26/07/05

Personagens de Liceu – Parte 2: O Mancamulas, por ArmáriosImensos

Estávamos já a meio da primeira aula de francês, quando o dito cujo entrou na sala. No meio da selvático reino da t-shirt e da sapatilha “Sanjo”, o personagem destoava pelo fato azul escuro, camisa e gravata a condizer. Era o primeiro fato completo que se via entre as hostes canibalescas. A malta já entrosada de outros anos e sempre pronta para meter a “carne fresca” no panelão, arrepiou ali caminho. O rapaz até de maleta de executivo vinha. Em vez de carniça, saia-nos ali na rifa um yuppie de alto lá com ele. Quando abriu a boca para responder à prof o pessoal ainda ficou mais impressionado. A voz profunda e gutural até arrepiava a espinha. Um sucesso de imagem e apresentação.

O personagem irradiava sucesso, dinheiro e prestígio. Alto lá com o bicho, tínhamos ali de certeza candidato a melhor da turma. Infelizmente, a prof de francês avisou logo naquela primeira aula, que na próxima havia teste para ver como estávamos. Ninguém ligou aquilo. Ninguém, menos o yuppie que pareceu um bocado preocupado. E tinha razão para estar. Na aula seguinte e no teste, o Cão sempre atento a quem conseguia copiar mais do que ele, caça o yuppie no copianço e num saque de rapace, rouba-lhe a cábula. Foi o fim do prestígio e do estatuto yuppie. Quando chegámos cá fora já o Cão o apelidava de Manca-Mulas. E Manca ficou até ao fim do Liceu.

O coitado do Mancas era burro comó catano. A coisa era só imagem de totó rico e filho-família. Mau aluno, falho de rasgo e nulo de massa cerebral. O que lhe sobrava em dinheiro, fatitos e pose, faltava-lhe ao longo de toda a carola. O maior desperdício de espaço entre as orelhas que é possível imaginar. Da cábula que o Cão lhe apanhou para o teste de francês de 10º ano (já todos nós, Mancas incluído, tínhamos tido 4 e 5 anos de francês) constavam apenas duas referências, mas que referências: “Moi = Eu; Toi = Tu” Foi o fim da macadada.

Hoje, 20 e tal anos depois da coisa, ainda não consigo deixar de sorrir de cada vez que tropeço no Mancas pela cidade. O Mancas já não nos conhece e não cumprimenta ninguém, lá do alto da sua magnífica importância económica e politica – sim porque o Mancas nesta cidade e hoje em dia é dos graúdos -, mas para nós será sempre o burro do Manca-Mulas, o nabo a quem a professora Lívia Múrias de Português entregava os pontos corrigidos agarrando-os numa ponta e pela ponta dos dedos e dizendo-lhe: “-Tome lá isto que até mete nojo!”; o mesmo Manca que em Técnicas de Tradução levou a tradução do texto até a um Santo Exupério que ninguém viu em lado nenhum, até que o atento Tinó descobriu o nome do autor do texto lá no fundo da página: Saint Exupéry. O mesmo Mancas que não dizia duas palavras numa resposta sem que qualquer professor o corrigisse três a quatro vezes.

Era difícil ter aulas com o Mancas. Não se conseguia parar de rir. A certa altura a Lívia Múrias – uma das melhores, mais marcantes, mas também das mais cruéis professoras que tivemos -, marca-nos o estudo de um poema para casa, com o aviso de que na aula seguinte se ia analisar a coisa. A rifa calhou ao Mancas, que instado à analise começou a analisar:
“- Este Soneto…
- Qual Soneto homem, isso não é soneto nenhum!, corrigia a Lívia.
- …começa com uma parábola…
- Mas qual parábola, meu Deus, isso é uma metáfora,
- …divide-se em quadras….
- Ó valha-me Nossa Senhora, mas você nem contar sabe?
- tem uma estrutura…

E por aí adiante. Um autêntico martírio. Até doía a barriga de tanto riso. Quem ganhava com isto tudo era o sacana do Cão que à conta das massas do Mancas lá ia papando uns almoços no Safari à conta de múltiplas explicações ao burro do animal. Julgo que lá para o final do ano, o Cão até lhe conseguiu ensinar que o “Elle” era “Ela” e que o Santo Exupério não se traduzia.

Hoje em dia, o rapaz brilha nas lides politicas locais, bota a mão em muito daquilo em que aqui se ganha dinheiro e não há jornal ou socilaite onde não apareça aprumado e engravatado a condizer. Este rapaz ainda vai a Ministro! Mas pode ter a certeza o Mancas, que quando aparecer na TV de fatito e gravata, com aquela imagem de prestígio e voz tonitruante, o grito do pessoal será único: Maaanca-Muuuulas! E não, não dizemos quem é. É a nossa private joke. Os Mancas a quem os conhece e os trabalha.

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