23/07/05

Personagens de Liceu – Parte 1: O Alce, por ArmáriosImensos

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O baptismo às mãos do Cão deu-se na primeira aula e logo que a professora chamou o novo artista pelo nome: Alcibíades! Acto contínuo, o cruel do Cão largou um sonoro: Aaaalce! E Alce ficou até ao fim do Liceu.

O Alce até não desgostava da alcunha – e se desgostasse tanto pior, que a piedade era coisa desconhecida do pessoal – e sorria complacente a cada Alce que recebia. Julgo que ele se imaginava com a imagem de animal possante e poderoso e esquecia por completo a parte da larga e farta cornadura.

E o Alce de facto, era um animal possante, um autêntico touro de força e investida. E não havia desporto em que o Alce não fizesse questão de saltar mais alto, chutar mais forte e correr mais além. Em qualquer desporto o poço de força lá estava a rivalizar com a tropa ligeira. A corrida então, era uma perdição para o Alce.

Na altura, o Liceu organizava anualmente uma corrida de corta-mato intra-muros e à volta dos seus edifícios e jardins. Naquele ano havia uma especial rivalidade entre as turmas e os próprios professores de ginástica, que conseguiram transmitir a sanha da competição ao pessoal. Na nossa turma, os dois voadores de serviço era o Alce e o Vice.

O Vice valia pela agilidade e constância de rendimento. Ao Alce, o que faltava em ligeireza, acrescia em raiva e sanha corredora. Nos treinos a coisa era quase ela por ela, com alguma vantagem ligeira do Vice. O resto do pessoal – que queria era descanso – acirrava o Alce e picava-o até ao osso. O Alce mordia os dentes de raiva e corria até avermelhar e azular, mas só rebentava depois da meta. Antes morrer que perder. Com a prova final a aproximar-se e o picanço do pessoal e do prof ao rubro, o Alce e a sua rusticidade parecia que ia levar a melhor. Afinal, a capacidade de sacrifício nunca foi o forte do Vice, e a Glória para ele passava mais pela mesa do que pelas medalhas.

Mas o Alce teve azar. Na aula de ginástica e treino anterior à grande corrida, o prof afinou os motores do pessoal e explicou-nos os alimentos que são mais energéticos e que por isso devem ser ingeridos antes da corrida. E realçou o leite, como alimento fundamental para qualquer atleta que se preze. O pessoal registou e aprendeu. O Alce também, mas perdeu-se no senso comum, que era coisa que no Alce não era tão comum como isso.

No grande dia e ao disparo da pistola o pessoal lá correu pelos jardins de bucho afora. O Alce arrancou em grande velocidade como se a coisa fosse uma corrida de 100 metros e não uma prova de fundo. À segunda volta do grosso do pessoal, já o Alce levava uma volta de avanço. Era a Glória do Alce e a malta aplaudia, alguns até sentados, como era do caso do Cão que aproveitava os sítios esconsos do jardim e da corrida para mais um cigarrinho.

De repente deixou-se de ver o Alce, que desapareceu do mapa por completo. Desaparecido o Alce, limpou o Vice a corrida. Ao pobre do Alce fomos encontrá-lo depois, num canto das veredas de bucho, junto ao campo de basqueteball e a vomitar as tripas por inteiro. No chão um mar de leite escorria por todo o lado. O Alce levou a lição do prof sobre alimentos energéticos à letra e meia hora antes da corrida emborcou mais de uma litrada de leite. Que estava ali no chão vomitada. Foi-se Leite, a energia e a Glória. Naquele dia o Alce não ganhou a corrida mas ganhou uma segunda alcunha: Porca Leitosa.

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