondavi e é amigo do Parker. Une La Palissade Du Vin. No filme do Nossiter nenhum dos três sai bem da fotografia e diga-se desde já que independentemente das cerradas culpas no cartório de cada um dos três, a máquina foi avariada de propósito para a foto sair verde-vómito. Dá vontade de os fuzilar a todos e beijar as bochechas do Hubert. Jonathan Nossiter Riefenstahl, aqui te baptizo, meu ganda bêbado.

Quando o poder económico dos Américas (leia-se testa de ponte – Mondavi) chegou ao vinho, nos anos 50 e 60, depararam-se com a muralha dos terroirs europeus, sobretudo franceses. Sem terroir, sem tradição e sem tempo para envelhecer o que quer que seja, os Mondavi à boa maneira americana trataram de alterar o nosso gosto do vinho. Se o gosto dominante no mercado não compra o nosso tipo de vinho, há que mudar o gosto e não o vinho. Até porque o vinho é este e não conseguimos fazer aquele.

O vinho América-Mondavi-Puta era e é, o vinho de cor cerrada, de perfume intenso e paladar uniformizado a baunilha, altamente madeirizado em pipas de carvalho francês novo, de gosto achocolatado, muito frutado, doce, alcoólico, aveludado e fácil de beber. Sim, já sei que vão dizer que esse é o vosso vinho ideal e isso só demonstra como o monstro vos domou.

A cabala vínica do trio sulfúrico que agiu em espiral ascendente (segundo o documentário) impôs este tipo de vinho como vinho de moda e hoje o que se bebe são na sua maioria os Putas dos gigantes multinacionais, com os sulfurosos à frente. Há claramente uma madeirização mundial dos vinhos, uma parkerização e um abastardamento abaunilhado.

A cabala do trio é gigantesca e esmiuçada no Mondovino. O Parker edita o mais influente guia mundial do vinho e nele elogia primordialmente os Putas dos Mondavi e do Michel Rolland (que faz vinhos em 12 países do mundo, incluindo Portugal nas Caves Aliança). Mondavi e Michel Rolland só fazem vinhos Parkerizados. O Rolland trabalha para os Mondavi que fazem o Opus One que merece sempre os mais rasgados elogios do Parker. Os Mondavi compram o Ornellaia italiano e logo de seguida este vinho é elogiado como o melhor do mundo. Etc. etc. Uma pescadinha de rabo na boca.

Até a nossa modesta e iconoclasta Confraria não escapa à parkerização e aos Putas, com muitos confrades a apresentarem à prova os cansativos e abaunilhados José Neiva e Casa Santos Lima, João Portugal Ramos e Esporão. Bonzitos, baratos e de fácil gosto. Mas não passam disso. Falta-lhes o qualquer coisa mais de que ficamos à espera na boca e não vem e entretanto já o vinho se foi.

Para quem como eu os guarda na memória, trago aqui à lembrança o Veja Sicília Único de 1986, o Barca Velha de 1991, o Grão-Vasco Garrafeira de 1982 e o Quinta do Côtto Grande Escolha de 1984. E com este travo de sabor e vida a bailar-me nas beiças da memória, cuspo os Putas no Vomitório e abro os braços ao velho Hubert…

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