07/07/05

Queimem Integralmente E Sem Ser Lido, por DervixeRodopiante

Franz Kafka foi um escritor genial. Para muitos autores ele foi o grande escritor do Séc. XX, e é inegável a sua influência na literatura posterior, no pensamento e até na mera linguagem do dia a dia, qualquer que seja o analfabeto. Já vi muito nabo que nunca leu sequer um livro do Patinhas vir com a expressão “kafkiano” ou “Processo kafkiano”. Não sabem de onde vem, mas sabem o que significa.

Obras como A Metamorfose, O Processo, O Castelo e América são obras-primas e qualquer delas - sobretudo A Metamorfose e O Processo - são traves mestras da literatura ocidental. O Realismo Mágico dos autores latino-americanos assenta e parte de Kafka. Gabriel Garcia-Marquez chega mesmo a declarar que decidiu ser escritor quando ao ler a primeira frase de A Metamorfose viu pela primeira vez que se podia escrever assim. No mais escondido dos livros nós descobrimos a influência de Kafka. Até no Materna Doçura de Possidónio Cachapa encontramos o protagonista identificado como Sacha G.. Um pequeno pormenor influênciado de Joseph K. de O Processo.

O engraçado de Kafka é que sendo o homem o génio marcante que foi a escrever, não é graças a ele que conhecemos a sua obra. Kafka, em vida foi um homem frágil e tuberculoso, sempre enfermiço e apagado que tinha uma fraquíssima opinião de si próprio e pior ainda da sua obra. Em vida publicou em edições menores algumas novelas e A Metamorfose. O Castelo, O Processo e América, são obras incompletas e com capítulos contraditórios e descontínuos que apenas foram publicados após a sua morte.

E essa publicação continua ainda hoje envolta em grande polémica. É que tais obras e outras ainda do grande génio foram publicadas pelo seu amigo de toda a vida, Max Brod. Kafka deixou tais manuscritos incompletos a Max Brod e deixou-lhe esta carta:

“Querido Max,
Este é o meu último pedido: tudo quanto em forma de diários, manuscritos, cartas, minhas e de outros, desenhos, etc., for encontrado nas coisas que deixo (portanto na estante, no armário, na secretária, em casa, no escritório ou seja onde for) deve ser queimado integralmente e sem ser lido, assim como todos os escritos ou desenhos que tu ou outras pessoas, a quem em meu nome os pedirás, tenham em seu poder. As pessoas que não queiram entregar-te quaisquer cartas que possuam, devem, pelo menos, comprometer-se a queimá-las.
Teu Franz Kafka.”

Esta foi a última vontade de Kafka. Pediu-a expressamente a Max Brod e morreu num sanatório de tuberculosos aos 41 anos. Max Brod não respeitou a vontade do amigo. Recolheu tudo, leu, organizou, mandou publicar e geriu o legado de Kafka. No final de cada livro de Kafka editado póstumamente por Max Brod há sempre vários posfácios dele a justificar a sua acção. Mas ainda hoje há muito autor que reconhecendo o legado colossal de Kakfa, critica Brod e defende que a vontade do falecido devia ser respeitada e tudo queimado. Para muitos, quando falam de O Processo, O Castelo ou do América, antes da genialidade da coisa, vem a referência de que são obras “publicadas contra a vontade de Kafka”.

A questão é curiosa. O que faria qualquer de nós no lugar de Max Brod? E se a nossa avaliação de que o legado do amigo é digno de publicação ou de que é genial, estiver errada e aquilo apenas servir de escárnio e gozo sobre a memória do amigo? Correndo tal risco, eu publicava. E vocês?

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