25/08/05

Bécóquedáun, ou Porta-Aviões ao Fundo, ou O Pico e O Fundo, por Je Suis Três Content d’Étre Ici

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Tenho para mim que Ridley Scott, como outros cineastas como Michael Cimino, é daqueles criadores de uma obra só. Atingem a grandeza como num pico de forma e depois é sempre a descer, com alguma irregularidade, como os gráficos do PSI 20 ou as montanhas. Não é a pique mas também nunca mais entusiasma.

O pico da cordilheira criativa deste Scott foi atingido há quase 25 anos, em 1982, com o drama de acção futurista Blade Runner. Talvez se compreenda melhor o feito, sem contudo desmerecer o mérito do realizador, se atentarmos no facto de ter tido a ajuda de um sherpa fora de série na ascensão: O escritor de culto Phillip K. Dick, um dos expoentes da literatura de ficção científica dos anos 50 e 60, que escreveu a novela Do Androids Dream Of Electric Sheep?, em que se baseou o cineasta para o filme citado. Blade Runner é uma obra extraordinária a todos os títulos, e o argumento não é certamente o mais frágil.

Seja como for, Ridley Scott também é produtor. Desde, pelo menos, 1965 que não se limita a criar, a dirigir câmaras, actores e enredos, produzindo desde então dezenas de filmes, dele próprio e de terceiros. O que é que isso interessa? Muito. Faz dele um verdadeiro homem da indústria, particularmente sensível aos mercados, aos públicos, às questões financeiras e comerciais, um mestre no ofício do block-buster e da pipoca – às coisas para as quais, em suma, o verdadeiro e genuíno artista se está positivamente a cagar. E digo isto sem desprimor ou desprezo, que também eu, como quase toda a gente, gosto de block-buster’s: Cumprem a sua função e, no seu plano, são bons porque têm sucesso junto de um grande público. Gosto, no seu plano relativo, mas gosto, sou humano e também gosto de emoções básicas e contextos simples para desenjoar da vida. Venham então eles e que floresça a indústria do cinema! Viva Hollywood e Bollywood e etc.!

Vejo, no entanto, um block buster mais ou menos com o mesmo desprendimento com que vejo um jogo de futebol. Ou como os apanhados na TV: farto-me de rir com aquela merda e divirto-me que nem um perdido apesar de saber que é estúpido e que se me acontecessem a mim algumas daquelas situações ridículas ficaria pior que estragado. É entretenimento e espectáculo, epidérmico. Entretém e exalta a tripa. E dali não se retiram grandes consequências ou ensinamentos, além da satisfação e do prazer imediato, fugaz, não obstante prazeiroso.

É outro plano de satisfação, menos elaborado. E com um block buster também é um pouco assim, sendo que um filme, por mais merdoso que seja, tem sempre a sua história, a sua mensagem, o seu “argumento”, alguma coisa a “dizer”. O que o distingue do restante cinema reside na sua falta de subtileza. Se for demasiado subtil (na medida em que Bergman, David Lynch ou Gus Van Sant serão exemplos de criadores subtis) é um fracasso na bilheteira e no bolso dos Scotts e da indústria. É tudo muito rápido e de percepção imediata, sem grande mistério ou profunda filosofia. Tudo o que está ali em causa, em obras como o Titanic, A Ilha ou a recente Guerra dos Mundos, é entendido por todos em pouco tempo sem ser necessário um particular esforço mental, com recurso a uma estética fulgorosamente (às vezes…) sofisticada e hiper-realista.

Blade Runner tinha precisamente essa subtileza de não ser óbvio, essa enorme qualidade que lhe advém da sua deslumbrante beleza plástica, sem dúvida, mas em grande medida também do trabalho de base literário de Phillip Dick. Subtileza que nunca mais vi nos seus filmes. Pelo contrário, o que retenho dele depois disso são sobretudo picos rasteiros no gráfico como o GI Jane ou o militarista e propagandístico Black Hawk Down.

E enfim chego onde queria começar.
Este último filminho andava-me aqui atravessado desde que foi endeusado neste blogue aqui há uns tempos atrás. Uma maravilha! Deliciava-se o autor, completamente rendido à monumentalidade da obra em tons de verde-tropa e estética de video-clip! Uma coisa prodigiosa! Pois agora é a minha vez de dizer aqui que o Black Hawk Down é uma merda de um filme. Pior: É uma merda de um filme de guerra. E pior porque a um filme de guerra uma pessoa decente exige mais do que simplesmente espectáculo, porque a guerra é um assunto demasiado sério para não dar nos dar um nó na garganta quando assistimos a um veículo artístico de massas ser transformado em mero folheto político de ética duvidosa, sem qualquer subtileza ou escrúpulos – basta atentar, por exemplo, na vomitosa conversa à mesa entre o general norte-americano e o senhor da guerra somali, para se perceber de imediato de que lado e de que forma está o artista.

Black Hawk Down, além de ser propaganda descarada à Casa Branca, ao Pentágono, à indústria de armamento, à direita militarista norte-americana, é um objecto artístico imoral e pornográfico, onde os actores (?) se subsomem num contexto que banaliza a violência, a guerra e glorifica essencialmente uma coisa: As forças armadas dos EUA. Espremido, além deste engajamento ideológico e patriótico, não tem mais sumo nenhum. É um continente sem conteúdo. Com menos sofisticação visual mas com os mesmos fundamentos e a mesma superficialidade vemos, vá lá, as inanidades do Chuck Norris a resgatar POW’s no sudeste asiático.

Black Hawk Down será certamente um bom espectáculo, a tecnologia, o dinheiro e algum talento fazem milagres nesta indústria, mas reside numa dimensão ético-estética oposta à de filmes de guerra sérios, belos e profundos como o Apocalipse Now, o Ran ou mesmo o Platoon, com personagens humanos e complexos, dramas que verdadeiramente nos interpelam, nos incomodam, nos fazem mergulhar na nossa própria escuridão mais íntima, a escuridão onde tem origem a própria guerra e a violência. Que nos obrigam, enfim, a reflectir para lá da pirotecnia e dos defeitos especiais.

Black Hawk Down, mesmo esquecendo os elementos ideológicos e propagandísticos primários, é um filme menor, um filme de guerra banal mas armado ao cagalhão, um entre muitos que pouco ou nada acrescentam, e não ficará certamente marcado a letras douradas na história do cinema. Nem na filmografia do seu realizador, sequer.

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